Jaime Pina: «90 por cento dos doentes com cancro do pulmão são fumadores ou já fumaram»

Jaime Pina: «85 e 90 por cento dos doentes com cancro do pulmão são fumadores ou já fumaram»

Uma das principais ameaças à saúde, o cancro do pulmão é responsável por dois milhões de mortes por ano em todo o mundo. Jaime Pina, médico especialista em Imunoalergologia e Pneumologia, traça o perfil desta doença, revela as mais recentes respostas da medicina a este problema e aponta o caminho para reduzir a sua incidência.

  • PorCarlos Eugénio AugustoJornalista
  • FotografiaArtur

  • Entrevista aDr. Jaime PinaMédico especialista em Imunoalergologia e Pneumologia

Segundo conclusões do Globocan 2018, um estudo conduzido pelo Global Cancer Observatory, um projeto da Agência Internacional para a Investigação do Cancro, o cancro do pulmão é a principal causa de morte por cancro em todo o mundo, representando 13 por cento dos novos casos e quase 20 por cento das mortes devido a esta doença. Em Portugal, registam-se anualmente mais de quatro mil novos casos, estimando-se que 30 em cada dez mil habitantes sofram deste problema. Apesar deste cenário, Jaime Pina, médico especialista em Imunoalergologia e Pneumologia, revela-se otimista. «Nos últimos anos, o conhecimento sobre o cancro do pulmão aumentou exponencialmente. Hoje, além de se entender melhor como funciona esta doença, temos mais e melhores terapêuticas e sabemos o que fazer para a evitar.»

«Surgem dois milhões de novos casos por ano no mundo, provocando uma vítima a cada 20 segundos»

O que torna o cancro do pulmão tão letal?

O fato de ser uma doença “silenciosa” e o consequente diagnóstico tardio. Por isso, surgem dois milhões de novos casos por ano no mundo, provocando uma vítima a cada 20 segundos. Apesar disso, entre os cancros, não é o mais incidente. Por exemplo, em Portugal, em 2019, registaram-se 58 mil novos casos de cancro, sendo os mais prevalentes o do cólon, da mama e da próstata. O cancro do pulmão estava em quarto lugar. Mas, em termos de mortalidade, ocupou o primeiro posto. Isso acontece, lá está, por apenas existirem sinais numa fase adiantada da doença e, quando é diagnosticada, as possibilidades de cura são muito baixas.

Como inverter essa tendência?

Apostando na prevenção, sendo o diagnóstico precoce essencial para combater o cancro do pulmão. Felizmente, os portugueses já sabem que, a partir de determinada idade, para prevenir o cancro do tudo digestivo, devem fazer endoscopias e/ou colonoscopias. O mesmo se passa com o cancro da mama, em particular do caso das senhoras, através da realização periódica de uma ecografia mamária, mamografia ou até da autopalpação. Assim, é urgente sensibilizar as pessoas nesse sentido para o cancro do pulmão, sendo essa uma das grandes prioridades da Fundação Portuguesa do Pulmão. Os rastreios salvam vidas.

«Estenderia o rastreio a todas as pessoas de risco maiores de 55 anos, em especial nos centros urbanos, [devido] à poluição atmosférica, que, segundo a OMS, matou, em 2019, sete milhões de pessoas»

A quem se aconselha fazer esses rastreios?

Principalmente, aos grupos de risco, ou seja, fumadores, ou ex-fumadores há menos de 15 anos, maiores de 55 anos, assim como pessoas que contactaram com substância cancerígenas (ver caixa Substâncias que adoecem o pulmão) ao longo da vida. Por isso, devem realizar uma TAC de alta resolução todos os anos. Isso vai permitir identificar micronódulos e saber se estão a crescer. Se isso se verificar, devem ser retirados para avaliação. Com esta atitude, além de se fazer o diagnóstico precoce, pode curar-se a doença numa fase inicial. Ainda assim, e por precaução, iria mais longe e estenderia o rastreio a todas as pessoas de risco maiores de 55 anos, em especial nos centros urbanos, pois todos estamos sujeitos à poluição atmosférica, que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), matou, em 2019, sete milhões de pessoas em todo o mundo, das quais 15 mil portugueses. Além disso, há ainda algumas doenças que merecem um acompanhamento mais atento, pois podem evoluir para cancro do pulmão, e a esses doentes também se recomenda o rastreio.

A que doenças se refere?

