Nuno Monteiro Pereira: «99 por cento dos casos de disfunção erétil podem ser tratados»

Nuno Monteiro Pereira, médico urologista

O comprimido azul lançado há mais de duas décadas foi uma revolução farmacológica e social, recorda o médico urologista Nuno Monteiro Pereira: «O homem deixou de ter uma doença estigmatizante para ter um problema que se trata». Mas os tratamentos atualmente existentes para a disfunção erétil são vários e é preciso definir o mais indicado para cada caso.

  • PorBárbara BettencourtJornalista
  • FotografiaArtur

A Revista Prevenir falou com o médico urologista Nuno Monteiro Pereira sobre disfunção erétil (DE), um problema que afeta 400 mil portugueses entre os 40 e os 70 anos. Coautor do maior estudo epidemiológico feito até à data sobre disfunções sexuais dos portugueses, o EpisexPT, em 2005, o especialista revela à Prevenir que hoje praticamente todos os casos podem ser tratados com sucesso. Ultrapassar a vergonha e procurar ajuda é importante por isso, mas também porque a DE é sempre sintoma da existência de outra doença que é importante descobrir e tratar.

Grande entrevista a Nuno Monteiro Pereira, médico urologista

Nuno Monteiro Pereira, médico urologista

«Uma situação ocasional ou de curta duração pode ser causada por cansaço ou falta de confiança e muitas vezes resolve-se por si. A disfunção é uma situação continuada, com tendência a piorar»

Que balanço podemos fazer da situação atual no que toca à disfunção erétil (DE)?

Os dados apontam para um universo de 400 mil portugueses afetados, a maior parte na faixa entre os 40 e os 70 anos. A DE é a segunda disfunção sexual masculina mais prevalente a seguir à ejaculação prematura. Mas a DE é bastante mais grave pelo grau de consequências que acarreta e as implicações que pode ter na própria identidade masculina.

Em que consiste exatamente esta disfunção?

Podemos defini-la como uma incapacidade persistente (por mais de três meses) de o homem obter e manter ereções que o satisfaçam. Uma situação ocasional ou de curta duração pode ser causada por cansaço ou falta de confiança e muitas vezes resolve-se por si. A disfunção é uma situação continuada, com tendência a piorar.

A incidência tem vindo a diminuir ou a aumentar?

Não tem diminuído, também porque há mais pessoas a procurar ajuda. Estima-se que cerca de 20 por cento dos homens não o faz. Em idades mais avançadas, por vezes acomodam-se. Por um lado, sentem vergonha, por outro, acham que é uma situação inevitável e irreversível, o que não é verdade. E, se a mulher também tiver menor desejo sexual, vão deixando andar. Apesar de terem tristeza, não têm motivação suficiente para marcar uma consulta e ter a ajuda de que precisariam.

Quais são as consequências de não o fazerem?

O diagnóstico tardio tem influência na eficácia do tratamento. Por outro lado, convém lembrar que a DE não é uma doença, mas um sintoma de outras doenças, por exemplo, diabetes ou hipertensão, que convém diagnosticar e tratar.

«A doença arterial é a grande causa dos problemas de ereção. Tabagismo, hipertensão, colesterol, triglicéridos, todos estão associados à DE por esta via»

Não é então uma condição associada ao envelhecimento?

Não por si só. Há homens com 90 anos que não têm qualquer problema. Claro que a sexualidade e a capacidade de ereção se vão alterando com a idade, mas a DE não tem a ver diretamente com isso. Pode é estar associada a doenças que surgem com o envelhecimento ou ocorrências como um cancro da próstata ou uma operação à próstata que tendencialmente ocorrem mais tarde na vida.

Quais as doenças mais comuns na origem da DE?

As doenças arteriais e venosas. É fácil perceber porquê. No caso das doenças arteriais, as artérias têm uma camada celular interior, um forro, chamado endotélio, que é o primeiro atingido nas doenças vasculares. O tabagismo altera a elasticidade do endotélio, a acumulação do colesterol “entope” as artérias por espessamento do endotélio, a hipertensão exerce pressão acrescida sobre os vasos, com repercussão no endotélio, que pode ficar com lesões. Existe ainda um processo de inflamação do próprio endotélio. Como esta camada celular está em contacto com a passagem do sangue, estas perturbações vão interferir na chegada do sangue aos órgãos, sendo o pénis um dos mais sensíveis. É neste sentido que a doença arterial é a grande causa dos problemas de ereção. Tabagismo, hipertensão, colesterol, triglicéridos, todos estão associados à DE por esta via.

É verdade que a disfunção erétil pode ser um sinal de patologia cardíaca?

