«Qualquer ingestão de álcool pode ser lesiva para a saúde»

Álcool: os efeitos do consumo excessivo

«O consumo excessivo de álcool em Portugal é um problema de saúde pública» e, por motivos biológicos, os efeitos nas mulheres são piores, alerta Beatriz Rodrigues, médica gastrenterologista, numa entrevista que nos faz ponderar seriamente sobre a ingestão destas bebidas.

  • PorCarlos Eugénio AugustoJornalista

  • Entrevista aDra. Beatriz Rodrigues
    Médica gastrenterologista com subespecialidade na Ordem dos Médicos em Hepatologia

Os dados do mais recente Global Status Report on Alcohol and Health, um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) que analisa os hábitos do consumo de bebidas alcoólicas em todo o mundo, não enganam. Regra geral, o hábito da ingestão de álcool per capita na maioria dos países situa-se (muito) acima das recomendações, e, perante esse cenário, a OMS já definiu, até 2035, uma estratégia global para reduzir em dez por cento os malefícios desse uso abusivo. Portugal está entre o lote dos maiores consumidores, com níveis acima da média da União Europeia, facto que não espanta Beatriz Rodrigues, médica gastrenterologista, com subespecialidade em Hepatologia, pois, «infelizmente, os portugueses sempre tiveram um consumo de álcool muito elevado, algo que nos devia envergonhar. Até porque, nos últimos anos, apesar de muitas campanhas e apelos, essa tendência tem aumentado», diz, em entrevista à Revista Prevenir.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, ocorrem três milhões de óbitos anuais, em todo o mundo, associados ao excesso do consumo de álcool, o que equivale a cerca de uma morte a cada seis minutos. Três quartos desses óbitos são de indivíduos do sexo masculino

Segundo a OMS, os portugueses estão entre os maiores consumidores de bebidas alcoólicas, ingerindo, em média, mais de 12 litros por ano. Que fatores estão na base desse comportamento?

O contexto do consumo de álcool em Portugal é igual ao de outros países mediterrânicos, algo que está associada à pobreza. Isso fez com que, durante séculos, a maioria da população se tenha alimentado de azeitona, castanha, sardinha e pão. O vinho estava sempre presente, porque se fazia em casa e era um produto barato. Além disso, passou a ser entendido como uma fonte energética, pois o álcool tem calorias, ainda que “vazias”, isto é, sem benefícios nutricionais. É por isso que, cultural e socialmente, o vinho se foi enraizando como um bem essencial e, hoje, apesar de algumas alterações de consumo, constatamos que se continua a beber em excesso, assim como a cerveja, outra das bebidas alcoólicas preferidas dos portugueses.

Como contrariar esta tendência?

Principalmente, reforçando o alerta para os perigos do excesso de álcool para a saúde. Como? Através de campanhas que contrariem a associação desse hábito a uma noção de prazer, nomeadamente condicionando a publicidade a marcas que lhes dão a “legitimidade” de patrocinar eventos como, por exemplo, a Queima das Fitas de Coimbra, onde se consome mais cerveja que na Oktoberfest de Munique. Intensificar a luta contra o fortíssimo lobby dos produtores, distribuidores e rede comercial ligada ao álcool, tornar eficiente a fiscalização nos locais de diversão noturna e alterar a legislação no que toca à idade mínima de consumo seriam outras medidas decisivas. Contrariar o consumo excessivo não pode partir de uma consciencialização coletiva com adesão duvidosa, mas sim de um consenso científico que fosse valorizado pelos políticos de modo a entender-se o elevado “preço” que iremos pagar em saúde, doença, acidentes e mortes precoces.

Que idade mínima é “admissível“ para o início do consumo deste tipo de bebida?

No mínimo, 21 anos. É urgente entender que o consumo de álcool interfere a nível estrutural e funcional com o sistema nervoso central e pode impedir um otimizado desenvolvimento cognitivo, emocional e relacional, com prejuízo para as novas gerações. O desenvolvimento das redes neuronais prolonga-se durante a adolescência e início da idade adulta. Infelizmente, o contacto com o álcool começa cada vez mais cedo. Basta sair à noite durante o fim de semana para ver jovens de 13, 14, 15 anos a consumir álcool. Os objetivos variam entre socializar e/ou viver uma experiência alucinatória, e não se apercebem que essa ação tem efeito adictivos semelhantes às drogas duras. É urgente reeducar a população para os perigos do consumo de álcool e reforçar que o consumo excessivo em Portugal é um problema de saúde pública. Nos adultos, aliado ao hábito de consumir ao fim de semana, está, muitas vezes, associada uma ingestão diária excessiva, ou seja, mais de um copo de vinho/ uma cerveja à refeição e/ou algumas bebidas no final do dia de trabalho.

