Pedro Simas: «Temos de reaprender a viver em equilíbrio com a Natureza»

Pedro Simas: «Temos de viver em equilíbrio com a Natureza»

Crescemos sem controlo e invadimos habitats de animais, gerando um desequilíbrio na nossa relação com a Natureza, o que é, para Pedro Simas, virologista, a razão maior para o aparecimento de pandemias. Mudar o nosso comportamento «é bem mais importante do que criar vacinas transversais», afirma.

  • PorCarlos Eugénio AugustoJornalista
  • FotografiaArtur

  • Entrevista aProf. Doutor Pedro SimasVirologista e investigador do iMM – Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes, e professor de virologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa


Há um ciclo comum a todos os vírus. «Primeiro, invadem células, fazem o maior número de cópias do seu genoma, protegendo-as com proteínas virais, e, depois, saem dessa célula para iniciar novo ciclo de contágio. Mas o tipo de doença provocada pelos vírus é variável. O VIH, por exemplo, leva a uma infeção persistente, não gerando uma imunidade que o elimine. Já os vírus respiratórios, como o novo coronavírus, causam uma infeção aguda, mas depois são eliminados», explica o virologista. Mas então por que é que este vírus se tornou tão devastador? Por que é que é tão difícil combatê-lo? O que nos reserva o futuro? Pedro Simas, que coordena um laboratório dedicado ao estudo dos mecanismos envolvidos na relação entre vírus e hospedeiros, no Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes (iMM), recebeu a Revista Prevenir em sua casa e tem respostas.

«Fomos todos apanhados desprevenidos, em especial pela peculiaridade deste vírus que se reflete numa enorme quantidade de infeções invisíveis, assintomáticas»

Ciência e medicina evoluíram como nunca nas últimas décadas. Ainda assim, continuam a existir pandemias devastadoras. Porquê?

É o reflexo do comportamento da nossa sociedade. Invadimos novos habitats e entramos em contacto com animais que nos transmitem novos vírus. Mas, além disso, é também justo dizer que fomos todos apanhados desprevenidos, em especial pela peculiaridade deste vírus que se reflete numa enorme quantidade de infeções invisíveis, assintomáticas. Portanto, o que aconteceu foi que quando se descobriram os primeiros casos identificados de doença respiratória severa já existiriam muitíssimos mais entre a população. Ou seja, apesar de até ser um vírus pouco virulento e de na maior parte dos casos não causar doença “visível”, tem uma capacidade de disseminação rápida e silenciosa, fator que ainda hoje dificulta a determinação do número real de infetados. Só o saberemos com os testes sorológicos.

O que mais o tem surpreendido ao estudar este vírus?

O elevado número de infeções. Inicialmente, equacionou-se que este novo coronavírus pudesse ser como os vírus SARS-1 ou MERS, que causam síndromes respiratórias com sintomas mais evidentes, e que seria mais fácil contê-lo e controlá-lo. Mas isso não aconteceu. Muitas pessoas não sabiam que estavam infetadas. Mesmo nas que desenvolvem doença, ou seja, infeção respiratória sintomática, seja ela ligeira e semelhante a uma constipação ou mais grave e que necessite de cuidados hospitalares com internamento, o período de contágio começa dois dias antes dos primeiros sinais clínicos e mantém-se após a recuperação durante mais uns dias. Isto favorece a disseminação do vírus. A lição a retirar é que temos de usar o conhecimento adquirido de outras infeções virais e ir comparando com o que se vai conhecendo, observando o comportamento dos vírus emergentes. Neste caso, o novo coronavírus não se comportou como o SARS-1 e o MERS, e está a comportar-se como os outros coronavírus já existentes na população humana, vírus endémicos e que causam pouca morbilidade ou doença.

«A resolução da pandemia depende do comportamento de todos e do uso inteligente do conhecimento científico»

80 por cento da população lida tão bem com o vírus que nem sabe que está doente. Porquê?

Porque qualquer exposição ao vírus vai construindo defesas. Caso contrário, uma infeção significaria uma doença e não é isso que acontece. É fundamental perceber que ser infetado não significa risco de morte.

É possível acelerar o processo de imunidade? Chegou a falar-se da utilização de soros de recuperados como uma solução…

Sim, é possível acelerar o processo de imunidade, com uma vacina ou infeção natural muito controlada. Em relação aos soros, têm anticorpos neutralizantes, mas não são a solução para parar a pandemia, pois têm vida curta e esgotam a sua viabilidade rapidamente. São utilizados na prática clínica em ambiente hospitalar, mas devido à curta duração da sua ação implicaria uma toma sistemática e repetida, inviável neste caso.

