Manuel Carrageta: «São os maus hábitos que adoecem o coração»

Manuel Carrageta, médico cardiologista, presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia

As doenças cardiovasculares continuam a ser a principal ameaça à saúde dos portugueses, mas é possível alterar este cenário, defende Manuel Carrageta, presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia.

  • PorCarlos Eugénio AugustoJornalista
  • FotografiaArtur

  • Entrevista aProf. Dr. Manuel CarragetaMédico cardiologista e presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia

O enfarte agudo do miocárdio e o acidente vascular cerebral (AVC) são duas das principais causas de morte em todo o mundo. Portugal não foge à regra. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, as doenças cardiovasculares vitimam anualmente cerca de 17 milhões de pessoas e, prevê a instituição, em 2030, serão ainda a principal causa de morte. Apesar das estatísticas, o presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia Manuel Carrageta mantém uma abordagem otimista e apela a uma maior intervenção de todos: «Se aliarmos a responsabilidade de assumir um estilo de vida saudável e uma vigilância médica regular aos recentes progressos da medicina, asseguraremos gerações mais responsáveis e saudáveis a nível cardiovascular, e na saúde em geral», afirma em entrevista à Revista Prevenir.

Grande entrevista Manuel Carrageta, presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia

«Só mudando o estilo de vida reduziremos as mortes associadas às doenças cardiovasculares»

Segundo o Instituto Nacional de Estatística, e apesar de um decréscimo nos últimos anos, as doenças cardiovasculares continuam a ser a principal causa de morte em Portugal, provocando, em média, mais de 30 mil mortes por ano. Como podemos inverter essa tendência?

Está na altura de refletir sobre o mal que temos feito à nossa saúde e perceber que só mudando o estilo de vida reduziremos as mortes associadas às doenças cardiovasculares. E essa mudança deve ser assente em quatro pilares: alimentação saudável, exercício físico regular, não fumar e evitar o excesso de álcool. E, claro, ir ao médico com regularidade, realizar exames periodicamente para avaliar fatores de risco. Os muitos estudos realizados e a experiência em consultório revelam que essas estratégias são eficazes. A prova está no consecutivo aumento da esperança média de vida desde há cerca de 80 anos, que se deveu, numa fase inicial, ao controlo de doenças infecciosas como a tuberculose, febre tifoide ou difteria. E é esse sucesso que tem inspirado a medicina e a ciência a atuar noutras áreas e, felizmente, constatamos uma diminuição de casos de doenças cardiovasculares. Mas ainda há um longo caminho a percorrer pois, ainda assim, são a principal causa de morte na grande maioria dos países, também porque as pessoas vivem mais tempo e o envelhecimento é um fator de risco de doenças como o enfarte do miocárdio ou AVC.

Mas, paradoxalmente, há cada vez mais jovens com doenças cardiovasculares…

Sim, é um facto, mas essa realidade deve ser contextualizada. Quando falamos do aumento da esperança média de vida e da saúde em geral, temos de assumir e direcionar essa ideia para quem tem os cuidados que referimos. Quem não segue essa filosofia, independentemente do sexo ou idade, aumenta os fatores de risco e continua a adoecer e morrer precocemente, pois são os maus hábitos que adoecem o coração. Infelizmente, é isso que acontece com muitos jovens, por desconhecimento ou descuidos. É também uma questão cultural de base e socialmente transversal que devemos e teremos de ultrapassar.

As doenças cardiovasculares afetam mais o sexo feminino. Ser mulher é um fator de risco acrescido?

Não diria tanto, ainda que existam mais mulheres com doenças cardiovasculares. Aquilo que sabemos é que, por exemplo, os AVC atingem mais as mulheres, em média, dez ou 20 anos depois do que acontece aos homens. Esse “atraso” está relacionado com a proteção hormonal que a mulher tem até à menopausa, sendo os estrogénios excelentes protetores vasculares. Já em relação ao enfarte agudo do miocárdio, os homens são mais afetados. Mas, regra geral, ambos os sexos têm problemas cardiovasculares, em especial numa fase mais tardia da vida. Exemplo disso são doenças como a insuficiência cardíaca e a fibrilhação auricular, duas verdadeiras epidemias associadas ao envelhecimento. Mas, felizmente, existem terapêuticas que controlam esses problemas, e os doentes continuam a viver durante muitos anos. Ainda assim, não podemos deixar de sublinhar que muitos desses casos podem ser prevenidos, especialmente se pensarmos que basta deixar de fumar.

«Um fumador apresenta, em média, uma idade biológica cerca de dez anos mais velha comparativamente com um não fumador», afirma Manuel Carrageta

O tabagismo é um dos maiores inimigos do coração…

Sim, apesar de tantas campanhas de sensibilização, continua a ser uma das principais causas de enfartes do miocárdio e AVC. Devemos ter tolerância zero em relação ao tabagismo pois é um perigoso tóxico para o organismo. Os seus efeitos são de tal ordem nefastos que um fumador apresenta, em média, uma idade biológica cerca de dez anos mais velha comparativamente com um não fumador.