Principalmente a doença pulmonar obstrutiva crónica, a fibrose pulmonar ou a tuberculose, pois são patologias que podem originar mudanças no tecido pulmonar e provocar cancro. Por exemplo, no caso particular da tuberculose, mesmo depois de curada, deixa uma cicatriz que pode evoluir, mesmo décadas depois, para um cancro. Aliás, há mesmo uma “entidade”, o cancro da cicatriz, que, muitas vezes, aparece muitos anos depois de uma fibrose ou tuberculose curada, tendo origem precisamente nas cicatrizes. Outro caso é a silicose, uma patologia ainda muito presente em homens que trabalharam em minas ou na indústria de decapação de metais com areia, e que, caso não se tenham protegido devidamente, inalaram poeiras tóxicas de sílica ao longo da vida.

Jaime Pina: «85 e 90 por cento dos doentes com cancro do pulmão são fumadores ou já fumaram»

Por falar no sexo masculino, as estatísticas mostram que a taxa de cancro do pulmão é superior nos homens. Ser homem é um fator de risco acrescido?

É um assunto interessantíssimo e tem motivado grandes discussões, por ser uma situação ambivalente. De facto, a OMS diz que um em cada cinco homens vai ter cancro; nas mulheres, uma em cada seis. Por outro lado, um em cada oito homens vai morrer devido a essa doença; nas mulheres será uma em cada 11. O que isto significa é que há menos cancro do pulmão nas mulheres pois, por norma, fumam menos e as profissões de risco, que incluem trabalhar com substâncias tóxicas, são mais associadas ao universo masculino. Ainda assim, existindo menos cancro entre as mulheres, considera-se que o risco relativo para cancro do pulmão nas senhoras é uma vez e meia maior do que nos homens. Ou seja, as mulheres têm menos cancro, mas mais risco, e tal acontece pois têm menor capacidade de reparação do ADN, o que está na base do cancro, e maior sensibilidade, por exemplo, aos carcinogéneos do tabaco.

«A tosse, principalmente durante mais de duas semanas, deve ser investigada sem exceção»

Os especialistas defendem que a luta contra o tabagismo é a forma mais eficaz para combater esta doença. Sente que as pessoas estão mais conscientes disso?

Se soubermos que entre 85 e 90 por cento dos doentes com cancro do pulmão são fumadores ou já fumaram, ficamos esclarecidos. Ainda assim, nem tudo são más notícias, pois as recentes alterações na legislação tabágica contribuíram para a diminuição dos fumadores. Antes da nova lei sobre o tabaco de 2007, estimava-se que 24 por cento dos portugueses fumavam. Mais de uma década depois, sabemos que houve uma redução, de quatro por cento. É positivo, mas ainda assim isso significa que cerca de dois milhões de portugueses fumam, um número que nos coloca na 15.ª posição entre os países mais fumadores da União Europeia. Ainda assim, temos conseguido algumas vitórias. Por exemplo, na última revisão da lei do tabaco, em 2018, contemplou-se a realização de consultas de cessação tabágica nos centros de saúde, a comparticipação dos medicamentos antitabágicos e a equiparação de restrições do tabaco aquecido e eletrónico ao tabaco clássico. Mas, dizem as estatísticas, a forma mais eficaz de reduzir o tabagismo é aumentar a fiscalidade. Sabe-se que a cada dez por cento de aumento do preço, quatro por cento das pessoas deixam de fumar. Depois, é essencial informar as pessoas, seja via comunicação social ou campanhas institucionais. Só assim estarão mais atentas a alguns sinais e reagirão.

A que sinais se refere?

Essencialmente, tosse e dores no tórax ou nas costas. A tosse, principalmente durante mais de duas semanas, deve ser investigada sem exceção. Acontece que, quando falamos em fumadores, essa tosse já é algo “natural”. Então, aconselha-se especial atenção à modificação da tosse, por exemplo, de quem tinha apenas tosse de manhã e passou a ter o dia todo. Já dores nas costas ou tórax pode ser um sinal de que o tumor já atingiu outras estruturas como a pleura. Sabe-se, por exemplo, que os cigarros light exigem que a pessoa “puxe” mais, e isso faz com que o fumo atinja as zonas mais periféricas do pulmão, sendo aí que provoca o cancro.

Jaime Pina: «85 e 90 por cento dos doentes com cancro do pulmão são fumadores ou já fumaram»

70% dos novos casos identificados de cancro do pulmão em Portugal em cada ano encontram-se numa fase avançada da doença, indica Jaime Pina, médico especialista em Imunoalergologia e Pneumologia

Como se forma um cancro do pulmão?

