Tenho um enteado. E agora?

O papel de madrasta ou padrasto obedece a um misto de afeto, sensibilidade e inteligência estratégica. Mário Cordeiro ensina a lidar com o enteado.

O papel da madrasta ou do padrasto numa família recomposta é um dos grandes desafios da sociedade moderna e obedece a um misto de afeto, sensibilidade e inteligência estratégica.

  • PorCarlos Eugénio AugustoJornalista

  • Entrevista aDr. Mário CordeiroMédico pediatra

De acordo com os mais recentes dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), em Portugal, a percentagem de divórcios ronda os 70 por cento. Essa realidade deu origem a um novo desenho social e são frequentes os segundos casamentos. De algumas dessas uniões resultam “novas famílias” (ou recompostas) em que um dos membros do casal tem filhos de relacionamentos anteriores. Essa realidade obedece a novas regras. O pai e/ou a mãe deixam de estar presentes, surgem as figuras do padrasto, madrasta e, com eles, novos desafios familiares. A personalidade da mãe e do pai são fatores decisivos de adaptação e a estabilidade é essencial, caso contrário as estruturas familiares podem ser alvo de ciúme, manipulação e crises de autoridade.

«Os padrastos/madrastas não são bonecos decorativos ou pessoas que se aturaram porque andam com os pais. Não! Têm um papel importantíssimo na formação das crianças»

Para o pediatra Mário Cordeiro, a relação entre padrasto/madrasta e enteado deve ser fundada no «respeito, entendimento, empatia e na noção de que são pessoas que vão ter de conviver umas com as outras». Mais, padrastos e enteados «têm de entender que estão juntos, antes de mais, pelo amor que têm a uma terceira pessoa, e que se conseguirem uma relação sadia, de crescimento, de respeito e potenciadora para ambos, tanto melhor», conta à Revista Prevenir.

O que deve ser dito à criança sobre esta “nova” pessoa que vai entrar na sua vida e sobre a autoridade que terá?

A escolha é sempre dos pais, ou seja, a criança não tem de opinar sobre o assunto. Todavia, há que proceder com calma e inteligência estratégica. Acho que o pai ou mãe é que devem comunicar, depois de eventualmente os filhos conhecerem o padrasto/madrasta num outro contexto, de uma saída, ir comer um gelado, algo agradável. Não deve ser posta em causa a escolha dos pais mas deve sempre ser dito que os filhos são livres de se pronunciarem, com educação e respeito pelos assuntos íntimos, e que as relações que vão estabelecer sê-lo-ão vagarosamente, tal e qual como com um amigo.

O que fazer para evitar o choque entre modelos parentais distintos?

O ideal seria limar arestas e tentar um único modelo educativo. Todavia, é bom que os adultos se entendam e procurem não desdizer ou menorizar o que o outro disse, a menos que seja algo muito chocante para as crianças. O modelo que deve prevalecer, em caso limite, é o dos pais.

Qual o papel do padrasto/madrasta enquanto educador?

Os padrastos/madrastas não são bonecos decorativos ou pessoas que se aturaram porque andam com os pais. Não! Têm um papel importantíssimo na formação das crianças – assim o queiram manipulação e crises de autoridade. Para o pediatra Mário Cordeiro, a relação entre padrasto/madrasta e enteado deve ser fundada no «respeito, entendimento, empatia e na noção de que são pessoas que vão ter de conviver umas com as outras». Mais, padrastos e enteados «têm de entender que estão juntos, antes de mais, pelo amor que têm a uma terceira pessoa, e que se conseguirem uma relação sadia, de crescimento, de respeito e potenciadora para ambos, tanto melhor».

O que deve ser dito à criança sobre esta “nova” pessoa que vai entrar na sua vida e sobre a autoridade que terá?

A escolha é sempre dos pais, ou seja, a criança não tem de opinar sobre o assunto. Todavia, há que proceder com calma e inteligência estratégica. Acho que o pai ou mãe é que devem comunicar, depois de eventualmente os e o assumam e deixem assumir –, e um privilégio: estão próximos da criança para serem seus confidentes e amigos, mas distanciados para poderem recolher queixas e dar apoio que, por vezes, os pais não conseguem dar.


Um bom perfil é o de quem sabe amar, abre o coração, respeita mas faz-se respeitar, não tem medo de educar e, sabendo que não é pai nem é mãe da criança, nem pretende sê-lo, também não se deixa menorizar e inferiorizar por esse “karma”. Tudo depende da segurança com que as pessoas entram na relação.

Quais as maiores dificuldades que um padrasto/madrasta pode esperar na relação com a criança?

A questão mais frequente é o desafio da autoridade, com o argumento de “tu não és minha mãe/pai”, e tal deve ser desconsiderado. “Pois não sou nem quero ser porque tens um, mas isso não impede que te eduque e que te ame”. O jogo de manipulação que as crianças fazem é com todos os adultos que lhes são próximos: avós, tios, professores. Os padrastos/madrastas não podem ter medo das crianças.