Essa é uma das grandes descobertas dos últimos 15 anos. O que ocorre nas artérias do pénis ocorre também nas do coração, mas, por serem ligeiramente mais estreitas, as artérias do pénis são mais sensíveis a esses efeitos, pelo que os sintomas podem ser observados primeiro a nível peniano. Num homem de 40 ou 50 anos que começa com problemas de disfunção erétil de origem arterial, é obrigatório ir estudar o coração. Em geral, no máximo dois anos após as queixas de ereção, começa a haver queixas coronárias. Mais de 30 a 40 por cento dos homens com DE terão problemas cardíacos.

As causas psicológicas, como depressão ou ansiedade, correspondem a cerca de 15 a 20 por cento dos casos em geral, mas nos jovens é uma das principais causas, indica Nuno Monteiro Pereira

Referiu ainda as causas venosas…

O caso típico é a diabetes. Esta doença determina uma falência da elasticidade das veias penianas que as impede de fechar, o que é vital no mecanismo da ereção. O pénis é uma estrutura elástica, um músculo, que está contraído quando em flacidez. Quando há uma ereção, começa a encher. As artérias funcionam como torneiras, que têm de abrir para o sangue passar, e as veias são o ralo que tem de fechar para o sangue não esvaziar. Se não fecham, a ereção não se mantém. Além da diabetes, pode haver uma causa congénita, com DE em homens jovens.

Há ainda outras causas?

As causas psicológicas, como depressão ou ansiedade, correspondem a cerca de 15 a 20 por cento dos casos em geral, mas nos jovens é uma das principais causas. De forma mais residual, há causas neurológicas: lesões medulares podem impedir a inervação do pénis e o mesmo ocorre na cirurgia radical da próstata – esta invariavelmente lesa os nervos que contactam com o pénis, limitando total ou parcialmente a ereção. Existem ainda causas endócrinas por via da diminuição das hormonas masculinas, o que pode ocorrer com a idade, embora geralmente de forma muito lenta, ou a obesidade. Estas hormonas têm uma correlação com a falta de desejo e eventualmente podem, nalguns casos, comprometer a capacidade de ereção.

Também há medicamentos com efeito negativo sobre a capacidade de ereção?

Sim, são muitos. Há uns anos, a lista incluía cerca de 200. Quase todos os anti-hipertensores, todos os antidepressivos, grande parte dos ansiolíticos, todos os medicamentos hormonais… Alguns têm menos efeitos secundários, mas não há ainda medicamentos destes sem efeitos na DE.

Nuno Monteiro Pereira, médico urologista

«Há inúmeros exames que permitem confirmar diagnósticos de forma muito precisa»

Um hipertenso ou deprimido não tem como escapar à DE?

Não é certo. Um medicamento que causa problemas de ereção nalguns homens, noutros, pode não o fazer. Por isso é importante o doente informar o médico dos sintomas que tem, para este mudar a medicação se for o caso. Também é possível combinar medicamentos para a hipertensão ou outra doença com medicação oral específica para a DE.

Como se faz o diagnóstico?

Havendo queixas, deve ir-se ao médico de família, que faz uma primeira avaliação. A maioria das causas da DE são tratáveis por ele, que também está habilitado a tratar diretamente os sintomas com medicação oral. Casos mais complexos ou que não respondam à medicação devem ser encaminhados para um especialista. Há inúmeros exames que permitem confirmar diagnósticos de forma muito precisa, como o ecodoppler, para estudar as artérias, a rigidometria peniana, para estudar a rigidez peniana, e o estudo somatossensitivo peniano, para avaliar a sensibilidade do pénis.

20 por cento dos homens não procuram ajuda por achar que a disfunção erétil é inevitável e irreversível com a idade, o que não é verdade, indica Nuno Monteiro Pereira

Quais são os tratamentos disponíveis atualmente?

De primeira linha, temos o acompanhamento psicológico, quando a DE é de causa psicológica, e os medicamentos orais, chamados inibidores das fosfodiesterases, como o sildenafil, tadalafil, vardenafil e avanafil. Agem de modo semelhante favorecendo a irrigação peniana. Dizem-se “inteligentes” porque só atuam se houver excitação sexual e têm muito poucos efeitos secundários. O tadalafil tem uma particularidade, a sua “janela de ação” é superior a 24 horas, sendo o único que permite uma administração diária em doses baixas (os outros tomam-se na hora), o que pode ter vantagens nalguns casos. Permite fazer uma espécie de fisioterapia do pénis porque a molécula está sempre ativa e melhora as ereções noturnas. O avanafil é o que tem menos efeitos secundários.