Biologicamente, resulta da alteração de uma célula, nomeadamente na sua multiplicação exponencial, e “recusa” à morte. Isso leva ao aparecimento de um novo tecido (cancerígeno) que, inicialmente, invade esse local e o destrói, libertando, depois, células que se espalham no organismo por via do sistema linfático e/ou sanguíneo (metástases). A grande dúvida é o que origina esse processo. Ainda longe do conhecimento total, sabe-se que alguns genes com mutações estão associados às células cancerígenas. Isso faz com que muitas famílias apresentem uma genética propícia ao aparecimento desta doença, mesmo nunca tendo fumado. Recentemente, a ciência descobriu mais sobre o processo em si, nomeadamente sobre as proteínas que levam à criação dos vasos sanguíneos dentro do tumor, e outras que fazem com que as células tumorais não sejam reconhecidas pelo sistema imunitário, e assim as não consigam destruir.

Quais são as vantagens dessas terapêuticas?

Até agora, toda a terapêutica consistia na eliminação das células cancerígenas (ver caixa Os tratamentos). Com a identificação das tais proteínas, existem agora fármacos que as “desmascaram”, que as neutralizam, tornando-as reconhecidas pelo sistema imunitário, que finalmente as destrói. Por agora, esta técnica apenas se aplica em casos de doentes em que se detetam determinadas alterações celulares. O que também preocupa são os riscos associados, pois sabe-se que alguns pacientes têm reações alérgicas às substâncias injetadas neste tratamento, e que esta terapia pode levar ao aparecimento de doenças autoimunes, pois a sua ação influencia o sistema imunitário. Mas tudo indica que essas questões sejam ultrapassadas e conseguir-se-á dar uma maior esperança aos doentes de cancro do pulmão.


Substâncias que adoecem o pulmão

Seja num contexto laboral ou quotidiano, o contacto com algumas substâncias tóxicas é o principal gatilho para o cancro do pulmão. Jaime Pina, médico especialista em Imunoalergologia e Pneumologia, indica as mais comuns.

  • Tabaco «Seja um consumo ativo ou passivo, é o maior inimigo do pulmão. Além disso, sabe-se que o tabaco está relacionado com outros cancros como os do lábio, língua, boca, faringe, laringe, esófago e até bexiga. Das mais de quatro mil substâncias químicas identificadas no fumo do tabaco, cerca de 70 são cancerígenas.»
  • Radão «Trata-se de um gás inodoro e incolor, e está particularmente presente em Portugal nos distritos de Castelo Branco, Viseu, Guarda, Porto, Vila Real e Braga. Provém naturalmente do solo, resulta da degradação do urânio e estudos concluíram existir concentrações muito altas desse gás radioativo dentro das habitações nas referidas zonas e que é consequentemente inalado.»
  • Amianto «Este mineral fibroso continua presente em muitos edifícios, nomeadamente nos telhados. Assim, a inalação de partículas das suas fibras provoca doença pulmonar e pleural, cancro do pulmão e uma forma particular de cancro da pleura, o mesotelioma.»

Tipos de cancro do pulmão

Todos os cancros do pulmão provêm de células da parede dos brônquios ou dos alvéolos. Existem dois grandes tipos, como explica Jaime Pina, médico especialista em Imunoalergologia e Pneumologia:

Carcinoma pulmonar de não pequenas células
«É o mais frequente, correspondendo a cerca de 85 por cento dos cancros no pulmão. Tem um crescimento local durante muito tempo e, se for diagnosticado precocemente, pode retirar-se o tumor através de cirurgia e o doente fica curado.»
Cancro do pulmão de pequenas células
«É o segundo tipo mais frequente. Quando é diagnosticado, está quase sempre em fase de metastização, sendo muito mais agressivo e raramente curado via cirurgia.»


Cancro do pulmão: os tratamentos

As terapêuticas contra o cancro do pulmão evoluíram muito dos últimos anos e as intervenções dependem do estádio da doença, como explica Jaime Pina:

  • Estádios I e II
    Tratamento: cirurgia
    «O tratamento consiste na extirpação do tumor via cirurgia. A cirurgia “robótica”, permite uma precisão fantástica, aumentando a taxa de sucesso. A “cirurgia de porta única” reduz a incisão no tórax de 15 para cinco centímetros com uma recuperação pós-operatória mais célere.»
  • Estádios III e IV
    Tratamento: radioterapia, quimioterapia ou imunoterapia
    «Técnicas como a radio e a quimioterapia evoluíram e são hoje mais eficazes no enfraquecimento das células tumorais. Paralelamente a essas intervenções, pode ainda recorrer-se à imunoterapia, uma técnica que veio mudar o paradigma do tratamento da doença: “desmascara” as células cancerígenas, permitindo ao sistema imunitário reconhecê-las e destruí-las.»
Última revisão: Agosto 2020

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