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«Quando se tomam calmantes, a memória nunca recupera totalmente»

efeitos dos calmantes

Henrique Luz Rodrigues, coordenador para a Estratégia Nacional do Medicamento e dos Produtos de Saúde, explica por que é que Portugal é o campeão europeu no consumo de calmantes para a insónia e a ansiedade e alerta para os efeitos dos calmantes na saúde.

  • PorFátima Lopes CardosoJornalista
  • FotografiaArtur

  • Entrevista aProf. Dr. Henrique Luz RodriguesMédico especialista em Nefrologia e Farmacologia Clínica

De acordo com dados do Infarmed, quase dez por cento dos portugueses consomem diariamente benzodiazepinas para combater a insónia ou a ansiedade. Mais de 70 por cento são mulheres. Muitas vezes sem saber, quem toma benzodiazepinas está a aumentar o risco de vir a sofrer de acidentes de viação, quedas e fraturas, além da perda imediata de memória e dependência. Falámos com Henrique Luz Rodrigues, responsável pela coordenação da Estratégia Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde, médico especialista em Nefrologia e Farmacologia Clínica e professor de Farmacologia na Faculdade de Medicina de Lisboa. Em entrevista à Revista Prevenir, o especialista explica o que levou 17 instituições de topo na saúde a unirem esforços no combate ao consumo destes fármacos de natureza sedativa e hipnótica.

Quando falamos de excesso de consumo de calmantes, a que tipo de fármacos nos estamos a referir exatamente?

Falamos de benzodiazepinas, fármacos que são usados no tratamento de várias situações clínicas. O foco da campanha, que iniciámos em novembro, incide sobre a ansiedade e a insónia, dado que é nestes quadros que ocorre um consumo mais elevado. As pessoas dormem mal, têm mais preocupações e quando se veem confrontadas com um problema na sua vida, em vez de encontrarem outras soluções, começam a tomar benzodiazepinas. Uma parte significativa do seu consumo está ao nível da dependência.

Os efeitos dos calmantes variam em função da dosagem?

As benzodiazepinas exercem um efeito calmante e hipnótico. Com uma dose maior, o medicamento tem um efeito mais hipnótico, mais sedativo e provoca mais sono, pelo que são prescritos nas insónias. Em doses mais pequenas, tratam sobretudo a ansiedade. Embora as pessoas digam muitas vezes que determinado comprimido é para a ansiedade e outro para a insónia, a verdade é que existem muitas benzodiazepinas cujo efeito abrange as duas situações. Nem sempre é só para um dos problemas.

Quais são exatamente os efeitos dos calmantes na saúde, no imediato e a longo prazo?

Existem quatro efeitos adversos principais que estão descritos nas bulas. Como estes fármacos diminuem os reflexos e provocam mais sonolência, existe um aumento do risco de acidentes de viação. Mesmo quem anda a pé tem um maior risco de cair. Em idade mais avançada, em que as pessoas têm osteoporose, as quedas provocam fraturas que podem ser graves e associadas a um considerável risco de morte, sobretudo se for do colo do fémur. Outro aspeto muito importante é a perda da memória, que é alterada de imediato quando se toma o calmante. Não faz qualquer sentido tomar um medicamento antes de se ir fazer um exame, porque reduz a memória. E, mesmo que se pare, os estudos indicam que esse efeito é irreversível. A memória nunca é recuperada totalmente.

«Não faz qualquer sentido tomar um medicamento antes de se ir fazer um exame, porque reduz a memória. E, mesmo que se pare, os estudos indicam que esse efeito é irreversível»

Um outro risco preocupante é a dependência. Muitas vezes, é a dependência que leva à continuidade de a pessoa voltar a procurar o medicamento. É por isso que se recomenda tomar apenas por um período curto, de oito a 12 semanas, nos casos de ansiedade, e duas a quatro semanas, em caso de insónia. Para quem toma há anos, torna-se muito difícil deixar de o fazer, porque o corpo está muito habituado. Nestes casos, é necessário apoio do médico para ir reduzindo lentamente o consumo do medicamento em função da tolerância do doente aos sintomas de abstinência e, sempre que necessário, com apoio do psicólogo.

Como médico e coordenador da Estratégia Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde, estes dados surpreenderam-no?

Não. É um problema muito antigo. Há muitos anos que se fala deste consumo excessivo de benzodiazepinas e que são lançados alertas para combater esta situação, mas as pessoas não corrigem o consumo. São medicamentos com receita médica, o que significa que temos um problema de prescrição. Mas os próprios cidadãos fazem pressão junto dos clínicos para lhes indicarem esses fármacos. Como médico, sinto essa pressão. E também exercem pressão sobre as farmácias para os venderem sem prescrição, alegando que depois vão buscar a receita. Temos três problemas: médico, cidadão e farmácias.

A maioria dos consumidores nacionais é mulheres (70%). E mais de metade tem entre 55 e 79 anos. O que poderá explicar este perfil de consumo?

