Varizes: como prevenir e tratar

Varizes: como prevenir e tratar

Por ser uma doença degenerativa, se as varizes não forem tratadas numa fase inicial, vão-se agravando e exigindo tratamentos cada vez mais complexos.

  • PorCarmen SilvaJornalista

  • ColaboraçãoDr. João Martins
    Médico angiologista e cirurgião vascular, assistente hospitalar graduado no Hospital de Santa Marta, responsável clínico do Consultório de Angiologia e Cirurgia Vascular (CACV)

Um em cada três portugueses sofre de doença venosa crónica – varizes. Metade dos afetados, sobretudo mulheres, está numa fase grave da doença, mas não faz tratamento. As varizes são «veias que se tornam doentes, geralmente nos membros inferiores (pernas), ficando dilatadas, tortuosas e com alterações do sentido do fluxo sanguíneo. Algo que acontece depois da puberdade e sobretudo após a primeira e a segunda gravidez», descreve João Martins, médico angiologista e cirurgião vascular em entrevista à Revista Prevenir. Em termos de gravidade, as varizes podem ir desde as telangiectasias e/ou veias reticulares (os derrames) até às tronculares (grossas, salientes e muito tortuosas).

No caso dos homens, o fator hereditário é o grande responsável por esta doença, embora estes tenham tendência para desvalorizar as varizes: «Quando recorrem ao médico, muitas vezes já têm de ser operados»

Varizes: os fatores hormonais

As mulheres têm mais tendência a sofrer de varizes muito por causa de fatores hormonais, onde se inclui a gravidez. O bebé, ao desenvolver-se no útero, «comprime vasos que estão na cavidade abdominal, o que faz com que exista dificuldade de o sangue ascender ao coração vindo dos membros», explica João Martins. Além deste fator mecânico, como explica o cirurgião vascular, há também o hormonal, já que «as hormonas produzidas durante a gravidez tornam a parede das veias menos tonificadas e, em consequência, estas têm mais tendência a dilatar-se». Isto faz com que o «sangue fique mais estagnado nos membros inferiores». Pelo mesmo motivo, a toma da pílula também pode levar ao aparecimento de varizes embora, como chama a atenção o médico, «há pessoas que tomam a pílula toda a vida e não têm varizes». Quando surgem, João Martins não aconselha «deixar o tratamento para depois de ter filhos porque isso pode fazer toda a diferença entre a necessidade de operar ou não». Se as varizes forem tratadas assim que surgem os primeiros sinais, «obtém-se um maior bem-estar e a gravidez decorre com menos problemas, visto, durante este período, serem frequentes as queixas de mal-estar nas pernas, dores ou inchaço», refere.

O peso da hereditariedade

Uma das principais “culpadas” pelo aparecimento das varizes é a hereditariedade. Muitas vezes, «quando há antecedentes da parte do pai ou da mãe, sabemos que, estatisticamente, o filho ou filha têm maior probabilidade para o desenvolvimento da doença», revela o cirurgião vascular, acrescentando que, «num casal que tenha cinco filhos, três poderão vir a desenvolver varizes». No caso dos homens, o fator hereditário é o grande responsável por esta doença, embora estes tenham tendência para desvalorizar as varizes. «Muitos deixam-se andar porque não têm preocupações estéticas e quando recorrem ao médico, muitas vezes já têm de ser operados», refere o especialista.

A falta de atividade física, estar em pé ou com as pernas cruzadas por períodos prolongados fazem com que o sangue tenha maior dificuldade em subir ao coração, podendo levar ao aparecimento de varizes

Calor e sedentarismo agravam varizes

As varizes são uma «doença degenerativa e como tal têm tendência a piorar com a idade» e, como se isso não bastasse, há uma série de fatores de agravamento. Um deles é o calor, porque dilata as veias, daí João Martins aconselhar «evitar fontes de calor como aquecedores, cobertores elétricos, banhos de imersão quentes, depilação a cera quente e o calor da praia». Um outro fator é o sedentarismo. A falta de atividade física, estar em pé ou com as pernas cruzadas por períodos prolongados fazem com que o sangue tenha maior dificuldade em subir ao coração, podendo levar ao aparecimento de varizes. Mas é preciso ter cuidado na hora da escolha da atividade física, já que nem todas as modalidades são benéficas para a circulação sanguínea. «As atividades mais intensas e anaeróbicas (musculação com peso excessivo) podem agravar o problema em pessoas predispostas ou já com doença. Doentes com este tipo de problema devem sempre evitar exercícios de carga, como levantar pesos, remo, bodypump e bicicleta com muita resistência, e privilegiar exercícios como caminhada, natação ou cardiofitness», explica o cirurgião vascular.