«As mulheres, geneticamente, têm menos enzimas – substâncias que ajudam a desintoxicar o álcool do organismo – que os homens»

Mas crescemos com a noção de que beber um copo de vinho tinto por dia é benéfico para a saúde…

Essa ideia surgiu de uma campanha alicerçada numa única investigação (Estudo de Framingham) que nasceu em 1948 e integrava uma análise sobre doenças cardiovasculares e fatores de risco associados. O foco desse estudo caiu no vinho tinto por este possuir um antioxidante chamado resveratrol, mas é preciso combater o mito que a presença destas substâncias implica, só por si, benefícios para a saúde. Entretanto, foi contestado por outros trabalhos científicos que provaram que qualquer ingestão de álcool pode ser lesiva para a saúde, alertando para que se respeitem as quantidades de consumo recomendadas pela OMS.

E o que dizem essas diretrizes?

Que, por exemplo, um homem adulto saudável não deve ultrapassar os 140 g de álcool por semana, isto é, duas unidades de álcool por dia. Para as mulheres, o valor recomendado é de 70 g por semana, ou uma unidade de álcool diária. Isto independentemente do tipo de bebida ingerida, pois o que interessa não é o que se bebe, mas sim a quantidade de álcool que fica no organismo. É por isso que as pessoas bebem duas e três cervejas e pensam que se trata de um consumo light. É uma associação errada, pois ingerem os mesmos dez a 12 gramas de álcool numa cerveja, num copo de vinho ou num shot, whisky ou gin.

Portanto, às mulheres recomenda-se ainda mais moderação…

Sim, porque as mulheres, geneticamente, têm menos enzimas – substâncias que ajudam a desintoxicar o álcool do organismo – que os homens. E o facto de terem menor massa corporal torna-as mais frágeis perante uma mesma quantidade de bebida quando comparado com um homem que, por norma, é maior. Além disso, as mulheres têm uma sensibilidade incomparavelmente maior ao álcool, quer a nível dos efeitos como, por exemplo, de doença orgânica no fígado, pâncreas, coração e cérebro. Na prática, para uma mesma quantidade de bebida, as mulheres ficam com mais álcool em circulação e durante mais tempo, e é por isso que muitas que apresentam sintomas de estádio final de cirrose hepática alcoólica não têm mais de 40 anos. Convém também alertar as mulheres que vão ser mães que o consumo excessivo de álcool durante a gravidez pode gerar fetos com doença fetal alcoólica, que é absolutamente destrutiva para o bebé.

«É preciso desmistificar a ideia de que o álcool é eliminado via urina, pois mais de 90 por cento é retido no organismo, sobretudo no fígado, após absorção no estômago e intestino delgado»

O que acontece ao organismo após a ingestão de bebidas alcoólicas?

Ao entrar no organismo, o álcool vai diretamente para o fígado, onde, com a ajuda de enzimas, é transformado noutras moléculas, sendo a primeira o acetaldeído, um elemento tóxico e reativo que danifica a estrutura molecular da célula hepática; é depois convertido em acetato, que é utilizado para produzir energia. Este processo consome oxigénio às células, e, quando essa dinâmica exige um esforço maior, devido ao excesso de álcool ingerido, pode provocar lesões nas células hepáticas, pela ação do acetaldeído e de outras substâncias tóxicas resultantes da transformação do álcool, deixando marcas e potenciando algumas doenças [ver caixa Estes são os órgãos mais afetados]. E, muito importante, é preciso desmistificar a ideia de que o álcool é eliminado via urina, pois mais de 90 por cento é retido no organismo, sobretudo no fígado, após absorção no estômago e intestino delgado. Há uma ação inflamatória que afeta a estabilidade metabólica e a flora intestinal, possibilitando a circulação de toxinas bacterianas que não são eliminadas devido ao excesso de presença do álcool, e que vão atacar o fígado. É o que chamamos “eixo fígado-intestino”. Todo este ambiente pode influenciar o genoma e dar origem a uma maior predisposição para o cancro.

