Pílula: fim às dúvidas

Pílula: fim às dúvidas

Hipertensão, retenção de líquidos, AVC… A lista de potenciais efeitos secundários associados à toma da pílula continua a suscitar preocupação. Será uma boa opção para si? Pergunte ao seu médico mas, antes, leia este artigo.

  • PorManuela VasconcelosJornalista

  • Colaboração e revisão científicaDra. Tereza PaulaAssistente hospitalar de Ginecologia-Obstetrícia na Maternidade Alfredo da Costa

As novas diretrizes para prevenção do AVC, divulgadas pela American Heart Association, têm uma recomendação especial dirigida às mulheres: procurar alternativas à contraceção hormonal, especialmente à que contém estrogénios. A razão para este alerta prende-se com o impacto desta hormona no sistema cardiovascular de mulheres que apresentem fatores de risco, como antecedentes familiares de doença cardiovascular, tabagismo ou enxaqueca com aura, esta última associada à ocorrência de AVC em mulheres com menos de 55 anos. Esta medida leva a redobrar a atenção para uma questão que já constava nas recomendações de Organização Mundial da Saúde.

Tomar a pílula é muito mais do que seguir a dica de uma amiga ou aviar uma receita na farmácia. É preciso conhecer os riscos e colocar todas as dúvidas ao médico para que também ele não se limite a prescrever a contraceção, mas que fale sobre o tema, riscos e precauções

Em Portugal, segundo Tereza Paula, médica ginecologista, «estas orientações já integram a prática clínica. Em 2011, as sociedades de ginecologia, contraceção e medicina da reprodução portuguesas emitiram um documento (consenso) no qual definem não só a utilização da pílula nas mulheres em geral como nas que têm fatores de risco ou patologia associada. Nestes casos, a contraceção hormonal combinada é contraindicada, porque pode aumentar bastante o risco de AVC». Tomar a pílula é muito mais do que seguir a dica de uma amiga ou aviar uma receita na farmácia. É preciso conhecer os riscos e colocar todas as dúvidas ao médico para que também ele não se limite a prescrever a contraceção, mas que fale sobre o tema, riscos e precauções. Para a ajudar, a Revista Prevenir reuniu as questões que deve levar para o consultório e as respostas que poderá obter.

“É preciso consultar um médico antes de tomar a pílula?”

Sim, sem dúvida, defende Tereza Paula: «Uma mulher não deve começar a tomar a pílula sem ir a um médico de família, um médico ginecologista ou fazer uma consulta de planeamento familiar». Um erro comum a evitar é começar a tomar por iniciativa própria, «porque a escolha do tipo de pílula deve ser adaptada a cada mulher – se é mais nova, mais velha, tem mais ou menos peso, se é hipertensa, se tem acne, pilosidade. Há pílulas que podem ser mais adequadas do que outras, para além desses fatores de risco que é importante avaliar».

“Que exames médicos e análises devo fazer antes de iniciar a toma?”

«A priori não será preciso fazer análises nem exames, basta a história clínica familiar. A avaliação principal implica falar com a pessoa e perceber se tem fatores de risco. Com base no perfil (por exemplo, se é obesa), na existência de patologias ou suspeitas devido à história clínica, podem ser pedidos exames ou análises. Se é saudável, não precisa de fazer exames, quando muito, pode medir a tensão arterial.»

“Que importância tem a minha história clínica familiar?”

É um elemento-chave, uma vez que os principais riscos de complicações como o acidente vascular cerebral podem dever-se a antecedentes familiares. Segundo a American Heart Association, estudos revelam que, nas mulheres e pacientes jovens, a probabilidade de se ter um AVC é maior se existirem casos idênticos na família direta. Para além da doença coronária e arterial, há outras situações a ter em conta, como cancro, hemofilia e patologias do foro hepático ou renal.

“Que pílula tem maiores riscos para a saúde?”

«Há pílulas que são mais indicadas para umas mulheres do que para outras., mas não há pílulas que tenham mais riscos senão nunca as iríamos prescrever», afirma Tereza Paula. A escolha deve ser avaliada caso a caso.