Consegue prever-se quando se estabelecerá efetivamente a imunidade?

Ainda não se consegue prever quanto tempo levará até chegarmos a uma imunidade de grupo protetora. Estima-se, com base no que conhecemos para outros coronavírus, que tal aconteça quando 60 a 70 por cento da população já tiver desenvolvido imunidade individual. Uma imunidade individual acontece quando produzimos anticorpos contra o vírus e o conseguimos eliminar, mas não é garantido que essa seja uma imunidade para a vida. Apesar disso, quer dure seis meses ou vários anos, quem eliminou facilmente o vírus numa primeira vez será ainda mais competente numa segunda infeção, pois o nosso organismo tem uma “memória” imunológica que favorece a resistência à reinfeção. À medida que os indivíduos desenvolvem imunidade, vai-se criando a tal proteção de grupo que poderá permitir que o vírus passe de pandémico para endémico. O vírus passará a infetar menos pessoas, causando infeções sazonais como acontece com outros vírus respiratórios, incluindo os coronavírus.


Estamos muito longe disso?

Sim, estamos no princípio dos princípios, pois mais de 90 por cento da população mundial ainda é suscetível à infeção. Mas, imaginemos por exemplo um cenário hipotético no qual conseguimos 100 por cento de proteção dos grupos de risco; então, as restantes pessoas (75 a 80 por cento da população) poderiam circular livremente contribuindo para construir essa imunidade de grupo num espaço de tempo mais curto. Talvez víssemos o problema resolvido mais rapidamente. Neste momento já se sabe o que esperar e fazer, e a resolução da pandemia depende do comportamento de todos e do uso inteligente do conhecimento científico. Mas não posso deixar de frisar que é muito difícil conter um vírus pandémico ao mesmo tempo que se constrói imunidade por infeção natural. Todos os pormenores são importantes, estão em risco vidas humanas.

O que acontece se a vacina demorar muito tempo a chegar?

Não adianta (des)esperar pela vacina, que, no melhor cenário, chegará no final do ano e pode até não chegar a tempo para a resolução da pandemia. A exposição do ser humano à infeção leva o sistema imunitário a construir imunidade, atuando como uma espécie de “vacinação”. E, assim, o vírus torna-se endémico. Isto não invalida que, uma vez existindo uma vacina eficiente, não se use posteriormente nos grupos de risco, tal como na gripe. Reparemos, o vírus Influenza tem dois grandes grupos de risco: os mais novos e os mais velhos – uns têm o sistema imunitário imaturo, os outros, mais debilitado. Com uma utilização inteligente da vacina, consegue-se a devida proteção. Mesmo que chegue mais tarde, a vacina para a COVID-19 pode ser utilizada sazonalmente nos grupos de risco.

«Não gostaria de viver numa sociedade pós-pandémica em que se tenha que usar máscara e não se possa dar um abraço»

Esse seria o cenário ideal…

Sim, ter uma vacina seria ideal. E é importante frisar que todas as vacinas aprovadas são seguras e benéficas.

Um fármaco é outra possibilidade avançada. Estará mais próximo do que a vacina?

Um fármaco dificilmente funciona para resolver a pandemia como uma vacina. Mas, se conseguíssemos curar as pessoas que entram no hospital com um fármaco, seria excelente. Mas não é fácil descobrir esses fármacos. Os vírus usam os mecanismos normais da célula para se replicarem; é difícil, mas não impossível, encontrar um fármaco que seja eficiente a eliminar o vírus sem danos colaterais para o hospedeiro, ou seja, sem que tenha efeito tóxico. Esse é que é o grande desafio no combate aos vírus. Mas é possível, pois já o fizemos eficientemente para outros vírus como o VIH e o vírus da hepatite C.

«Viver em equilíbrio com a Natureza é bem mais importante do que criar vacinas transversais que nos possam, eventualmente, proteger de futuras pandemias»

O que devemos fazer?

Continuar a cumprir as indicações das autoridades de saúde. Mas não só. É urgente reaprender a viver em equilíbrio com a Natureza, respeitando-a e evitando invadir habitats de animais. Ao fazê-lo, estaremos sujeitos a voltar a “encontrar” novos vírus para os quais não temos defesas ou a transmitir vírus aos animais. Viver em equilíbrio com a Natureza é bem mais importante do que criar vacinas transversais que nos possam, eventualmente, proteger de futuras pandemias. Não gostaria de viver numa sociedade pós-pandémica em que se tenha de usar máscara e não se possa dar um abraço. Temos o conhecimento para construir uma plataforma moral que proteja a Natureza, e acredito que vamos conseguir lá chegar.

Última revisão: Julho 2020

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