Febre da carraça: como prevenir, quais os sintomas e como tratar

Febre da carraça: prevenir e tratar

A febre da carraça é uma doença causada por uma bactéria transmitida por carraças. Os sintomas surgem três a sete dias após a mordida, mas esta pode não ser percecionada pela pessoa. Nesse caso, é necessário realizar exames de diagnóstico complementares.

  • PorCarmen SilvaJornalista

  • ColaboraçãoDr. André Pereira
    Médico veterinário e doutorando em Ciências Biomédicas, especialidade Parasitologia, na Unidade de Parasitologia Médica do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, Universidade Nova de Lisboa
  • Dra. Carla MaiaMédica veterinária, diplomada pelo Colégio Europeu de Parasitologia Veterinária e investigadora auxiliar na Unidade de Parasitologia Médica, Instituto de Higiene e Medicina Tropical, Universidade Nova de Lisboa
  • Dr. Rafael RochaMédico interno da especialidade de Doenças Infecciosas no Hospital de São João e doutorando em Medicina Tropical no Instituto de Higiene e Medicina Tropical, Universidade Nova de Lisboa

As carraças são pequenos parasitas que podem causar grandes problemas, tanto nas pessoas, como em animais de estimação.  Em Portugal, segundo dados oficiais, estão descritas 21 espécies de carraças de corpo duro (ixodídeos) e, «embora prefiram alimentar-se de animais, algumas espécies podem parasitar humanos e transmitir, caso estejam infetadas, agentes patogénicos causadores de doença», indica a médica veterinária Carla Maia. A febre da carraça é uma das doenças que pode surgir. Em maior risco estão, sobretudo, «agricultores, pastores, guardas florestais, caçadores e campistas», visto «a probabilidade de contacto com as carraças ser maior em áreas com vegetação porque são os locais onde estes artrópodes se encontram após eclosão das larvas e aquando da muda para a fase evolutiva seguinte». O seu período de maior atividade é entre «o início da primavera e o fim do outono», contudo, Carla Maia sublinha que algumas espécies «mantêm-se ativas todo o ano».

«As carraças fixam-se sobretudo na região posterior do joelho, axilas, orelhas, umbigo, costas e cabeça»

Como detetar a picada da carraça?

Embora possam fixar-se em «qualquer parte do corpo, as carraças fixam-se sobretudo na região posterior do joelho, axilas, orelhas, umbigo, costas e cabeça», sublinha Carla Maia. Dependendo da fase do ciclo de vida em que se encontram, e da quantidade de sangue ingerido, «assemelham-se a sinais de pele, pelo que a deteção não é fácil, especialmente na fase larvar, devido às pequenas dimensões». Mais fácil de observar são as carraças «fêmeas adultas, pois, ao necessitarem de maiores quantidades de sangue para o desenvolvimento e postura dos ovos, aumentam consideravelmente o tamanho corporal». A médica veterinária chama ainda a atenção para o facto de que, «após a fixação no hospedeiro, a carraça só se desprende quando termina a refeição sanguínea para se alojar em locais abrigados no meio ambiente, onde efetua a muda para a fase evolutiva seguinte, ou, no caso de uma fêmea adulta, colocar os ovos, não passando, como as pulgas, do animal de estimação para o tutor ou vice-versa».

A mordida da carraça pode passar despercebida, dado a sua saliva possuir substâncias anti-inflamatórias

Como remover o parasita e evitar a febre da carraça

Quando encontradas, as carraças «devem ser removidas o mais rapidamente possível, com uma pinça angulada, que pode ser adquirida em farmácias ou lojas de animais, ou com o indicador e o polegar, rodando a carraça junto ao local de inserção, na pele, de modo a que se desprenda e que a parte bucal não fique no interior da pele», explica Carla Maia. A médica veterinária destaca que nunca deve ser removida «sem o auxílio de luvas ou papel, para que a pele não entre em contacto com a zona da mordida, onde podem estar os agentes com potencial patogénico. De igual modo, não deve ser puxada pelo corpo, para a evitar o seu esmagamento (com libertação, caso esteja infetada, dos agentes patogénicos), e a permanência do aparelho bucal no interior da pele (que pode causar reações inflamatórias ou abcessos). Apesar de a mordida da carraça poder passar despercebida, «dado a sua saliva possuir substâncias anti-inflamatórias, pode ocorrer inflamação cutânea no local da mordida ou reações alérgicas», refere Carla Maia, acrescentando que se deve «aplicar antisséptico na zona e estar atenta aos sintomas», que poderão ser sinal de doenças, como febre escaro-nodular, vulgarmente conhecida como febre da carraça, e borreliose de Lyme, também denominada doença de Lyme.

Febre da carraça: os sintomas

«A doença é causada pela bactéria Rickettsia conorii transmitida por carraças da espécie Rhipicephalus sanguineus», refere Carla Maia. Os sintomas surgem ao fim de três a sete dias: «febre, erupções na pele que se distribuem pelo corpo, incluindo palma das mãos e dos pés, e uma lesão tipo crosta (designada por tache noire) no local da mordida», indica o médico Rafael Rocha. No entanto, em muitos casos, a mordida não é percecionada pela pessoa, pelo que «a realização de exames de diagnóstico complementares é essencial». Afeta sobretudo «crianças entre 1 e 4 anos de idade», revela Carla Maia. Mas nestas «a patologia é geralmente ligeira», complementa Rafael Rocha, salientando que os grupos de risco para desenvolver doença grave são «os idosos e pessoas com múltiplas comorbilidades, nomeadamente diabetes, insuficiência cardíaca e alcoolismo».