90 por cento do risco de AVC deve-se a dez fatores facilmente modificáveis, revela a American Heart Association. A toma de contracetivos hormonais e a terapia hormonal de substituição são alguns exemplos incluídos nas novas diretrizes desta entidade

“Como posso saber se a pílula que tomo é a mais indicada?”

Não pode, ou seja, cabe ao médico avaliar o seu historial e eventuais fatores de risco para prescrever a mais indicada para o seu caso. Se detetar alterações ou efeitos secundários deverá alertá-lo para que possa reavaliar a situação. e tomar as medidas necessárias.

“A dosagem é importante?”

«Hoje em dia já nem se fala em pílulas de alta e baixa dosagem. Todas elas são consideradas de baixa dosagem. Antigamente, a dosagem normal era de 50 mcg e hoje a máxima que temos é 35 mcg (só há uma) e a maioria das restantes é de 30. Existem ainda umas que têm 15 mcg de estrogénios», explica.

“Mesmo que tenha um estilo de vida saudável, é arriscado tomar a pílula?”

Na opinião de Tereza Paula, «a pílula combinada é o método de contraceção com maior eficácia e que, utilizado nas mulheres que não têm fatores de risco, para além da contraceção, tem benefícios adicionais: está provado que a pílula tem um efeito de proteção a nível do cancro do ovário, do endométrio e do cólon.

A combinação pílula/tabaco torna-se ainda mais perigosa para a saúde com o avançar da idade, sendo contraindicada nas mulheres fumadoras com mais de 35 anos

Sabe-se que a pílula, ao diminuir a quantidade de sangue perdida, pode ter um efeito benéfico nas mulheres com tendência para a anemia. E quem sofre de dores menstruais intensas também pode beneficiar.»

“Que alterações biológicas ocorrem no corpo?”

«Em princípio, uma mulher que toma a pílula não sente nada, a não ser uma diminuição da perda de sangue durante as menstruações. De facto, o que surge não é a menstruação, mas uma hemorragia de privação, que só acontece porque há uma pausa na toma da pílula. Se notar outros sintomas deve contactar o médico.»

“Já tomo a pílula há anos e nunca tive problemas. Devo ser seguida pelo médico?”

«Deve ter o acompanhamento que qualquer mulher tem, com a consulta anual. Não por tomar a pílula, mas porque é indispensável que faça um exame ginecológico com citologia (Papanicolau) para rastreio de cancro do colo do útero. Em consulta, poderá discutir as questões da contraceção hormonal.»

“Sou fumadora. Posso tomar a pílula sem receios?”

Depende do tipo de pílula. «Nas fumadoras não está indicada a pílula combinada, mas existe outra só com progestativo que é usada nestes casos. É a chamada pílula da amamentação que as mulheres tomam após a gravidez.» A combinação pílula/tabaco torna-se ainda mais perigosa para a saúde com o avançar da idade, sendo contraindicada nas mulheres fumadoras com mais de 35 anos.

“Que cuidados devo ter com a saúde agora que vou tomar a pílula?”

Fazer uma alimentação saudável, exercício físico e evitar o tabagismo – isto são pilares de saúde que têm a ver não só com esta temática mas com a saúde em geral», resume a médica.

«Se a pílula for tomada de forma criteriosa e indicada pelo médico, provavelmente os riscos que se corre são muito pequenos e os benefícios muito maiores»

Segundo pesquisas citadas pela American Heart Association, manter-se fisicamente ativa pode reduzir em 30 por cento o risco de AVC, graças aos benefícios que traz a nível cardiovascular, aumento do colesterol HDL (o chamado bom colesterol) e reforço da função imunitária. Medir a tensão arterial periodicamente e fazer a consulta ginecológica anual são outros cuidados a ter.

“É verdade que o risco tromboembólico é maior na gravidez ou após o parto?”

«O risco de sofrer um fenómeno tromboembólico durante a gravidez é maior (30 a 60 vezes) do que ao tomar a pílula. Depois do bebé nascer – nas seis semanas do puerpério – existe também um risco aumentado de tromboembolismo, pelo que não devem ser utilizadas as pílulas combinadas. Mesmo uma mulher que não amamente não deve usá-las nessa fase, deverá optar pela pílula de progestativos (também chamada “pílula da amamentação”).»

