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COVID-19: as respostas às dúvidas dos doentes oncológicos

COVID-19 e doentes oncológicos: o que tem de saber

Um painel de especialistas responde a algumas das principais questões dos doentes oncológicos em tempo de pandemia da COVID-19.

Devo manter as consultas e tratamentos? O que fazer se tiver sintomas de COVID-19? Como acalmar a ansiedade acrescida que o aparecimento desta pandemia veio trazer à minha vida? Para responder a estas e outras questões dos doentes oncológicos, três associações uniram esforços. E, com o apoio da AstraZeneca, dinamizaram uma sessão de esclarecimentos dirigida a doentes oncológicos e aos seus cuidadores.

«Nestes tempos complicados que vivemos por causa do novo coronavírus e que nos obrigam a abdicar de coisas tão importantes como um abraço que tanto consolo dá a estes doentes, achámos fundamental levar a cabo esta iniciativa para dar apoio aos doentes oncológicos que com tantas dúvidas e perguntas ficam no meio deste caos. Por isso, convidámos especialistas na área para aconselhar da melhor forma possível. E também trazer uma maior tranquilidade aos doentes», refere Tamara Milagre, presidente da Evita, associação de apoio a portadores de alterações nos genes relacionados com cancro hereditário.

«O doente oncológico já passou por situações de muito medo»

Miriam Brice, presidente da Associação Careca Power acrescenta: «O doente oncológico já passou por situações de muito medo e de extrema fragilidade no que respeita à adaptação a uma nova realidade. O que este fenómeno veio trazer é essa mesma sensação a toda a população. Ou seja, a preocupação de um doente oncológico quanto ao futuro, quanto ao estar bem amanhã, quanto ao conseguir ultrapassar a doença, é uma preocupação que veio da noite para o dia e que agora todos temos. O doente oncológico que, naturalmente, já estava fragilizado é o elo mais fraco com este acrescento de incerteza na sua vida».

«Os doentes oncológicos convivem com uma doença que é controlável às vezes, mas outras vezes não»

Por outro lado, Vítor Neves, presidente da Europacolon, associação de apoio ao doente com cancro digestivo refere: «Em Portugal, as doenças oncológicas digestivas são responsáveis todos os anos por 17 mil novos casos e 10 mil mortos, claro que não têm o impacto e o alarmismo que esta doença tem, pois não têm o aspeto contagioso e descontrolado deste vírus. Mas os doentes oncológicos convivem com uma doença que é controlável às vezes e outras vezes não. Estão habituados a lidar com o sofrimento, com cuidados excecionais, com aspetos imunitários baixos e altos, que vão sendo alternados e agora têm este novo dado a acrescentar.»

10 questões dos doentes oncológicos

A sessão de esclarecimento está disponível nas páginas de Facebook das três associações. Resumimos o essencial para si.

1. Que cuidados os doentes oncológicos devem ter nas deslocações ao hospital?

«Antes de mais, é importante diferenciar os doentes oncológicos que são sobreviventes do cancro das pessoas que estão em tratamento ativo porque são realidades muito distintas. Uma pessoa que teve um diagnóstico de doença oncológica há uns anos, que não está em tratamento ativo ou que está em vigilância tem, em termos de cuidados e riscos, uma situação diferente de uma pessoa que está com uma doença oncológica ativa. Sobretudo, se estiver a fazer quimioterapia ou imunoterapia, por exemplo, que são tratamentos que podem provocar uma supressão imunitária, ou seja, uma diminuição da imunidade», começa por explicar Paulo Cortes, coordenador da Unidade de Oncologia do Hospital Lusíadas em Lisboa.

«Estas pessoas já tinham um maior risco de infeções, mesmo antes do aparecimento da pandemia da COVID-19. Os cuidados que nós já ensinávamos os doentes já os tinham. Dito isto, obviamente as pessoas que estão em tratamento ativo e que têm de deslocar-se ao hospital devem ter um circuito preferencial. Para poderem, de alguma forma, estarem sujeitos a um menor risco. Muitas das unidades de oncologia estão a fazer isto. Além disso, os doentes devem deslocar-se num meio de transporte não coletivo», aconselha.

2. Os doentes oncológicos podem continuar a ir acompanhados ao hospital?

«De uma forma geral, infelizmente, estamos a dizer às pessoas que não tragam o acompanhante. A não ser que seja estritamente necessário. Muitas vezes, até pedimos à pessoa que veio fazer análises que se resguarde no seu veículo até que cheguem os resultados. Ou seja, há toda uma série de medidas, mais ou menos criativas, que podemos e devemos ter neste momento. Isto para que o doente oncológico em tratamento ativo tenha uma menor possibilidade de contágio e de contacto com o ambiente hospitalar», refere o médico Paulo Cortes.

