Assim venci a surdez

Sérgio Santos: «Como eu venci a surdez»

Com apenas 3 anos, Sérgio Santos perdeu a audição de forma inesperada. Durante anos, lidou com o isolamento que a surdez implicava e, desse processo, nasceu a paixão pela fotografia. Hoje, aos 33 anos, recuperou a audição com a ajuda de implantes cocleares.

  • EdiçãoCarlos Eugénio Augusto

  • FotografiaPietro Costa

«Quando tinha cerca de 2 anos e meio, os meus pais começaram a perceber que não ouvia bem. As suspeitas partiram do facto de ter deixado de falar de forma repentina e passar a ter o hábito de levantar o volume da televisão e do rádio do carro. Também no infantário, uma das educadoras confessou à minha mãe a desconfiança de que eu tinha problemas auditivos. Perante isso, fui visto por vários médicos. De início, nada descobriram, até que, quando eu tinha 3 anos, foi-me diagnosticada surdez severa a profunda.»

Procurar ajuda

«Apesar de a minha surdez ser uma certeza, os médicos não conseguiam apurar qualquer causa em concreto e só avançavam com suposições. Os meus pais queriam saber mais sobre o problema e também sobre a ajuda que poderia ter para voltar a ouvir. Fomos a uma clínica especialista em exames audiológicos. Mediante os resultados, prescreveram próteses auditivas para os dois ouvidos pois, nessa altura, ainda não existiam os implantes cocleares. Além disso, recomendaram que fizesse terapia da fala. Esse trabalho era articulado com a educadora para potenciar a reabilitação.»

Lidar com a surdez

«O facto de não ouvir não me retirou a vontade de aprender e fazer tudo o que os colegas faziam. Na verdade, não me senti inferior aos meus colegas que, felizmente, eram meus amigos. Apesar disso, e para me defender de estigmas, enquanto fui pequeno, os meus pais deixaram o meu cabelo comprido para não se notarem as próteses auditivas, mas nunca me deixei afetar por isso. Ficava triste quando não conseguia acompanhar as conversas com os amigos, especialmente quando estavam envolvidas mais do que duas pessoas. Para compensar essa dificuldade, aprendi a ler lábios, mas, sem sons, era difícil expressar-me corretamente. Essas dificuldades estenderam-se à escola, principalmente na aprendizagem da leitura e escrita.»

«Quando perdi a audição, o impulso levava-me a abraçar a coluna de som para poder sentir a vibração»

Apelar à criatividade

«Enquanto crescia, tinha saudades de ouvir os sons que adorava, especialmente das músicas que a minha mãe cantava. E, quando perdi a audição, o impulso levava-me a abraçar a coluna de som para poder sentir a vibração. Até hoje, não vivo sem música. Mas, por outro lado, foi a surdez que fez crescer a minha paixão pelo mundo visual e, para lidar com isso, tive de apelar à criatividade. Esse processo foi-me tornando mais sensível às cores, à luz, à composição, ao feeling, à linguagem corporal, às texturas, ao que é gráfico. E assim nasceu a minha paixão pela fotografia, atividade que hoje exerço a nível profissional.»

Agarrar as imagens

«À medida que o meu gosto pela imagem ia crescendo, muito alimentado pelas revistas de moda e arte que os meus pais compravam, sentia que queria mais e podia fazer algo com essa vontade. Assim, peguei na máquina fotográfica dos meus pais e decidi fazer a minha “arte”. Pelo caminho, também me aventurei a dedicar-me ao desenho, e passava horas a pintar. De início, usava materiais como pastel seco e óleo sobre papel. Mais tarde, pintei quadros com tinta acrílica e com tinta a óleo, e também me aventurei na escultura. O gosto pelo que era visual não tinha limites.»

