Doutores palhaços: «A maior felicidade é a que damos aos outros»

Doutores palhaços: «A maior felicidade é a que damos aos outros» Dr. Cámóne

Mais conhecido na ala pediátrica de alguns hospitais como Dr. Cámóne, Pedro Fabião faz parte do grupo de Doutores Palhaços que semanalmente levam sorrisos às crianças hospitalizadas. Uma profissão de improviso, mas assente em muito trabalho de preparação.

  • PorCatarina Caldeira BaguinhoJornalista

  • Fotografia Artur

«O resultado dos meus testes vocacionais no secundário levou-me a ser um Doutor Palhaço. Bem… na verdade, deveu-se a um misto de “predestinação” e sorte. Sempre tive um prazer insaciável em fazer rir outras pessoas, sempre quis aprofundar a forma de arte do palhaço, sempre quis estar do lado de uma boa causa e sempre gostei da ideia de ter uma profissão invulgar. Doutor Palhaço parece ter conjugado bastante bem essas tendências. Isso e a sorte de estar no lugar certo, na hora certa e de ter tido uma grande empatia com a Bia (Beatriz Quintella, fundadora da Operação Nariz Vermelho).

«Esta profissão não é um flirt; é uma paixão que nos deixa sem jeito e que ao longo dos anos se torna um amor devoto»

Especializei-me em Psicologia Clínica Psicodinâmica, em que o contacto e a relação são instrumentos centrais de terapia. Sem dúvida que isso me dá solidez na consciência do que está a acontecer do lado de lá e me ajuda enquanto Dr. Cámóne. Mas em alguns aspetos também prejudica: ao longo do dia, tenho de estar constantemente a moderar a tendência para pensar.»

Formação de palhaço

«Ser Doutor Palhaço exige o máximo de profissionalismo, por isso, a formação é extensa e nunca fica concluída. Todos os meses temos formação em algo. A mais contínua é a artística. A arte do palhaço é das mais difíceis artes cénicas – em muitas das escolas de teatro internacionais, é o último módulo.

Doutores palhaços: «A maior felicidade é a que damos aos outros» Dr. Cámóne

Temos formação artística regular e coaching artístico no hospital com os melhores formadores internacionais, que nos dão formações intensivas, uma ou duas vezes por ano. Temos também formação “hospitalar” sobre patologias, regras de higiene, conduta e segurança, psicologia, faixas etárias, desenvolvimento infantil e juvenil, entre outras.»

Amor à profissão

«Coragem, amor, piada, palermice, senso comum, responsabilidade, atenção, sensibilidade, ânsia de aprender… Em suma, trabalhar como quando se está apaixonado. Isto é tudo o que é necessário para se ser um Doutor Palhaço. Esta profissão não é um flirt; é uma paixão que nos deixa sem jeito e que ao longo dos anos se torna um amor devoto. É também importante saber articular a atuação enquanto palhaço com o ambiente hospitalar. Como? Juntando à liberdade artística a sensibilidade, ter os pés na terra e uma escuta muito atenta, conhecer as regras hospitalares dos procedimentos, das relações, das hierarquias. E isto tudo articula-se com experiência e com muito humor.»

Preparar o improviso

«Para fazermos um bom trabalho, necessitamos de muita investigação. A nossa pesquisa incide, sobretudo, no impacto que o nosso trabalho tem nas crianças, nas suas famílias e nas equipas hospitalares. Há também estudos que tentam explorar o que fazem os palhaços para obter o melhor resultado na interação com a criança, ou como deve funcionar uma organização de palhaços de hospital. Os múltiplos estudos que temos vindo a desenvolver são orientados por investigadores académicos, que pertencem a uma rede internacional que se dedica a este fenómeno dos palhaços em contextos de saúde — que, apesar de tudo, é recente e só desde há uma década tem suscitado a curiosidade mais séria das universidades.

«A nossa missão é trazer as crianças de volta para a sua maior “responsabilidade”: brincar, experimentar, sonhar, sentir, aprender»

O nosso trabalho é improvisado, mas o próprio improviso tem de ser muito bem preparado. A liberdade só se consegue com muita estrutura e disciplina, por isso, o treino de modelos de improvisação, o conhecimento dos clássicos, o desenvolvimento da escuta e da aceitação das propostas… tudo isso é fundamental. Mas se aprendermos a conhecer o nosso palhaço e a dar espaço para o seu prazer, meio caminho está feito.»

Um trabalho de equipa

«A nossa missão é trazer as crianças de volta para a sua maior “responsabilidade”: brincar, experimentar, sonhar, sentir, aprender. Como a Bia dizia, nós estamos lá para dar emprego à criança desempregada! Para o conseguirmos fazer, e dado que lidamos com algumas crianças em fase terminal da doença, trabalhamos em dupla, para poder sempre contar com um segundo ser humano para absorver o impacto de algumas situações.


Depois temos “terapia” de grupo, que nas partilhas mensais absorve mais um pouco do impacto, e, por fim, temos fases em que trabalhamos com psicólogos, onde esperamos que se possa filtrar o resto do peso que possa ficar colado ao corpo. Esta última fase é aquilo a que chamamos de “higiene emocional”. O palhaço olha cada situação, grave ou não, com a mesma leveza e inocência. Pode chorar, mas chora como quem pode rir passado segundos.»

O melhor salário

«Não há maior felicidade do que aquela que damos aos outros. Não há maior liberdade do que a de sentir e ser quem somos, e o permitirmos aos outros, com poesia e beleza. Isso é o palhaço. Essa é a maior recompensa. Entrar no hospital e distribuir sorrisos é a maior honra e privilégio do mundo.

Doutores palhaços: «A maior felicidade é a que damos aos outros» Dr. Cámóne

Algo que encaramos com o maior respeito, que questionamos à entrada de cada quarto, que temos que construir de raiz com o poder do encontro e de uma relação mágica e transformadora. É sempre marcante ver uma criança que não está bem, mas que vibra quando os Doutores Palhaços estão com ela. É essa renovação dos encontros profundos e cheios de significado que nos alimenta.»


Quem são os Doutores Palhaços?

Fazem parte da Operação Nariz Vermelho, uma instituição de solidariedade social que oferece, a alguns hospitais portugueses, um programa de intervenção nos serviços pediátricos, através da visita de palhaços profissionais. São artistas especializados no meio hospitalar, que realizam atuações adaptadas a cada criança e a cada situação. A equipa é constituída por 22 Doutores Palhaços, mais nove profissionais que trabalham nos bastidores, que garantem visitas semanais, durante 42 semanas por ano, às crianças hospitalizadas, distribuindo-lhes sorrisos, bem como aos pais.


Aos pais, os Doutores Palhaços recomendam:

«As crianças leem o mundo através do modo de entendimento que os pais lhes possibilitam», acabando por «copiar ou compensar a forma como os progenitores» o vivem, refere Pedro Fabião. O Dr. Cámóne da Operação Nariz Vermelho dá alguns conselhos de como animar uma criança que tem de ficar em casa por estar doente:

  • Ascender ao nível das crianças. Os pais devem lembrar-se que «a vida é demasiado importante para ser levada a sério». Por isso, «devem ascender ao nível das crianças».
  • Dar tempo. «Todas as crianças têm um lado que está disponível para brincar. Às vezes, pode ser só uma frincha entreaberta.» Cabe aos «pais darem-lhes tempo e saber abri-la».
  • Dar atenção e amor. Tendo essa base, «elas fazem o resto no que à animação diz respeito.»
Última revisão: Julho 2016

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