Guerra às superbactérias

Guerra às superbactérias

Andam por todo o lado. Saiba o que cabe a si fazer para travar a ameaça das superbactérias.

  • PorCarlos Eugénio Augusto Vanda OliveiraJornalistas

  • Entrevista aDr. Carlos PalosMédico consultor em Medicina Interna; subespecialista em Medicina Intensiva

A 21 de setembro de 2016, o tema da disseminação de infeções resistentes aos antibióticos recebeu uma atenção sem precedentes por parte dos líderes dos Estados-membros da Organização das Nações Unidas (ONU). Depois do VIH, das doenças crónicas não transmissíveis e do ébola, esta foi (apenas) a quarta vez que um assunto de saúde entrou na agenda da Assembleia-Geral da ONU; o seu presidente, Peter Thomson, justifica: «A resistência aos antibióticos ameaça a obtenção dos objetivos para o desenvolvimento sustentável e requer uma resposta global». Da reunião, ficou o compromisso de todos de desenvolver planos de ação nacionais com base nas orientações estabelecidas em 2015 pela Organização Mundial da Saúde.

«[A utilização de antibióticos] tem vindo, através de uma espécie de seleção natural, a eliminar as bactérias mais sensíveis e a “ativar” os genes mais resistentes»

Em Portugal, já existe desde 2013, o Programa de Prevenção e Controlo de Infeções e de Resistência aos Antimicrobianos (PPCIRA), um dos nove programas de saúde prioritários da Direção-Geral da Saúde, cujos objetivos gerais incluem a redução da taxa de infeções hospitalares, a promoção do uso correto dos antibióticos e a diminuição da taxa de microrganismos com resistência a estes fármacos. Carlos Palos, médico coordenador do Grupo de Coordenação Local do PPCIRA do Hospital Beatriz Ângelo e membro da Direção Nacional do PPCIRA, prefere «não entrar em alarmismos», mas, antes, sublinhar a importância do que cada um de nós pode fazer para travar esta ameaça.

Como é que se chega a este ponto em que, segundo muitos, a medicina moderna está em risco?

Todas as bactérias têm inerentes genes de resistência aos antibióticos. A utilização destes fármacos tem vindo, através de uma espécie de seleção natural, a eliminar as bactérias mais sensíveis e a “ativar” os genes mais resistentes. Isto faz com que, no máximo, após dez anos da introdução de um antibiótico em uso clínico generalizado, surjam resistências. Esse fenómeno é comum desde a utilização da penicilina.

Quando utilizamos antibióticos, algumas bactérias morrem, mas as mais resistentes sobrevivem e multiplicam-se. A seguir volta-se a utilizar este medicamento e o ciclo perpetua-se. Acresce o facto de a aposta em novos medicamentos ser diminuta pois a indústria farmacêutica, que tem uma visão comercial do negócio, não tem interesse em investir nesta área.

Onde andam estas bactérias?

Uma vez que as superbactérias resultam da evolução genética das bactérias expostas a antibióticos, elas encontram-se especialmente em ambientes em que estes fármacos são muito utilizados, como nos serviços de cuidados de saúde (hospitais, centros de hemodiálise) ou instituições, como os lares ou cuidados continuados, embora existem também superbactérias a nascer na comunidade, através da toma de antibióticos que são usados para o tratamento de infeções fora dos hospitais e que acabam também por provocar a sua seleção. E o problema é que esta situação não se limita à esfera da medicina.

«A adoção de hábitos básicos, como lavar as mãos com frequência, pode ajudar muito»

Estima-se que 50 a 80 por cento destes fármacos são utilizados fora do ambiente humano, ou seja, na veterinária como meio de crescimento rá*pido e de combate a doenças. Essa utilização leva-nos a uma exposição indireta aos antibióticos ou moléculas resultantes dos mesmos, por via da carne ou peixe que comemos ou por contaminação das águas.

Como entram no nosso organismo?