3. Os doentes oncológicos devem usar máscara?

«Se os profissionais de saúde aconselharem um doente oncológico em tratamento ativo a usar máscara na unidade de saúde, esta deve ser colocada. Depois de ter sido feito um correto ensino do seu uso. Mas, fora da unidade de cuidados de saúde, desde que a pessoa não se desloque por meio de transporte coletivo, não está aconselhada a utilização da máscara», indica o coordenador da Unidade de Oncologia do Hospital Lusíadas Lisboa Paulo Cortes. «A máscara não é tanto para proteção pessoal, por exemplo, para nos protegermos do coronavírus. Mas sim para proteger o outro. Por isso, está indicada para quem tem sintomas de tosse, congestão nasal e espirros. Embora esteja também recomendada para quem está a cuidar de um doente com a doença COVID-19. A máscara deve ser impermeável e descartável, de uso único», indica Hélder Novais e Bastos, médico pneumologista no Hospital de São João no Porto.

4. As consultas devem ser feitas ou adiadas?

«Nós estamos numa crise, numa emergência. Por um lado, temos de confinar esta pandemia para não termos uma situação descontrolada. Por outro lado, temos de continuar a cuidar o melhor possível das pessoas que necessitam. Mas temos de adequar a nossa resposta. E adequar implica, por exemplo, nos doentes que estão em vigilância, sem tratamento ativo, em consultas de rotina fazer consultas de telemedicina. Acredito até que a maioria já está a fazê-lo. Portanto, esta é uma das possibilidades. Outra possibilidade é o reagendamento das consultas, nomeadamente de seguimentos de longo prazo que podem ser reagendados para mais tarde, para conter a vinda das pessoas aos hospitais e a possibilidade de contágio», indica o coordenador da Unidade de Oncologia do Hospital Lusíadas em Lisboa.

5. Os tratamentos podem continuar a ser feitos?

«Alguns tratamentos podem ser adequados para minimizar as vindas ao hospital. Nomeadamente, a imunoterapia, que em vez de se fazer de duas em duas semanas ou de três em três pode-se fazer de quatro ou de seis em seis semanas. Também no caso da quimioterapia podemos procurar uma alternativa com quimioterapia oral e, assim, o doente vem menos vezes ao hospital. Em termos de radioterapia, está-se a privilegiar os hipofracionamentos. Isto quer dizer que, quando possível, em vez de se fazer um tratamento que iria levar algumas semanas os radiologistas tentam fazer mais doses em menos sessões para minimizar as vindas do doente ao hospital», indica Hélder Novais e Bastos, médico pneumologista no Hospital de São João no Porto.

«Estar bem informado é a melhor ferramenta que temos para lidar com o medo. Por outro lado, uma informação que não é adequada vai aumentar a ansiedade e dificultar o processo de adaptação»

6. Quem tem cirurgia marcada deve manter ou cancelar a operação?

O médico pneumologista no Hospital de São João Hélder Novais e Bastos explica: «Neste momento, no Hospital de São João, as cirurgias oncológicas ainda não foram canceladas. Mas esta é uma situação que pode evoluir. O que é verdade hoje pode não ser verdade para a semana. E pode chegar um momento em que os hospitais vão, de repente, ficar cheios de doentes com COVID-19 e podem ser forçados a cancelar essas cirurgias». Porém, o especialista sublinha: «Estes são tempos difíceis para toda a gente, mas particularmente para os doentes e os seus cuidadores. No entanto, isto é algo que vai passar. A maior parte dos infetados (pelo novo coronavírus) vão ter um percurso benigno. E para vencermos este desafio – e vamos vencê-lo, é uma questão de tempo – algumas consultas poderão ser adiadas agora, mas irão ser feitas depois».

7. Que outros cuidados especiais devem ter os doentes oncológicos face à COVID-19?

«As medidas que estão a ser propostas para doentes oncológicos são as mesmas que a Direção-Geral da Saúde recomenda para toda a população. Por exemplo, a correta higienização das mãos e não levar as mãos à cara. Não está recomendado o uso de máscara ou luvas. Está sim recomendado o distanciamento social de um a dois metros», enumera o médico pneumologista no Hospital de São João Hélder Novais e Bastos.

8. O que deve o doente oncológico fazer se tiver sintomas de COVID-19?

«Depende do local onde está a ser tratado. Hospitais que estão preparados com uma linha direta ou doentes que têm o contacto direto do médico, devem ligar e questionar o seu médico. Isto porque, por um lado, estes doentes têm normalmente outras doenças como bronquite crónica ou asma e acabam por ter maior predisposição para ter infeções respiratórias. Por outro lado, porque existe uma fase após os tratamentos em que a imunidade, as chamadas defesas do organismo, estão mais em baixo. Ou seja, a contagem de glóbulos brancos, que nos protegem contra as infeções, pode vir até níveis perigosos para a saúde com predisposição especial para uma infeção como a provocada pelo novo coronavírus ou outras.

Caso não seja possível falar com o seu médico, o doente deve então, tal como a população em geral, ligar para o SNS 24. Os enfermeiros deste serviço estão altamente treinados para seguir um algoritmo e perceber se o doente precisa ou não de ser testado», explica o médico pneumologista Hélder Novais e Bastos.

9. Como conciliar, a nível psicológico, o confinamento social com a necessidade de apoio emocional que os doentes oncológicos tanto precisam?

