Surto de hepatite aguda infantil: as respostas às dúvidas dos pais

Surto de hepatite aguda infantil: as respostas às dúvidas dos pais

Um surto de hepatite aguda de origem desconhecida em idade pediátrica colocou em alerta a comunidade médica internacional. Temos razões para ficarmos preocupados? Reunimos as respostas às principais dúvidas dos pais.

  • PorVanda OliveiraJornalista

  • Fontes:Direção-Geral da Saúde (DGS)
    Sociedade Portuguesa de Pediatria (SPP)
    Organização Mundial da Saúde (OMS)

A 15 de abril de 2022 a Organização Mundial da Saúde lançou um alerta sobre o aumento do número de casos de hepatite aguda grave em crianças saudáveis. Até ao momento, o maior número de casos ocorreu na Europa, sobretudo no Reino Unido, e foi mais frequente em crianças entre os 3 e os 5 anos de idade, a maioria saudável. A causa desta hepatite é ainda desconhecida. Mais de 90 por cento das crianças recuperou espontaneamente. Em cerca de dez por cento dos casos foi preciso fazer um transplante de fígado. Pelo menos uma criança morreu. Os pais têm razão para ficar preocupados? A que sintomas devem estar atentos e em que casos devem consultar o médico?

O que é exatamente a hepatite aguda infantil?

«A hepatite é uma inflamação do fígado, um órgão do nosso corpo fundamental na produção e processamento de diversas substâncias, e que desempenha também um papel importante na digestão dos alimentos. Quando está inflamado, o fígado pode não conseguir realizar em pleno as suas funções, o que pode levar ao aparecimento de sintomas. A inflamação pode ser aguda ou crónica. Nos países desenvolvidos, a hepatite é uma situação pouco frequente em idade pediátrica», lê-se num texto publicado no portal Criança e Família, um projeto da Sociedade Portuguesa de Pediatria.

Por que é que este surto de hepatite aguda está a preocupar a comunidade médica?

A Organização Mundial da Saúde lançou um alerta devido ao aumento “significativo e inesperado” do número de casos de hepatite aguda grave de etiologia desconhecida em crianças pequenas saudáveis. Os vírus comuns que causam hepatite viral aguda (vírus da hepatite A, B, C, D e E) não foram detetados em nenhum desses casos. «Dado o aumento nos casos relatados no último mês e a busca de casos, é provável que mais casos de hepatite aguda sejam relatados nos próximos dias», previa a Organização Mundial de Saúde, algo que veio a verificar-se. «Como há uma tendência crescente de casos de hepatite aguda em crianças  no Reino Unido, juntamente com uma busca mais aprimorada, é muito provável que mais casos sejam detetados antes que a etiologia seja encontrada (seja biológica, química ou outro agente) e que as medidas de controlo e prevenção apropriadas sejam tomadas», acrescentou a organização.

A 21 de abril, pelo menos 169 casos de hepatite aguda de origem desconhecida foram relatados em 11 países da Região Europeia da OMS e um país na Região das Américas da OMS:

  • Reino Unido (114)
  • Espanha (13)
  • Israel (12)
  • Estados Unidos da América (9)
  • Dinamarca (6)
  • Irlanda (< 5)
  • Países Baixos (4)
  • Itália (4)
  • Noruega (2)
  • França (2)
  • Roménia (1)
  • Bélgica (1)

Em todo o caso, a Organização Mundial da Saúde salvaguarda que «ainda não está claro se houve um aumento nos casos de hepatite ou um aumento na conscientização sobre casos de hepatite que ocorrem na taxa esperada, mas não são detetados».

A que sintomas os pais devem estar atentos e que podem ser sinais de alarme para esta hepatite?

«Muitas vezes a criança com hepatite não apresenta sintomas. Quando estes estão presentes, as manifestações mais típicas são: icterícia (cor amarela da pele e dos olhos), urina escura, dor abdominal, náuseas, vómitos e cansaço. Durante a observação da criança pode notar-se um aumento do volume do fígado», lê-se no portal Criança e Família.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde, neste novo surto, «muitos casos relataram sintomas gastrointestinais, incluindo dor abdominal, diarreia e vómitos antes do aumento dos níveis de enzimas hepáticas e icterícia. A maioria dos casos não apresentou febre».

Até ao momento, mais de 90 por cento das crianças recuperou espontaneamente. Em cerca de 10 por cento dos casos foi preciso fazer um transplante de fígado. Pelo menos uma criança morreu

O que pode causar hepatite?