A transmissão das superbactérias faz-se, na maioria das vezes, por contacto, tal como acontece com as infeções ditas normais. Seja ele direto, por via de uma pessoa colonizada ou infetada; ou indireto, através do ambiente hospitalar, por via de profissionais de saúde ou instrumentos médicos. Mas, todos nós temos milhões de bactérias no organismo, pelo que o ponto de partida pode ser não a transmissão, mas sim uma mutação das bactérias da própria pessoa que através da exposição a antibióticos, se tornam resistentes e se vão multiplicando. Enquanto não existir doença, dizemos que essa pessoa está apenas “colonizada”; só quando surge a febre ou outros sintomas é que se pode falar em infeção.

Se as superbactérias podem estar adormecidas no nosso organismo, o que as “desperta”?

A “ativação” da superbactéria resulta de duas situações: ou da vulnerabilidade de pessoas imunodeprimidas (doentes a fazer quimioterapia ou terapêuticas imunossupressoras), de idosos e de recém-nascidos prematuros; ou de procedimentos invasivos (cirurgias, colocação de algálias e cateteres ou extração de dentes) que não só podem despertar as bactérias presentes no organismo como podem dar lugar à sua entrada, daí que a maioria das infeções aconteçam quando as pessoas estão internadas.

É fácil identificar estas superbactérias?

As bactérias podem ser identificadas de duas maneiras: no decorrer dos exames microbiológicos (ao sangue, à urina ou a abcessos) ou através de rastreio. Os diagnósticos são realizados por zaragatoas (uma espécie de cotonetes mas maiores), por via nasal ou anal e são feitos a doentes que apresentem um risco adicional de estarem colonizados por estas bactérias, pelo facto de serem provenientes de lares, de terem estado recentemente internados noutro hospital, de estarem a fazer diálise, de terem uma traqueostomia ou por terem estado num país com maior incidência de alguma destas bactérias. Os exames são feitos por testes microbiológicos clássicos ou por testes rápidos de tecnologia muito mais cara e os doentes são postos em isolamento.

A adoção de boas práticas por parte dos cidadãos pode ser suficiente para vencer estas bactérias?

Suficiente não será, mas a adoção de hábitos básicos, como lavar as mãos com frequência, pode ajudar muito. O ambiente está contaminado por superbactérias. Algumas encontram-se nos transportes públicos das grandes cidades, tal como andam os vírus na época da gripe.

É possível fortalecer o sistema imunitário para lutar contra as bactérias?

O que podemos fazer é garantir que a colónia de bactérias que habita o nosso organismo, a que chamamos microbioma, se mantenha em equilíbrio através de hábitos de vida saudáveis e cuidados de higiene básicos, como seguir uma alimentação saudável e lavar as mãos. Tendo em conta que o microbioma se vai desenvolvendo harmoniosamente por influência do meio e daquilo que comemos, quando perturbado, através da dominância de bactérias agressivas em relação às boas, a única hipótese de modificá-lo positivamente é alterar os hábitos para melhor. É por isso que, quando os doentes estão colonizados, é importante que saiam do hospital para se repovoarem com um microbioma normal e não patológico.


O que as distingue das bactérias “normais”?

O que as torna especiais é que, ao contrário das bactérias “comuns”, as superbactérias…

  • São multirresistentes – Têm mecanismos de resistência superiores a várias classes de antibióticos.
  • São mais perigosas – Quando provocam infeções, têm uma ação muitíssimo perigosa.

Fonte: Dr. Carlos Palos, médico especialista em Medicina Interna


Ida às urgências: Corro risco de contaminação?

«Uma ida às urgências por algumas horas não apresenta grande risco. A contaminação por superbactérias implica uma permanência de algum tempo num hospital ou lugar infetado. O processo de colonização não se faz “de repente”. Implica, por exemplo, uma situação de internamento superior a dois dias e algum tipo de procedimentos invasivos», afirma Carlos Palos, médico consultor em Medicina Interna, em entrevista à Revista Prevenir.