Nova esperança

«Durante esses anos, nunca desistimos de procurar ajuda médica para encontrar um novo tratamento. Fomos a Espanha, França, Alemanha, mas a resposta era sempre: “não há nada a fazer”. Cheguei mesmo a tentar várias sessões de acupunctura, mas sem sucesso. Até que, quando tinha 21 anos, depois de muitos anos à espera de uma resposta, recebi uma carta do serviço de Otorrinolaringologia do Hospital dos Covões, Coimbra, sobre a possibilidade de colocação de implantes cocleares. Dito e feito. Quando soube que poderia voltar a ouvir, senti-me muito feliz. Era inacreditável ter essa hipótese. Agarrei a esperança de deixar de sentir o vazio que é o silêncio absoluto, algo que pode abalar a nossa autoestima, ego e segurança.»

«Foi a surdez que fez crescer a minha paixão pelo mundo visual e, para lidar com isso, tive de apelar à criatividade»

Colocar os implantes

«Coloquei o primeiro implante no Hospital dos Covões, em dezembro de 2006, mas não reagi bem. Tinha falta de equilíbrio (o ouvido interno é o sistema responsável pelo equilíbrio) e o implante era desconfortável e doloroso. Além disso, os sons eram completamente diferentes do que ouvia com a prótese auditiva, soavam a vozes eletrónicas, robóticas. Para ajudar, os audiologistas iam reprogramando o aparelho para sentir os sons de forma confortável. Fazia ainda audiogramas assim como terapia da fala para treinar a audição e identificar palavras e números. Tinha também de repetir frases sem leitura labial e fiz terapia para trabalhar e identificar os novos estímulos sonoros. Mas, ultrapassada essa fase de adaptação, fiquei muito entusiasmado. Em dezembro de 2018, voltei a Coimbra para colocar o segundo implante e tudo correu muito melhor.»

Conectado com o mundo

«Se foi muito estranho ter estado refém de um mundo sem sons, voltar a ouvir fez-me sentir a pessoa mais saudável e feliz do mundo. A minha vida mudou. Foi impressionante e era emocionante descobrir novos sons como, por exemplo, o esfregar das mãos. Hoje, tenho outra maneira de ouvir, com mais nitidez. Por vezes, tento falar ao telefone, apesar das dificuldades, mas nem esses obstáculos me retiram a felicidade. A vida voltou a sorrir, sinto-me mais realizado, seguro e com grandes expectativas. A surdez ensinou-me a nunca desistir, a aproveitar o que tenho à minha volta e a focar-me no meu bem-estar. E, seja vencer a surdez ou outro problema, só pode haver uma solução: lutar para o conseguir. Depois, é sentirmo-nos gratos quando o conseguimos e encontrar a felicidade a cada momento por estar conectado com o mundo.»


Implantes cocleares: O que são?

«São dispositivos eletrónicos que captam e convertem o som ambiental em sinais elétricos, transmitindo-os diretamente ao nervo auditivo através de elétrodos implantados cirurgicamente no interior da cóclea [cavidade do ouvido interno em forma de espiral que contém as estruturas que irão originar, no ouvido normal, a estimulação elétrica do nervo auditivo], fornecendo assim uma sensação auditiva», explica Hugo Estibeiro, médico otorrinolaringologista no Hospital CUF Infante Santo. São formados «por um componente externo, que contém um microfone que capta o som ambiente, um processador que transforma esses sons num código elétrico e um transmissor que envia por radiofrequência, e através da pele, esse código ao componente interno. O componente interno, implantado debaixo da pele atrás da orelha, é formado por um recetor que recebe o sinal codificado pelo elemento externo e o envia para elétrodos colocados no interior da cóclea, estimulando diretamente as terminações do nervo auditivo. Os sinais elétricos conduzidos pelo nervo auditivo são enviados a áreas específicas do cérebro e interpretados como sons e linguagem», descreve o especialista. Algumas semanas depois da cirurgia, «o implante coclear é ativado por um audiologista, através da conexão entre os componentes. Nesse momento, o “doente” conseguirá ouvir sons, mas só após algumas sessões de programação e terapia conseguirá entender palavras».

Última revisão: Abril 2019

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