E de segunda linha?

«Há as bombas de vácuo, que se colocam no pénis para conseguir originar e manter uma ereção. Funcionam de modo mecânico pelo que não dependem da excitação. São adequados em casos de lesão dos nervos que vão para o pénis (devido a cirurgia radical da próstata, por exemplo) em que os medicamentos não funcionam. Há também as injeções intracavernosas em que o próprio homem dá uma injeção no pénis com um medicamento que provoca a ereção 2-3 minutos depois, mesmo sem estimulação sexual, também tendo indicação nos casos em que os medicamentos não funcionam. E existe a terapia por ondas de choque/ pulsos eletromagnéticos que só funciona em situações de baixa a média gravidade de causa arterial. É um tratamento de ultrassons, semelhante aos que servem para partir pedras nos rins, feito em consultório, para “rejuvenescer” o mecanismo arterial do pénis.

Nuno Monteiro Pereira, médico urologista

«Se o homem não consegue ter ereção nas relações sexuais, mas mantém as ereções noturnas ou matinais, então o problema é claramente psicológico. Quando o problema é físico, a incapacidade vai-se manifestar dia e noite», explica Nuno Monteiro Pereira

Existe mais alguma solução?

Existem as próteses penianas, que se incluem nos tratamentos de terceira linha reservados a casos mais graves. Há dois tipos, as semirrígidas e as insufláveis. Nas primeiras, implanta-se no pénis um aparelho que permite ao homem determinar a posição do pénis para permitir a penetração durante o ato sexual. A desvantagem é que o pénis fica sempre semirrígido. Nas segundas, o dispositivo é insuflável e controlado por uma bomba manual, colocada no interior do escroto, e um reservatório de líquido, colocado junto à bexiga. Se o reservatório está cheio, o pénis está “vazio”; esvaziando o reservatório, o pénis “enche”. O mecanismo aciona-se pressionado um botão que faz encher ou esvaziar o reservatório. É o tratamento com maior taxa de satisfação, acima dos 90 por cento. É invisível, eficaz e caro. Só o aparelho custa entre oito e nove mil euros. Não há comparticipação e no Serviço Nacional de Saúde a lista de espera é elevada.

Pelo que diz não se pode propriamente falar em cura…

Só em algumas situações, como a DE de causa congénita que referi acima e que se resolve com cirurgia. Mas em tudo o resto será melhor falar em tratamento dos sintomas, pois não há cura do problema subjacente. Em contrapartida, podemos dizer que praticamente todos os homens podem ser tratados. A exceção irá para doentes psiquiátricos graves que não podem pôr uma prótese porque não vão conseguir manejá-la ou os doentes com patologia cardíaca tão grave que o risco da cirurgia é elevado. Os outros 99 por cento podem ser tratados.

30 a 40 por cento dos homens com disfunção erétil terão problemas cardíacos

Há alguns novos tratamentos ou medicamentos promissores em estudo?

Não. Há tratamentos experimentais, como o uso de células estaminais que poderão ser viáveis no futuro, mas irá demorar porque o processo de ereção masculina é muito complexo.

Faz sentido ir com a parceira a uma consulta?

Sim, ajuda imenso. Habitualmente eles são fechados e é a mulher que eventualmente diz: “Eu também vou!”. O homem beneficia em sentir a mulher integrada na busca da solução. E a mulher aprecia que o homem lhe dê a confiança para ela participar. Com este apoio é mais fácil depois ganhar confiança. Felizmente é cada vez mais frequente. Antigamente o homem sentia vergonha, escondia, sofria muito. Os novos medicamentos fizeram toda a diferença. O homem deixou de ter uma doença estigmatizante para ter um problema que se trata. Neste sentido, a revolução que o Viagra trouxe há 21 anos foi não só farmacológica mas sobretudo social.


Nuno Monteiro Pereira explica: como funciona a ereção

A ereção «é o resultado de um complexo processo de fatores psicológicos e físicos. Para que ocorra é necessário que o cérebro, os vasos sanguíneos, os nervos e as hormonas funcionem em conjunto. Os impulsos nervosos são os mensageiros sexuais que transportam os sinais de excitação e as sensações entre o pénis e o cérebro. O estímulo nervoso relaxa e dilata os vasos sanguíneos dos corpos cavernosos no interior do pénis, que se vão enchendo de sangue, aumentando de volume e produzindo a rigidez. A função erétil normal exige um bom funcionamento dos vasos sanguíneos, dos nervos genitais e a integração de todo o processo de ereção a nível cerebral», explica Nuno Monteiro Pereira.

Última revisão: Fevereiro 2020

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