A importância da alimentação

Muitas vezes, “à boleia” do sedentarismo vem o excesso de peso ou mesmo a obesidade. E quanto maior o excesso de peso, maior a probabilidade de vir a desenvolver esta patologia. Em quadros de obesidade, de acordo com João Martins, «a circulação faz-se de forma mais deficiente e há uma sobrecarga ao nível da função circulatória dos membros». Uma alimentação saudável assume-se então de extrema importância, não só no que toca a manter um peso equilibrado, como, no caso particular das varizes, para manter um trânsito intestinal normalizado, pois o ideal é «não ter de fazer mais força do que a suposta no ato de defecar», para «não provocar um aumento de pressão dentro das veias». Daí o médico angiologista argumentar que «tudo o que promova um trânsito intestinal regular é bom, como a ingestão abundante de água, frutos, verduras e alimentos com fibra».

Sem tratamento, podem desenvolver-se coágulos de sangue nas veias varicosas, resultando em trombose venosa, embolia pulmonar e até morte súbita

Varizes: os tratamentos

Sendo as varizes uma doença crónica, o tratamento visa «controlar a sua evolução, diminuindo assim o risco de ocorrência de complicações e melhorando significativamente a qualidade de vida dos doentes desde as primeiras fases», refere o cirurgião. Assim, existem vários tipos de tratamento, desde os mais simples cuidados a ter no dia a dia (ver caixa), passando pelo uso de meias de compressão e a toma de medicamentos de ação venotónica receitados pelo médico.

A escolha das meias

O uso diário de meias de descanso ou compressão é especialmente recomendado a quem passa muitas horas de pé para o alívio da dor ou sensação de pernas cansadas. «Estas queixas devem-se à acumulação do sangue dentro das veias, logo a compressão exercida pelas meias vai dar algum alívio sintomático, porque vai contrariar o edema (inchaço)». Existem meias de diferentes materiais e com diferentes níveis de compressão – mais elevados no caso das de compressão – e «nem todas têm uma ação terapêutica», pelo que, «não podem ser escolhidas “a olho” ou apenas com base no peso. A prescrição destas meias é um ato médico, em função da necessidade de cada doente, nomeadamente no que toca ao grau de compressão ou à própria textura da meia», esclarece João Martins.


Quando recorrer a fármacos

Os medicamentos de ação venotónica «aumentam o tónus das veias, tornando-as um pouco mais resistentes à dilatação, levando a uma melhoria sintomática», explica o médico angiologista João Martins. São aconselhados «quando há queixas ou sintomas associados às varizes ou quando estes são esperados, por exemplo, durante o verão ou se a pessoa vai viajar», refere. A sua forma de administração pode ser oral e tópica (de aplicação direta na pele). No caso da administração tópica, «a massagem é muito importante, sobretudo a ação de drenagem, porque auxilia o sangue a fazer o seu retorno», refere o médico angiologista.

Varizes: as soluções da medicina

Em caso de derrames e pequenas varizes, o tratamento mais usado é a escleroterapia. Consiste em injetar um medicamento dentro do vaso, provocando a sua “secagem”, para uma maior eficiência circulatória, é «praticamente indolor e deve ser realizado de seis em seis meses ou de ano a ano conforme a gravidade», afirma João Martins. Em casos mais graves, quando há insuficiência venosa, o médico pode recorrer à ablação térmica, em que «a veia é queimada através da emissão de uma fonte de calor por radiofrequência ou laser», ou à cirurgia convencional, em que «a veia é retirada», uma solução cada vez menos agressiva e mais segura.


Pernas cansadas? Adote estes cuidados

Além dos tratamentos médicos, existe uma série de cuidados que ajudam a reduzir o desconforto provocado pelas varizes.

  • Evite o uso diário de sapatos de salto alto ou com cunha rígida.
  • Evite usar roupa muito apertada que dificulta a circulação.
  • Evite carregar pesos, procurando alternativas como sacos com rodas ou troleys.
  • Não fique o dia inteiro na mesma posição. Sempre que possível, caminhe um pouco para ajudar a estimular a circulação sanguínea. O ideal é caminhar, pelo menos, 30 minutos por dia numa superfície plana.
  • Utilize as escadas em vez do elevador.
  • Evite cruzar as pernas.
  • Termine o banho com jatos de água fria. No verão, molhe as pernas com água fria sem secar.
  • Massaje as pernas com um creme. As fórmulas com centelha asiática ou mentol proporcionam uma sensação de frescura.
  • Eleve as pernas (com um banco ou almofada) quando estiver sentado ou deitado.

Fonte: Adaptado a partir de dados fornecidos por João Martins, médico angiologista e cirurgião vascular, e em www.cacv.pt


Varizes: Quando ir ao médico

São vários os sintomas e os sinais associados às varizes. Recomenda-se a consulta médica para avaliação da situação perante:

  • Presença de veias azuladas e/ou derrames.
  • Dor ou ardor nas pernas e planta dos pés.
  • Inchaço, principalmente nos tornozelos ao final do dia.
  • Comichão ou pigmentação na zona em torno das veias.
  • Incapacidade de andar grandes distâncias, sem ter de fazer pausas.
  • Sensação de cansaço e/ou peso nas pernas.
  • Cãibras noturnas.

Fonte: Adaptado a partir de dados fornecidos por João Martins, médico angiologista e cirurgião vascular, e no site do Consultório de Angiologia e Cirurgia Vascular (CACV)

 

Última revisão: Março 2019

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