«Gostaríamos todos de estar num outro contexto. Mas a nossa primeira necessidade, neste momento, deve estar focada sobre aquilo que está a acontecer. E que traz uma responsabilidade a todos nós de cuidarmos uns dos outros nas nossas casas. Protegendo-nos e protegendo as nossas famílias. Dito isto, é muito importante reforçar as relações. Neste momento, não podemos abraçar as pessoas de quem mais gostamos. Mas podemos estar em contacto direto com elas por outros meios. Se, ultimamente as pessoas estavam muito mais interessadas em enviar mensagens de texto, neste momento, surge a necessidade de voltar a falar mais ao telefone, o que é bem mais agradável. Desta forma, as pessoas ficam mais próximas e podem exprimir muito melhor aquilo que estão a sentir», aconselha Maria Jesus Moura, diretora da Unidade de Psicologia do IPO Lisboa.

10. À ansiedade provocada pela doença oncológica junta-se agora a ansiedade da pandemia. Como podem os doentes gerir este estado emocional?

«Há uma vulnerabilidade acrescida para os doentes oncológicos. Reconhecermos essa vulnerabilidade é importante para perceber que ela aumenta e que isso é natural. A ansiedade está presente no dia a dia do doente oncológico, desde o momento em que se confronta com o diagnóstico da doença. Portanto, agora, com o risco de uma infeção, é natural que as pessoas fiquem muito mais inquietas e preocupadas. Estar bem informado é a melhor ferramenta que temos para lidar com o medo. Por outro lado, uma informação que não é adequada vai aumentar a ansiedade e dificultar o processo de adaptação. Portanto, reforço a importância da procura de informação junto de fontes oficiais. Como a Direção-Geral da Saúde, da Organização Mundial da Saúde e, no que diz respeito às questões da ansiedade, a Ordem dos Psicólogos Portugueses», recomenda a diretora da Unidade de Psicologia do IPO Lisboa.

Depois, como refere a especialista, existem várias formas de controlar a sintomatologia ansiosa. «Nem todas as pessoas necessitam do mesmo. O que é importante é irmos ao encontro daquilo que são as nossas necessidades e sermos criativos», salienta Maria Jesus Moura que dá alguns exemplos. As atividades podem ir desde «a visualização de um espaço de conforto» à prática de «exercício físico, de meditação ou de mindfulness guiado», em relação às quais a especialista sugere a procura de aulas nas redes sociais. «Todos nós temos um espaço de conforto e segurança. Para algumas pessoas esse espaço pode estar associado à natureza, para outras pessoas, pode ser a praia ou um ambiente mais tranquilo. A visualização desse espaço ajuda a controlar os pensamentos intrusivos – que, em situações de maior ansiedade, estão sucessivamente a tomar conta da cabeça das pessoas – e dá-nos tranquilidade», explica.


{ Conselhos para os cuidadores do doente oncológico }

Como vencer o pânico de poder trazer o vírus para dentro de casa?

Maria Jesus Moura, diretora da Unidade de Psicologia do IPO Lisboa, deixa alguns conselhos aos cuidadores dos doentes oncológicos.
«Esta pandemia veio trazer-nos uma sensação muito grande de perda de controlo. O aparecimento de uma doença oncológica põe-nos igualmente em contacto com essa sensação. Mas, na verdade, no nosso dia a dia não temos controlo sobre quase nada. Temos controlo sobre meia dúzia de questões, mas não temos controlo sobre as situações da vida. No entanto, a perceção de que temos tudo sob controlo dá-nos segurança. E isso dá-nos uma imensa estabilidade no nosso dia a dia.

Claro que o impacto emocional da doença oncológica é muito grande na pessoa que está doente. Mas há também um impacto muito grande para a família. E, sobretudo, para o cuidador principal que vê também a sua vida alterada, quer sucessivamente continuar a cuidar e, muitas vezes, já está exausto ao longo do processo. Neste momento, o cuidador pode ter uma preocupação acrescida que é a preocupação de ter que ir à rua e poder trazer o vírus para casa.

O que pode fazer

  • «Manter os cuidados já referidos, sobretudo a distância social, pode dar um controlo maior ao cuidador», indica a especialista. Depois, é preciso ter noção da fase em que está. «Há uma fase inicial da doença em que, quer os doentes quer as famílias, estão num processo muito combativo contra a doença. E, muitas vezes, não têm muito tempo para pensar noutras questões porque têm o foco no tratamento.
  • Quando se chega a uma fase de fim da terapêutica, muitas vezes, entra-se naquilo a que se denomina “ressaca psicológica”. Nesta fase, as pessoas começam a pensar muito mais naquilo por que passaram o que, adicionalmente, traz uma maior vulnerabilidade psicológica. Dormir bem vai ser fundamental para carregar baterias para o dia seguinte. Alguns exercícios de meditação, de controlo da respiração, ou exercícios de atenção plena (disponíveis nas redes sociais) podem ajudar a dormir melhor.»
Última revisão: Março 2020

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