Entre as doenças cardiovasculares, quais as mais prevalentes em Portugal?

A prevalência está relacionada com os fatores de risco e sabemos que mais de metade da população adulta portuguesa tem mais do que um desses problemas, e que os mesmos se relacionam. Assim, no topo de lista, temos a hipertensão, o colesterol elevado e a obesidade, este último fator em aumento, nomeadamente na infância. Esses problemas condicionam a ocorrência de AVC e enfartes como as maiores ameaças. A seguir surgem a insuficiência cardíaca, a fibrilhação auricular e a diabetes.

Como se explica essa relação entre fatores de risco?

Porque as causas estão associadas entre si. Vejamos: os diabéticos são quase todos hipertensos; a obesidade está ligada ao aumento da tensão arterial e colesterol, assim como da diabetes. A esse agrupamento de fatores de risco chamamos síndrome metabólica, um quadro em que se altera os parâmetros dos fatores de risco cardiovasculares. É por isso que estamos sempre a apelar a uma maior vigilância periódica da saúde.

«Seria determinante que existisse uma disciplina de saúde logo desde o primeiro ciclo escolar»

O que deveríamos todos fazer nesse sentido?

Ser proativos e isso implica ir ao médico de família, pelo menos, uma vez por ano, para controlar os fatores de risco ou atuar em caso de doença. Nunca é demais sublinhar que mesmo pessoas cuidadosas com a saúde podem desenvolver fatores de risco por questões genéticas, em especial o aumento da tensão arterial e dos níveis de colesterol, e, como se trata de fatores silenciosos, só uma observação médica pode identificá-los. Esses problemas podem ser corrigidos pela alteração do estilo de vida ou medicação. Mas, tão importante quanto ir ao médico é motivar as pessoas para seguirem as estratégias aconselhadas para uma maior vitalidade do coração.

Que estratégias podem ajudar a motivar mais as pessoas?

Potenciar a literacia em saúde, seja pela partilha de informação entre profissionais e utentes, seja no seio familiar, principalmente pelo exemplo dado pelos mais velhos. Além disso, seria determinante que existisse uma disciplina de saúde logo desde o primeiro ciclo escolar. É essencial aprender sobre saúde desde a infância e interiorizar o que devemos ou não fazer, tendo em consideração que falamos do nosso maior bem e património. Isso iria apelar à sensibilidade e despertar o interesse sobre o tema, tendo um impacto positivo mesmo no círculo familiar, pois as crianças iam “confrontar” os pais de forma mais assertiva sobre a alimentação ou os atos de fumar ou beber álcool.

«Os animais de estimação são amigos do coração, estando provado que quem tem cães vive mais e melhor. Isso acontece não só por ser um bom pretexto para dar uma caminhada na sua companhia, como pela afetividade e prazer que isso proporciona», afirma Manuel Carrageta

Outra forma de aumentar a literacia em saúde é a realização de rastreios, cada vez mais comuns em Portugal…

São ações determinantes. Além de sensibilizar, colocam as pessoas perto da realidade da sua saúde. Felizmente, constatamos que a adesão a essas iniciativas tem crescido. Em conjunto com os progressos da cardiologia, acredito que essa mentalidade vai ajudar a reduzir o número de doentes e alertá-los para alguns sinais que o corpo vai dando, ainda que existam outros silenciosos. Como complemento, existem medidas gerais de saúde pública que reeducam as pessoas, tornando-as mais conscientes. Exemplo disso é a redução do sal nos alimentos ou do açúcar nos refrigerantes, ou alertas para que se consumam menos gorduras saturadas. São estratégias que possibilitam viver mais e melhor, e normalizam os níveis de colesterol e tensão arterial da população.

«Devemos ir ao médico com regularidade, mesmo sem sintomas. No caso da saúde cardiovascular, é ainda mais pertinente, pois as doenças são assintomáticas»

Que sintomas ou dados fornecidos pelos rastreios nos devem motivar a ir ao médico?

Reforço que devemos ir ao médico com regularidade, mesmo sem sintomas, para corrigir os tais “desvios” da norma que podem indiciar problemas. No caso da saúde cardiovascular, é ainda mais pertinente, pois as doenças são assintomáticas e quanto mais cedo, seja na idade do paciente ou na fase da doença, se identificar o problema, mais bem-sucedido será o tratamento.

Da sua experiência, o que tem vindo a mudar na saúde cardiovascular dos portugueses ao longo dos anos?