A OMS refere ainda outras consequências comportamentais que podem ser também letais…

Sim, infelizmente, todos os anos a estatística revela dados assustadores do número de mortes associadas ao consumo de álcool, principalmente através de acidentes de viação ou de trabalho, atos de violência para com os outros ou o próprio, pois o efeito do álcool “desinibe”, ajudando a retirar o controlo emocional, o raciocínio lógico e o limiar da consciência. Para não falar do absentismo provocado pela incapacidade do efeito prolongado da “ressaca”…

Existe forma de acelerar a recuperação face à ressaca?

A ressaca nasce da agressão química provocada pelo excesso de álcool e pode prolongar-se por horas. Isso porque o ambiente que se vive no organismo faz com que as células passem a funcionar muito lentamente pois esgotaram as reservas energéticas, nutricionais e de oxigénio. Nesses casos, aconselha-se repouso, beber muita água e consumir alimentos ricos em hidratos de carbono, como pão com doce. Por outro lado, deve restringir-se o consumo de gorduras, para poupar trabalho às células, e, sobretudo, não ingerir fármacos ou produtos que, supostamente, potenciam ou aceleram a recuperação orgânica.

«Mesmo que alguns defendam que as bebidas alcoólicas possuam substâncias que são benéficas ao organismo, isso deve ser contestado, pois, por princípio, se fizermos uma boa gestão da dieta, não precisamos disso»

Há um tipo de bebida alcoólica mais nefasto?

As bebidas alcoólicas têm graduações diferentes, mas o que interessa é a quantidade de álcool ingerida. É a presença do elemento álcool que torna todas essas bebidas, sem exceção, em tóxicos e potenciais atentados à saúde. Mesmo que alguns defendam que as bebidas alcoólicas possuam substâncias que são benéficas ao organismo, isso deve ser contestado, pois, por princípio, se fizermos uma boa gestão da dieta, não precisamos disso, e apenas serviria para potenciar a ingestão dessas bebidas e passar uma ideia errada. Principalmente quando o objetivo é reduzir o seu consumo e, para o conseguir, é necessário reeducar a sociedade sobre o tema.


Os jovens e o consumo de álcool

«Os pais e educadores, acima de tudo, devem explicar os perigos do ato de ingerir bebidas alcoólicas, erradicar qualquer ideia positiva associada a tal e apelar ao seu sentido de responsabilidade para proteger a sua saúde», aconselha Beatriz Rodrigues, médica gastrenterologista. «Vivem-se tempos em que parece ser “proibido” educar e em que os pais se parecem com os melhores amigos dos filhos. A melhor forma de os amar é educá-los pelo exemplo e com um alerta para a realidade social envolvente, verbalizando a nossa preocupação face aos riscos do consumo de álcool, apelando à sua capacidade crítica e favorecendo o desabrochar de valores éticos nos jovens».

O vinho é a opção preferida para 69 por cento da população, enquanto a cerveja surge em segundo lugar, sendo eleita por 26 por cento dos portugueses

Estes são os órgãos mais afetados

O consumo de álcool «pode originar estados de inflamação crónica», refere Beatriz Rodrigues, médica gastrenterologista, que explica como os órgãos são afetados.

  • Fígado
    «É um dos órgãos mais afetados e desgastados, e uma das consequências mais comuns é a doença hepática. Como se trata de uma patologia silenciosa, pode evoluir para a cirrose hepática, cujos sintomas são barriga muito inchada, hemorragias digestivas ou icterícia. Existe também uma relação íntima entre o consumo de álcool e o cancro do fígado.»
  • Pâncreas
    «O álcool é um fator de risco importante para o cancro pancreático. Além disso, pode também provocar pancreatite aguda e crónica alcoólica, que, apesar de benignas, podem ser fatais.»
  • Coração
    «A ingestão regular de bebidas alcoólicas pode ser um gatilho de miocardiopatia alcoólica, uma doença que está na origem da insuficiência cardíaca dilatada que, muitas vezes, só se reverte com transplante de coração.»
  • Boca
    «O excesso de álcool pode ser um fator de risco de todos os cancros da cavidade oral.»
  • Cérebro
    «A demência alcoólica, síndrome que resulta da perda de células neuronais de substância cinzenta do cérebro, faz com que pessoas com 40 ou 50 anos apresentem o cérebro de um octogenário. Outro possível distúrbio neurológico é a neuropatia periférica alcoólica que pode originar a perda progressiva de locomoção.»
Última revisão: Junho 2019

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