«O desejo feminino pode ir dos zero aos 100 em 3 segundos»

Ana Alexandra Carvalheira: «O desejo feminino pode ir dos 0 aos 100 em 3 segundos»

No que toca ao desejo sexual, a influência do erotismo ultrapassa em muito a da biologia, mas é preciso batalhar por ele. E os casais devem começar cedo. A sexóloga Ana Alexandra Carvalheira explica como e porquê.

  • PorBárbara BettencourtJornalista
  • FotografiaArtur

  • Entrevista aAna Alexandra Carvalheira Sexóloga 

Sexóloga há 20 anos, Ana Alexandra Carvalheira doutorou-se em Psicologia da Sexualidade pela Universidade de Salamanca e é professora auxiliar no Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA). No seu mais recente livro Em Defesa do Erotismo: A Favor da Liberdade e da Saúde Sexual (Saída de Eergência), composto por 16 capítulos, a reflexão sobre o erotismo assume protagonismo, atravessando temas como o desejo e o prazer sexual no feminino e no masculino, como explicou em entrevista à Revista Prevenir.

O título do seu livro sublinha o lugar da liberdade sexual. Hoje, ainda temos de lutar por ela?

Quando falo em liberdade sexual, refiro-me à necessidade de se ter uma sexualidade livre de crenças disfuncionais. Por exemplo, a crença de que a sexualidade acaba na menopausa ou de que os homens têm mais desejo do que as mulheres não permite viver a sexualidade de forma livre e satisfatória.

Mas há diferenças entre o desejo feminino e masculino, certo?

Sim, há. O desejo sexual dos homens é mais consistente, mais sólido, ao contrário do desejo feminino que é mais sensível e flutuante. O desejo feminino flutua de acordo com o ciclo de vida (gravidez, menopausa), com as emoções, o stresse, o contexto. Pode ir dos zero aos 100 em três segundos e dos 100 aos zero nos mesmos três segundos.

Essas diferenças biológicas favorecem os homens e dificultam a vida às mulheres?

Não forçosamente. A sexualidade é influenciada por fatores biológicos, é verdade, mas eles não são determinantes. Há outros fatores, como o erotismo, a determinar a sexualidade. Erotismo é tudo o que é capaz de mobilizar o desejo em cada um e, neste campo, as mulheres têm mais plasticidade erótica do que os homens. Foi feito um estudo em que mulheres e homens foram colocados em salas diferentes a visualizar filmes com cenas eróticas. Havia cenas com casais heterossexuais, cenas lésbicas, gays, cenas de animais a terem sexo… Os homens responderam fisiologicamente só às imagens de sexo heterossexual, as mulheres responderam a tudo…

«A energia erótica pode ser criada com intenção, mas para isso temos de nos interessar verdadeiramente por isso, ter uma atitude, curiosa, exploratória, ter um papel proativo»

Dou-lhe outro exemplo: uma mulher veio ao meu consultório queixando-se de perda de desejo. Estava na menopausa, a produção de estrogénios tinha diminuído e tinha dificuldades de lubrificação. Passado algum tempo arranjou um novo parceiro, apaixonou-se. Resultado: desapareceram as queixas. Porquê? Porque houve entusiasmo e o desejo disparou. E o problema fisiológico da lubrificação foi facilmente resolvido com um lubrificante.

Que fatores determinam então o erotismo e, já agora, por que é que ele tem de ser defendido, como sugere o título do seu livro?

Há 30 anos, as questões que mais apareciam em consultório eram a ansiedade com a atividade sexual e a dificuldade em atingir o orgasmo. Felizmente, estas questões foram sendo resolvidas, há muito mais informação. Mas, em compensação, há mais problemas relacionados com a falta de desejo, tanto nas mulheres como nos homens. Muitos casais queixam-se da diminuição do desejo após o casamento e mais ainda após o nascimento dos filhos.

A que atribui isso?

Há muitos fatores. Um deles é que, por definição, o erotismo é difícil de manter nas relações de longa duração. O erotismo, essa energia vital que mobiliza o desejo, alimenta-se de novidade, de expectativa. A vida doméstica traz familiaridade e rotina e estes aspetos da conjugalidade não são os melhores amigos do desejo sexual, sobretudo do desejo feminino. Há pessoas que chegam ao consultório e dizem-me que gostam do parceiro, mas não lhes apetece fazer sexo. O cansaço e o stresse são as principais justificações, mas, no início da relação, eles também estavam lá, só que o desejo sobrepunha-se a tudo isso. Com o tempo, há uma deserotização da relação. Ela dá-nos segurança e conforto, mas o entusiasmo sexual vai-se esfumando.

É possível dar a volta a essa mudança?

Diria que o principal fator é perceber que se pode fazer algo por isso. Porque muitas mulheres vêm ao meu consultório pedir ajuda, mas acham que o desejo vai aparecer magicamente por virem à consulta, com um comprimido ou uma graça caída do céu. Acham que o desejo nasce espontaneamente e ficam à espera que chegue para que algo mude.