Comparado com os homens, desde os 15 anos que o consumo de calmantes é mais comum no sexo feminino. A nível físico, nada leva a crer que as mulheres possam ser mais ansiosas ou tenham mais insónias do que os homens. Muitas vezes, é uma população mais suscetível a este tipo de marketing; tem o hábito de consumir mais medicamentos. Terão de ser desenvolvidas investigações para perceber esta realidade. A explicação da elevada incidência nas faixas etárias mais avançadas é a de que a insónia é um fator que se torna mais frequente com a idade, o que leva a um maior consumo.

«Se somos os maiores consumidores de calmantes da Europa, isso parece indicar que somos um povo acalmado. Há uma maneira de estar que tem de ser corrigida»

Como é que chegamos a este estado? Os portugueses andam com os “nervos à flor da pele”? Existem características socioculturais que expliquem estes números?

Por exemplo, comparando com outros países, apenas um por cento dos alemães recorre a estes medicamentos. Se somos os maiores consumidores de calmantes da Europa, isso parece indicar que somos um povo acalmado. Há uma maneira de estar que tem de ser corrigida. Não é um problema sem remédio. Esta situação aconteceu nos outros países. Na Holanda, por exemplo, as benzodiazepinas até deixaram de ser comparticipadas. Em Portugal, o preço destes medicamentos é muito baixo, não chega a dois euros. De qualquer forma, a campanha Dormir e relaxar, sem depender de benzodiazepinas não tem que ver com custos ou com a sustentabilidade do Sistema Nacional de Saúde. Tem, sim, a ver com os riscos que a população corre com a administração destes medicamentos, que parece pouco avisada. E não é só a população, mas também os profissionais de saúde. O que é banal depois desvaloriza-se.

A prescrição destes medicamentos tem sido demasiado facilitada pelos médicos?

É um aspeto cultural. As pessoas acreditam que a pílula mágica resolve todos os problemas de saúde e de comportamento. Querem resolver os problemas da forma mais fácil e rápida. Só que há alternativas bem mais saudáveis, mas que exigem mudança. Em vez de tomar um comprimido, será melhor procurarem o ginásio para praticar exercício físico durante uma hora. Muitas vezes, a insónia ocorre em pessoas que fazem refeições noturnas pesadas, tomam estimulantes, como café e álcool, depois ainda têm televisão no quarto.


De facto, com tanta excitação, acabam por perder o sono. Já no caso da ansiedade, as pessoas têm de perceber que esta faz parte da vida, que nos ajuda a funcionar e a reagir perante uma situação nova ou desafiante. A vida é composta por situações que nos provocam stresse e temos de aprender a lidar com ele.

Em que casos ou circunstâncias se justifica o recurso a calmantes?

Quando a ansiedade nos perturba na nossa maneira de estar e no relacionamento quer a nível familiar, como profissional e social, poderão existir razões para consultar um médico e, eventualmente, tomar benzodiazepinas. Mas até pode ser suficiente falar com o médico ou psicólogo para tentar resolver a situação sem o recurso ao comprimido. Já sabemos que estes fármacos são eficazes, mas também têm efeitos adversos e perigosos.

Uma vez que um dos efeitos dos calmantes é o facto de provocarem dependência, é impossível o “desmame” sem ajuda médica?

Não é recomendável. Primeiro, é importante que as pessoas percebam que o consumo de benzodiazepinas tem efeitos adversos e que devem consultar o médico para parar o medicamento. Depois, têm de compreender que não devem parar por sua livre vontade, pois as consequências podem ser graves. A terceira recomendação, é que procurem outras alternativas para a ansiedade e insónia, além da farmacológica.

«Já no caso da ansiedade, as pessoas têm de perceber que esta faz parte da vida, que nos ajuda a funcionar e a reagir perante uma situação nova ou desafiante. A vida é composta por situações que nos provocam stresse e temos de aprender a lidar com ele»

E quais são essas estratégias alternativas? Aconselha o recurso a meditação e exercícios respiratórios, por exemplo?

Está demonstrado que o exercício físico, as técnicas de relaxamento e a meditação são importantes para encontrarmos o equilíbrio e evitar a ansiedade e insónias. Recomendo vivamente.

Que conselhos pode dar a quem está a viver uma fase de ansiedade profunda e não quer que os calmantes sejam a sua estratégia de primeira linha?

A prioridade deve ser consultar o médico, expondo a sua preocupação, e falar com psicólogos, que são muito importantes neste processo. Os profissionais de saúde que mais abraçaram esta campanha foram, sobretudo, os médicos, os farmacêuticos e psicólogos. As três ordens integram o conjunto de 17 instituições que estão envolvidas no processo. Alguns centros de saúde disponibilizam este apoio e é importante procurá-lo.

Ser coordenador nacional da Estratégia Nacional do Medicamento e dos Produtos de Saúde é um cargo de grande responsabilidade. No seu dia a dia, o que faz para gerir os níveis de stresse e de ansiedade?

Procedo como qualquer pessoa. Há dias em que temos situações de maior stresse e tento encontrar racionalidade para resolver os problemas. Neste momento, a minha maior preocupação é levar as pessoas a estarem cientes das consequências do consumo excessivo de calmantes. Pois, desta forma, a sua toma será reduzida.

Última revisão: Janeiro 2018

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