É mais difícil ser padrasto ou madrasta?

Creio que é idêntico, ou cada vez mais idêntico, acompanhando o que se passa com o papel de pai e mãe. Porventura, se a criança não tiver feito uma boa “digestão” do divórcio, se tiver receio de não ser amado pelo pai ou mãe em falta naquele momento, se houver sentimentos de culpa ou raiva, essa pessoa pode ser vista como um bom bode expiatório para esses sentimentos. A relação com os padrastos/madrastas está também muito ligada com o estado em que ficou a relação pai-mãe e como os novos intervenientes sentiram ou sentem essa relação.

Que erros na relação com a criança e com a mãe/pai da criança é comum a madrasta/padrasto cometerem?

O maior erro é querer agradar e fazer de capacho das crianças. Outro será colocar-se de fora como se nada tivesse a ver com o assunto. É muito difícil entrar no jogo a meio mas há que entender as regras e contribuir para mudar o ritmo e melhorar. Tal e qual os jogadores que saem do banco, por vezes demoram a entender como estava a decorrer o jogo, mas noutras são os impulsionadores da mudança para a vitória.

«Quem vive com uma criança anos a fio, a ama e educa, “dá o litro” por ela, não pode ser desconsiderado só porque não é progenitor biológico»

O que é que um padrasto/ madrasta nunca devem fazer?

Querer passar por pai ou mãe, dizer mal do outro pai ou mãe, querer ser demasiado amigo e confidente, não sentir a aproximação que se faz devagar, ou os sinais simbólicos que a criança lança e ser muito duro, ou querer que as suas regras se apliquem de repente a crianças que não conviveram com essa pessoa e que até podem ter essas regras mas ainda estão em fase de aprendizagem e de erro. Alguns padrastos e madrastas não tiveram quase nenhum contacto com o universo infantil e, por isso, são mais teóricos, sentindo sobretudo que há um limite para intervir. Creio que não há, no sentido em que qualquer adulto que vive com uma criança tem o dever e o direito de a educar, muito mais nesta posição.

O padrasto/madrasta podem definir castigos ou deve ser a mãe/pai a tomar a iniciativa?

Podem, mas é sempre bom que, seja padrasto/madrasta, seja num casal, os pais se entendam em relação aos castigos, salvaguardando as pequenas admoestações por coisas simples. É importante pensar que, com padrasto/madrasta e mãe/pai, as coisas funcionam “em casal parental”, pelo menos quando a criança está com eles. Pode haver diferenças relativamente ao contexto com o outro progenitor mas, quando não se consegue uma sintonia de modelos educativos, então que a haja em cada casa.

O que é que um padrasto/madrasta nunca deve permitir que o enteado faça?

Faltar ao respeito, arranjar intrigas, chantageá-lo, espiá-lo, invadir a sua intimidade, diminuí-lo perante terceiros. No fundo, o que nenhuma criança deve fazer com nenhum adulto ou nenhuma pessoa com nenhuma pessoa.

Caso o enteado lhe falte ao respeito, o que deve o padrasto/madrasta fazer no momento. Como reagir?

Deve pô-lo na ordem e, se necessário, castigá-lo, mas não falo de “castigos corporais”, apenas o mandar para o quarto ou sentar-se e estar calado, ou apagar a televisão ou a consola.

Deve, ou pode, existir uma comunicação direta entre o padrasto/madrasta e o ex-marido/ex-mulher do cônjuge?

Cada um saberá o modelo de comunicação que quer e que organiza entre adultos. Claro que, para uma criança, é excelente, e aconselhável, que os adultos, as suas referências, se deem bem, que pelo menos sejam cordiais; todavia, em muitos casos tal não é possível e noutros, porventura, quando o divórcio foi litigioso e penoso, nem sequer desejável porque há que ter compartimentos diferentes na vida, incluindo a da criança, que deverá entender que tem duas casas, dois modelos, dois estilos de vida e que “sobrevive” a isso tudo.

Como avalia a recente lei que prevê a possibilidade da tutela de enteados em casos específicos?

Defendo que padrastos e madrastas devem ter a hipótese, se for o seu desejo, de continuarem os esquemas em que as crianças estão, seja por morte, seja por emigração, por exemplo, do progenitor. Deveria ser automático, mas pelo menos, se for a tribunal em caso de litígio, então que os juízes sejam sensíveis a esta questão. Quem vive com uma criança anos a fio, a ama e educa, “dá o litro” por ela, não pode ser desconsiderado só porque não é progenitor biológico. Não está certo, social e humanamente, e esse afastamento leva a grande sofrimento das crianças, que amam essas pessoas.

Última revisão: Outubro 2015

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