“Ter varizes ou problemas venosos na família pode ser um fator de risco?”

«Não é um fator de risco para o tromboembolismo, nem sequer é contraindicação. Contudo, sabemos que os estrogénios têm um impacto negativo a nível venoso e podem provocar maior desconforto ou potenciar o aparecimento de varizes. Em alternativa, pode usar a pílula de progestativos.»

“Após uma interrupção prolongada, posso retomar a toma?”

«O risco tromboembólico que está associado à pílula é sempre maior no primeiro ano de utilização e depois diminui imenso. Portanto, cada vez que recomeça estará a aumentar esse risco.

«A enxaqueca é uma patologia, e principalmente as enxaquecas com aura são uma contraindicação para fazer a pílula, porque sabemos que aumenta o risco de AVC»

Se não houve grandes modificações em termos de saúde, não teve doenças e sempre se deu bem, poderá retomar a mesma pílula, mas é sempre aconselhável falar com o médico.»

“É verdade que a pílula combinada é a mais usada em Portugal?”

«Sim, mas hoje em dia a pílula isolada – só com progestativo – já começa a ser muito utilizada, especialmente por causa das mulheres mais velhas que começam a apresentar fatores de risco, como hipertensão e diabetes. A partir dos 40 anos, é uma pílula muito utilizada».

“Qual é a diferença entre a pílula combinada e a pílula com progestativos?”

A eficácia na contraceção é equivalente, o que as distingue é a composição e os efeitos no ciclo menstrual. A ausência de estrogénios na pílula dita isolada torna-a uma alternativa para quem tem fatores de risco associados à contraceção oral hormonal combinada. Em termos práticos, explica Tereza Paula, «enquanto com a pílula combinada a mulher tem o controlo sobre o seu ciclo menstrual, com a pílula só com progestativos pode ir de um extremo em que não menstrua ou, pelo contrário, ter perdas diárias de sangue. Menstruar todos os meses não é muito comum com esta pílula e isso faz com que algumas mulheres não a apreciem».

“É normal sentir dores de cabeça ou enxaqueca quando se toma a pílula?”

Não. Como alerta a médica, «se as mulheres começam a ter dores de cabeça quando tomam a pílula, têm de se perceber o que se passa. A enxaqueca é uma patologia, e principalmente as enxaquecas com aura são uma contraindicação para fazer a pílula, porque sabemos que aumenta o risco de AVC. No caso de enxaquecas sem aura, se houver outro método contracetivo que a mulher pode fazer deve ser escolhido. Caso use a pílula, deverá ser mais vigiada».


“A que sinais de alarme devo estar atenta? Posso interromper a toma?”

«Se surgirem dores no peito, náuseas, perdas de sangue irregulares, dores de cabeça ou qualquer outra alteração, deverá entrar em contacto com o médico. Ele poderá avaliar se há algum problema que não foi detetado antes ou se é só efeito da pílula e como se poderá resolver. Poderá, por exemplo, procurar uma pílula com uma dose menor de estrogénios ou mudar a via de administração (de cutânea para a oral ou vaginal para diminuir o nível de estrogénios).» Nenhum dos sinais deve levar à interrupção imediata por iniciativa própria. Em vez disso, anote os sintomas para melhor os descrever ao médico.

“O que distingue a pílula dos outros métodos hormonais como o adesivo e o anel vaginal?”

Existem diferenças entre os modos de atuação dos vários métodos, bem como o nível de hormona libertado. Como refere a médica, «é possível variar o nível de estrogénios através da via de administração. Sabemos que pela via transdérmica – o adesivo – se atingem concentrações mais elevadas de estrogénios o que pode ser prejudicial em mulheres com tendência para ter hipertensão. O anel vaginal é o que tem um nível menor e mais estável de estrogénios. Em termos de absorção, a via vaginal é mais regular do que a via oral, que pode sofrer interferências da digestão, por outro lado não sobrecarrega a parte hepática».

“Que alternativas existem para quem não pode tomar a pílula por motivos de saúde?”