São várias as causas que podem levar à inflamação do fígado, sendo as infeções por vírus a causa mais frequente nas crianças, como explica a Sociedade Portuguesa de Pediatria no portal Criança e Família:

  • Os vírus que classicamente causam hepatite são os vírus da hepatite A, B, C, D e E. No entanto, muitos outros vírus, responsáveis frequentemente por sintomas respiratórios ou gastrointestinais, podem causar inflamação ligeira e transitória do fígado.
  • Em Portugal, graças à vacinação universal para o vírus da hepatite B e ao rastreio sistemático das grávidas, praticamente não se registam casos de hepatite B e C em idade pediátrica. As hepatites A e E também são muito raras (ultimo surto de hepatite A ocorreu há mais de uma década) devido à melhoria das condições sanitárias, uma vez que o vírus se transmite através de água ou alimentos contaminados.
  • Existe uma vacina eficaz contra a hepatite A, que está indicada em situações particulares, nomeadamente viagens para zonas onde esta hepatite é muito frequente.
  • Mais raramente a hepatite pode ser causada por medicamentos, substâncias tóxicas, ou doenças autoimunes ou metabólicas.»

Quais as possíveis causas deste surto?

A causa deste surto de hepatite aguda mantém-se desconhecida. Sabe-se apenas que o Reino Unido, onde a maioria dos casos foi relatada até o momento, «observou recentemente um aumento significativo nas infeções por adenovírus na comunidade», indica a Organização Mundial da Saúde. A organização acrescenta ainda que, «o adenovírus foi detetado em pelo menos 74 casos. O SARS-CoV-2 foi identificado em 20 casos dos testados. Além disso, 19 foram detetados com uma co-infeção por SARS-CoV-2 e adenovírus. Os Países Baixos também relataram aumento simultâneo da circulação de adenovírus na comunidade». A organização ressalva, no entanto, que este aumento «pode representar a identificação de uma situação rara que poderia já estar a ocorrer em níveis não detetados anteriormente e que agora está a ser reconhecido devido ao aumento dos testes».

Qual a situação em Portugal?

A Direção-Geral da Saúde (DGS) recebeu, até dia 4 de maio, a notificação de quatro casos suspeitos de hepatite aguda de etiologia desconhecida. De acordo com a Direção-Geral da Saúde:

  • As crianças, que têm entre sete meses e oito anos, apresentaram um quadro clínico de hepatite aguda, estando em curso a avaliação laboratorial complementar e a avaliação epidemiológica.
  • As crianças tiveram sintomas em abril e estiveram internadas, mas nenhuma apresentou complicações graves, tendo recuperado do quadro clínico. Encontram-se em investigação fatores epidemiológicos como viagens ou ligações entre os casos, em colaboração com o Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC).
  • Os quatro casos suspeitos foram identificados nas regiões de saúde do Norte, Centro e Lisboa e Vale do Tejo. Todos testaram negativo para hepatite A, B e C e SARS-CoV-2, aguardando-se ainda resultados para a hepatite E em duas situações. Um dos casos já testou positivo para adenovírus, tendo a amostra sido enviada para sequenciação ao Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge.

No contexto do surto internacional de hepatite aguda, foi constituída uma taskforce pela DGS, que inclui especialistas da Sociedade Portuguesa de Pediatria.

Até ao momento em Portugal ainda não foi confirmado nenhum caso desta hepatite aguda de origem desconhecida em idade pediátrica.

Como se diagnostica a hepatite aguda?

«Nas crianças com sintomas, o diagnóstico faz-se através de análises ao sangue para avaliar os níveis das transaminases (enzimas do fígado). Ocasionalmente a inflamação é detetada em análises efetuadas por outros motivos. Para saber a causa dessa inflamação é necessário fazer uma investigação mais completa», indica a Sociedade Portuguesa de Pediatria.

Como se trata a hepatite aguda em idade pediátrica?

«O tratamento depende em primeiro lugar da gravidade dos sintomas e da causa. Na maioria dos casos de hepatite aguda associada a infeções víricas não é necessário qualquer tratamento específico, apenas o controlo dos sintomas associados à infeção. Situações específicas como hepatites crónicas (por exemplo hepatite C, hepatite autoimune) têm tratamento farmacológico específico e devem ser acompanhadas por médicos especialistas nesta área.», lê-se no portal Criança e Família.

Como evoluem as hepatites agudas em crianças?

«A maioria das crianças com hepatite aguda recupera espontânea e totalmente em até três meses. É necessário agendar uma consulta de vigilância para repetir as análises de sangue. Nas crianças em que estas alterações persistem, está indicada a observação em Consulta de Gastroenterologia ou Hepatologia Pediátricas. Uma minoria, poderá ter sintomas mais graves, com necessidade de internamento hospitalar, e tratamento mais diferenciado. São muito raros os casos que evoluem para falência hepática com necessidade de transplante de fígado», indica a Sociedade Portuguesa de Pediatria.

O que devem os pais fazer se suspeitarem de hepatite aguda na criança? Em que casos devem levá-la ao médico?

Perante uma doença de causa ainda desconhecida, e que se encontra em investigação, a DGS recomenda «o reforço de medidas gerais de proteção individual, como a higiene das mãos, a etiqueta respiratória, o arejamento e ventilação dos espaços interiores ou a limpeza e desinfeção frequente de equipamentos e superfícies. aso uma criança apresente sintomas respiratórios e gastrointestinais deverá evitar, como habitualmente, creches ou estabelecimentos de educação ou ensino», lê-se em comunicado.

Última revisão: Maio 2022

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