  • Ao ir ao hospital – «Se se encontrar numa situação vulnerável, de ter feito quimioterapia, ou de estar imunodeprimida, coloque uma máscara durante a permanência no hospital para se proteger de partículas respiratórias, máscara essa que também deve ser usada no caso de o doente que vai à urgência estar a espirrar ou tossir. Esta pode ser solicitada no hospital. É também essencial lavar muito bem as mãos depois de ir à casa de banho», recomenda Carlos Palos.

4 hábitos que ajudam a prevenir a resistência aos antibióticos

1. Lave as mãos

As mãos são o grande veículo de entrada das superbactérias no nosso organismo, mas também o mais fácil de controlar: basta lavá-las.

  • Como se faz Deve fazê-lo, sem exceção, pelo menos antes de comer e depois de ir à casa de banho. Fora do ambiente hospitalar, a lavagem de mãos não precisa do mesmo grau de exigência que é pedido aos profissionais de saúde, mas recomenda-se que seja feita com água e sabão, abundantemente.
  • Vai precisar de… O sabonete líquido tem vantagens em relação ao sólido, uma vez que é de utilização única e está, por princípio, intacto. Mas mais importante do que o produto de lavagem é o material que usa para secar as mãos. O ideal é optar por toalhetes de papel descartáveis.
  • Evite… O uso de sabões antibacterianos. Não está demonstrado que haja utilidade na sua utilização quotidiana, podendo mesmo eliminar bactérias “boas”.

2. Modere o consumo de antibióticos

Quem não os toma com frequência não desenvolve tantas resistências, consegue reagir melhor ao ataque de bactérias e aumenta a eficácia do medicamento quando é usado pontualmente.

  • Faça assim Deixe os sintomas amadurecerem durante três dias antes de avaliar com o seu médico a necessidade de toma de um antibiótico, exceto em caso de doenças crónicas ou estados imunodeprimidos.
  • O que não pode fazer Usá-los em regime de automedicação. Só o seu médico tem conhecimentos para determinar a necessidade de usar um antibiótico e qual o mais eficaz. De outra forma, corre o risco de estar a usá-los em doenças que estes fármacos não tratam (por exemplo, infeções virais como gripes e constipações) ou de escolher um antibiótico pouco eficaz, levando ao desenvolvimento de resistências.

3. Cumpra o tratamento

A utilização correta dos antibióticos é a única forma de impedir o ciclo: toma do fármaco, sobrevivência das bactérias mais potentes, resistência ao antibiótico seguinte.

  • O que tem de fazer Respeite os intervalos entre tomas e mantenha o tratamento até ao fim. As bactérias mais fracas são as primeiras a serem eliminadas. Ao interromper a toma do antibiótico, as que sobrevivem, as mais fortes, multiplicam-se, criando uma colónia de bactérias resistentes.
  • Em caso de esquecimento… Se falhar uma toma, deve rapidamente restabelecê-la e acertar o horário das tomas seguintes, mantendo o mesmo intervalo.
  • No final do tratamento… Devolva os comprimidos que sobraram à farmácia. Desta forma evita que, ao colocá-los no lixo doméstico, entrem no circuito de contaminação de águas residuais e afins.

4. Cozinhe bem os alimentos

As moléculas dos antibióticos só são degradadas quando expostas a temperaturas elevadas, o que não acontece quando a carne é mal passada. Estas podem estar presentes, não só na carne, mas também no peixe e no marisco, especialmente quando provenientes de aquacultura.

  • Durante a preparação dos alimentos As facas e utensílios de cozinha que usar na manipulação de carne, peixe ou marisco não devem entrar em contacto com outros alimentos, de forma a prevenir a contaminação bacteriana.
  • O que pode ainda fazer Preferir produtos de origem biológica, os quais oferecem uma maior confiança quanto à ausência de antibióticos.
Última revisão: Novembro 2016

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