A balança oscila entre pontos muito positivos e questões ainda por resolver. Por um lado, verifica-se que o perfil dos casos de enfarte e AVC mudou, e, regra geral, reduziu-se a sua intensidade e gravidade. Isso deve-se à evolução da medicina e às medidas preventivas, nomeadamente a medicação. No entanto, há uma tendência crescente para a obesidade, pois o quotidiano e as atividades profissionais obrigam a um maior sedentarismo, um dos maiores fatores de risco. É por isso que todos, sem exceção, e doentes cardíacos incluídos, devem fazer exercício físico.

O jantar deve ser “frugal” «Durante a noite o organismo não consegue gastar as calorias (nem precisa tanto delas), ao contrário do que acontece com o pequeno-almoço. E isso vai fazer com que as calorias acumuladas se transformem em gordura», explica Manuel Carrageta

O que é aconselhável nesses casos?

Ser doente cardíaco não impede de se fazer exercício físico, muito pelo contrário, desde que adaptado à respetiva condição. Aliás, a reabilitação cardíaca implica essa prática e recomenda-se que os doentes que sofreram um enfarte do miocárdio façam uma hora diária de atividade física supervisionada, três vezes por semana, durante três meses. Se o doente alterar o seu estilo de vida e mantiver esse hábito, vai notar melhorias significativas em termos de colesterol e tensão arterial. Algumas pessoas passam mesmo a ter uma melhor saúde do que antes do episódio de doença, mas também há quem não aprenda…

Quais os principais erros que os portugueses teimam em fazer?

Principalmente em relação à alimentação, através do excesso de consumo de sal. Outro aspeto prejudicial é não tomar pequeno-almoço. Isso vai impedir o melhor controlo da fome ao longo do dia, gerando um efeito “bola de neve” que leva a que se coma em demasia e, pior, noutras alturas do dia, nomeadamente ao jantar, refeição que deve ser mais frugal, pois durante a noite o organismo não consegue gastar as calorias (nem precisa tanto delas), ao contrário do que acontece com o pequeno-almoço. E isso vai fazer com que as calorias acumuladas se transformem em gordura. Outras ações catastróficas para a saúde cardiovascular são ignorar os tratamentos e, claro, não fazer exercício físico.

Para a prevenção do enfarte do miocárdio, além das terapêuticas, um «outro fator importante e muitas vezes menosprezado é ser socialmente ativo e rodear-se de quem mais gostamos», afirma Manuel Carrageta

Que respostas encontrou a cardiologia para combater as doenças do coração?

O tratamento da hipertensão arterial tem resultados fantásticos, chegando a diminuir o risco de insuficiência cardíaca em mais de 50 por cento, o de AVC em cerca de 40 por cento e o de enfarte do miocárdio em cerca de 21 por cento. Para a prevenção do enfarte, assim como na fase pós-doença coronária, as estatinas têm um papel fundamental. Além dessas terapêuticas, outro fator importante e muitas vezes menosprezado é ser socialmente ativo e rodear-se de quem mais gostamos.

Qual a importância das relações pessoais e emocionais para a saúde do coração?

Algumas investigações concluíram, por exemplo, que ter uma boa rede de amigos tem um peso tão ou mais importante como deixar de fumar. Se, de futuro, conseguirmos aliar estas atitudes com as soluções que a cardiologia oferece em termos de diagnóstico e tratamento, teremos corações e vidas mais saudáveis.


Para preservar a saúde do coração Manuel Carrageta aconselha…

O presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia Manuel Carrageta, indica o que fazer para prevenir doenças cardiovasculares.

  • Seja ativo «Pratique exercício físico com regularidade. Uma boa forma de o fazer é caminhar, em ritmo rápido, cerca de 30 minutos diários, cinco a seis dias por semana.»
  • Controle o nível de colesterol «Isso ajuda a manter as artérias limpas e impede obstruções.»
  • Alimente-se bem «Aposte numa dieta variada, rica em vegetais, azeite, peixe, carne magra e frutos secos. Inclua sopa na refeição, assim como legumes e fruta da época. Evite salgados, enchidos, conservas, refeições pré-preparadas e bolos de pastelaria», aconselha Manuel Carrageta
  • Vigie a pressão arterial «Assim pode detetar se é hipertenso, uma doença geralmente assintomática, um dos principais fatores de risco para as doenças cardiovasculares.»
  • Controle o peso «Uma simples alteração de estilo de vida em termos de alimentação e prática de exercício físico ajuda a perder peso e diminui o risco de doença cardiovascular.»
  • Reduza o açúcar no sangue «A maioria dos alimentos (os hidratos de carbono) transforma-se em glucose (o açúcar do sangue), que o corpo usa para obter energia. O facto de o seu valor se tornar elevado pode propiciar um cenário de pré-diabetes ou diabetes, e, logo, um risco maior de doença cardiovascular.»
  • Deixe de fumar «O tabagismo danifica o sistema circulatório, contribui para o endurecimento das artérias e formação de coágulos, além de diminuir os valores do colesterol bom (HDL)», indica Manuel Carrageta.
Última revisão: Setembro 2019

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