As mulheres que não podem fazer contraceção hormonal combinada, devido aos estrogénios, não podem fazê-lo por nenhuma via de administração, seja anel, adesivo ou implante. Nestes casos, podem recorrer à pílula isolada (com progestativos) ou a outros métodos como o dispositivo intrauterino (DIU) só com progestativos ou sem hormonas.

“Que cuidados devo ter ao mudar de contraceção?”

Deve sempre consultar o médico. «Mudar de pílula porque a amiga está a tomar uma diferente ou sugere não é recomendado. Às vezes tem mesmo de se mudar porque há efeitos secundários que começam a surgir como pequenas perdas de sangue, mas isso deve ser avaliado pelo médico. Regra geral, não é preciso fazer um período de intervalo entre o método antigo e o novo.»


Avalie o risco

Se o seu perfil encaixa num dos criterios abaixo, informe o seu medico.

  • Idade superior a 35 anos
  • Tabaco
  • Enxaqueca / Cefaleias
  • Dores menstruais
  • Peso
  • Problemas circulatórios: varizes, tromboflebite superficial
  • Antecedentes familiares de cancro, AVC, doença coronária, doença arterial
  • Diabetes
  • Hipertensão / hiperlipidémia
  • Depressão
  • Epilepsia
  • Nível elevado de gordura no sangue: Colesterol / triglicéridos
  • Problemas renais ou hepáticos (rins /fígado)

A barreira dos 35

Um dos fatores de risco associados à pílula é a idade. Tereza Paula explica porquê.

O que acontece aos 35 anos?

«Segundo os estudos, o risco de tromboembolismo aumenta bastante nessa fase. Com o avançar da idade, o organismo sofre alterações a nível arterial e a componente hormonal também interfere.» O processo de aterosclerose (acumulação de gordura nas paredes dos vasos sanguíneos) é agravado pelo tabaco e os estrogénios têm o mesmo efeito, o que explica porque se torna uma mistura explosiva. Seja qual for a dosagem, a pílula combinada está contraindicada em mulheres fumadoras, especialmente a partir desta idade. Em alternativa, podem recorrer à pílula com progestativos ou, melhor ainda, parar de fumar.


Toma a pílula? Tome nota

Seguir uma dieta equilibrada, não fumar e praticar exercício físico são pilares universais da saúde que ganham relevância se toma a pílula. Será que está a cumprir tudo à risca? Faça uma autoavaliação online e siga as orientações da American Heart Association em My Life Check.


Hormona polémica

Tereza Paula, médica ginecologista, traça um retrato das principais pílulas.

  • Composição
    Na família das pílulas combinadas, existem várias gerações, segundo a hormona progestativa usada, por exemplo: levonorgestrel e norgestrel (2ª geração) desogestrel ou gestodene (3ª geração) e drospirenona (4ª geração). Existem ainda as pílulas só com progestativo que são recomendadas para as mulheres com fatores de risco associados à presença de estrogénios, como o tromboembolismo.
  • Polémica
    Nos últimos anos, os casos graves de acidentes vasculares em mulheres jovens registados um pouco por todo o mundo – Canadá, França, Portugal – puseram em causa a contraceção hormonal. No centro da polémica, estavam as novas gerações de pílulas, compostas por drospirenona. «Estes últimos progestativos são muito utilizados por terem uma propriedade nova (antimineralocorticóide) que pode ser benéfica para evitar retenção de líquidos. Pode não ser a pílula de primeira escolha para muitas pessoas, mas ser a indicada se for feita uma avaliação correta dos riscos», defende Tereza Paula.
  • Riscos
    No que respeita aos problemas vasculares, «o risco aumenta bastante nas mulheres que tomam a pílula combinada (estrogénios e progestativos). Sabemos que os estrogénios aumentam o risco de problemas embólicos e que alguns progestativos quando adicionados aos estrogénios podem ter um efeito suplementar», explica a médica. Numa declaração sobre o risco de tromboembolismo e as pílulas de 3ª e 4ª geração, publicado no British Medical Journal, especialistas nacionais e europeus consideraram o risco pouco significativo e defenderam uma avaliação cuidadosa da mulher e os seus fatores de risco para escolher a pílula mais indicada e segura.
Última revisão: Maio 2015

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