A recuperação da febre da carraça geralmente é completa, sem sequelas

Febre da carraça: como se trata

O tratamento conra a febre da carraça passa pela toma de «antibióticos, sendo o esquema mais utilizado a doxiciclina durante sete dias», explica Rafael Rocha. «É geralmente bom se o diagnóstico for feito precocemente e o tratamento iniciado rapidamente. Nestas condições, a letalidade reportada ronda os cinco por cento e a recuperação é geralmente completa, sem sequelas».

Doença de Lyme: a outra doença provocada pela carraça

A doença de Lyme «é provocada por bactérias do complexo Borrelia burgdorferi transmitidas pela espécie de carraça Ixodes ricinus», especifica a médica veterinária Carla Maia. O período de incubação pode ser «mais longo (três a 32 dias) do que o da febre da carraça e os sintomas inicialmente incluem o eritema migrans, que corresponde a uma mancha na pele em forma de alvo, habitualmente localizada nas axilas, virilhas ou coxas», declara Rafael Rocha. Se a doença não for tratada na fase inicial, pode haver «disseminação da bactéria, causando (dias a semanas após a mordida) o aparecimento de manchas dispersas pelo corpo, febre, dores de cabeça, rigidez na nuca, dores musculares e articulares e sensação de mal-estar e cansaço». Após semanas a meses, pode acontecer também o «envolvimento cardíaco e do sistema nervoso, com alterações da sensibilidade e da força muscular ao nível da face e/ou dos membros, bem como alterações de visão». Meses a anos após a mordida inicial, «podem permanecer dores articulares crónicas recorrentes, que afetam sobretudo os joelhos».

O período entre o início da primavera e o fim do outono é o mais crítico, mas algumas espécies mantêm-se ativas todo o ano

Doença de Lyme: o tratamento

O tratamento da doença de Lyme é feito com «antibióticos, sendo que o tipo de antibiótico e a duração do tratamento dependem dos locais do corpo envolvidos pela infeção e a duração dos sintomas». Apesar de a letalidade ser «muito baixa e a recuperação geralmente completa, alguns indivíduos podem desenvolver formas crónicas da doença, com défices neurocognitivos, dores músculoesqueléticas e cansaço persistentes».

Como prevenir a mordida da carraça

O período entre o início da primavera e o fim do outono é o mais crítico. Se tem acesso a espaços verdes ou a jardins, a médica veterinária e investigadora Carla Maia aconselha:

  • Reduza a área de pele exposta, usando camisas com mangas compridas, calças e meias por fora destas, bem como sapatos fechados.
  • Use vestuário de cores claras, que facilite a visualização das carraças.
  • Use repelentes que contenham N, N-Dietil-m-toluamida (vulgarmente conhecido como DEET) sempre que o risco de exposição for elevado.
  • Ao chegar a casa, inspecione o corpo para uma deteção precoce e evitar a fixação e doenças como a febre da carraça.

Cuidados a ter com cães e gatos

Os animais de estimação, como o cão e o gato, também estão sujeitos a serem parasitados por carraças durante os passeios na Natureza ou até no jardim de casa, podendo desenvolver problemas de saúde.

Como os proteger?

  • Com desparasitantes com efeito acaricida (produtos que matam as carraças) e repelente, que evitam a fixação das carraças (coleiras e pipetas).
  • Com acaricidas com efeito sistémico (compostos que se distribuem pelo organismo do animal com capacidade de matar as carraças), que podem ser administrados/ aplicados de diferentes formas e eliminam as carraças após estas iniciarem a refeição sanguínea nos hospedeiros.
  • Inspecionando-os, especialmente após passeios ao ar livre, e no caso de permanecerem no exterior das casas.

Onde se fixam?

  • Sobretudo nas orelhas, cabeça, abdómen, virilhas e espaços interdigitais.

O que fazer quando se detetam?

  • Remover imediatamente. Idealmente, o parasita deverá ser guardado num recipiente apropriado (como um frasco para recolha de urina) contendo álcool a 70 por cento, para posterior estudo, caso necessário.

A que sinais e sintomas devo estar atento?

  • Reações cutâneas pouco exuberantes, resultantes da ação direta da fixação da carraça.
  • Em caso de doença: febre, anemia, anorexia, perda de peso, icterícia e linfadenomegalia, denominação dada ao aumento do volume dos gânglios linfáticos.

Como são tratadas as doenças?

  • Com antibióticos ou antiparasitários.
  • Também poderá ser necessário recorrer a analgésicos, anti-inflamatórios, antipiréticos e complexos vitamínicos.
  • Um diagnóstico tardio pode pôr em risco a vida do animal.

Fonte: informação adaptada a partir de dados cedidos pelos médicos veterinários André Pereira e Carla Maia

Última revisão: Junho 2020

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