«Desconfio muito da vida sexual das pessoas que dizem “Eu sei tudo sobre o meu marido, conheço-o melhor do que ele próprio”. A fusão é  o mais antierótico que há, porque, se há fusão, não há ‘outro’ para desejarmos»

A energia erótica pode ser criada com intenção, mas para isso temos de nos interessar verdadeiramente por isso, ter uma atitude, curiosa, exploratória, ter um papel proativo. Isto implica, por exemplo, não recusar o sexo à espera de que o desejo venha primeiro, porque o desejo vem, muitas vezes, a seguir à experiência satisfatória. Por isso, vale a pena investir, procurar estímulos eróticos para ter uma experiência satisfatória que acenda o desejo.

De que forma se pode fazer isso? O que sugere aos seus pacientes?

Não há receitas porque a variabilidade do que ativa o desejo de cada um é imensa, o que é erótico para mim não é para si. Procurar sair da rotina, criar a surpresa, sobretudo ir enriquecendo o nosso património erótico, porque a imaginação ocupa um lugar fundamental.

O que é o património erótico?

É tudo o que alimenta e acende o nosso desejo sexual. Coisas que alimentam o património erótico são: as experiências sexuais que tivemos, as fantasias (as que queremos realizar e as que não queremos realizar), os filmes e revistas que vimos… Investir no nosso património erótico facilita a manutenção do desejo. Quando estivermos instalados numa relação de longa duração e o desejo começar a não acender como no início, recorrermos à imaginação pode ajudar muito. E isto não é sinal de incompetência ou batota, é sinal de que temos capacidade de mobilizar o nosso desejo, de o acender.

Os homens são favorecidos pela cultura, nomeadamente no que toca ao consumo mais livre de revistas e filmes pornográficos. Isso faz com que tenham mais património erótico do que as mulheres?

A socialização sexual dos homens tem sido mais permissiva e, por conseguinte, mais facilitadora da construção do património erótico, porque o homem tem tido mais acesso à experiência, seja ela qual for.


Além desse investimento individual no património erótico, deve haver um investimento a dois na relação?

Sim, é um investimento que deve começar cedo, mas é único para cada casal, cada um sabe o que é melhor para si e o que precisa. O erotismo na relação resulta de uma dança bem dançada a dois, como um abraço que ora é mais fechado, ora é mais aberto. É nesse movimento de separação e aproximação que o erotismo vive. Mas é preciso não ter medo da separação que, para muitas pessoas, causa insegurança, preferindo ficar protegidas na segurança do compromisso, sem dançar. Julgo que esta é provavelmente a tarefa mais difícil e desafiadora da conjugalidade.

É por isso que diz que o amor hoje é mais difícil do que nunca?

Digo isso, porque, por um lado, o amor nunca teve tanta importância como hoje, nunca como hoje foi tão forte a necessidade de realização noutras esferas, nomeadamente a profissional. Isso rouba-nos tempo para o amor. Tiramos mestrados à noite, viajamos profissionalmente – hoje estou em Lisboa, amanhã dou aulas em Salamanca, fui ao Porto lançar o livro —, estamos a fazer esta entrevista num sábado… Isto prejudica as relações.

«Todas as mulheres e homens devem saber que o ator principal na cena do orgasmo feminino é o clitóris»

Outro fator a dificultar as relações é a primazia do ‘eu’ em relação ao ‘nós’. Valorizamos muito os nossos interesses particulares e queremos alguém que se encaixe neles. Quando não se encaixam, trocamos…

Estes fatores prejudicam a relação mas não forçosamente o desejo…

Não prejudicam o desejo, porque o desejo alimenta-se de alguma separação, que interrompe a rotina. Pequenas separações são boas. A autonomia é fundamental. Desconfio muito da vida sexual das pessoas que dizem “Eu sei tudo sobre o meu marido, conheço-o melhor do que ele próprio”. A fusão é  o mais antierótico que há, porque, se há fusão, não há ‘outro’ para desejarmos.

Como se define uma sexualidade saudável?

A sexualidade é uma componente da saúde geral. Somos seres sexuados e ter uma vida sexual saudável implica termos vivências sexuais satisfatórias. Se uma pessoa se sente bem e não tem dificuldades sexuais, pode dizer-se que é sexualmente saudável. Não implica ter uma atividade sexual frequente, implica estar satisfeito. Se uma pessoa está satisfeita com menos sexo do que outra, não quer dizer que uma esteja errada. É um conceito que varia de pessoa para pessoa, não pode ser imposto. Mas os ajustamentos são sempre necessários em todos os casais. Há sempre um que tem mais desejo que o outro e as preferências nunca são exatamente as mesmas. É suposto ser uma construção a dois, não é?


Clitóris: o protagonista do orgasmo feminino

«Todas as mulheres e homens devem saber que o ator principal na cena do orgasmo feminino é o clitóris, seja através de uma estimulação mais direta ou menos direta. A penetração não é a melhor situação para estimular o clitóris e, por isso, muitas mulheres não conseguem ter orgasmo na penetração. Isso é normal e não significa que tenham algum problema. Só precisam de mais e melhor estimulação, que pode ser antes ou durante a penetração.»

Última revisão: Abril 2018

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