Carlos Oliveira: «As pessoas não são gordas porque querem»

Carlos Oliveira: «As pessoas não são gordas porque querem»

A resistência à leptina, a chamada hormona da saciedade, conduziu Carlos Oliveira ao grau III de obesidade, o mais grave. Através de uma cirurgia tratou o seu problema. Durante este processo conheceu outros pacientes com quem fundou, há quase 20 anos, a Associação de Doentes Obesos e Ex-obesos de Portugal.

  • Por
    Vanda OliveiraJornalista

  • Testemunho deCarlos OliveiraPresidente da ADEXO – Associação de Doentes Obesos e Ex-obesos de Portugal

As pessoas com obesidade não são todas iguais: «Há o comedor de açúcar e há o comedor de grandes volumes. Eu era um comedor de grandes volumes», conta Carlos Oliveira, presidente da ADEXO – Associação de Doentes Obesos e Ex-obesos de Portugal. Mas a obesidade, como explica Carlos Oliveira, não é apenas um problema comportamental. «A maioria das pessoas pensa que o indivíduo é gordo porque quer, porque come muito. E não é assim. A obesidade é um problema biológico e complexo porque não tem só uma razão, mas uma das razões mais fortes é a resistência à leptina», afirma. Conheça a história de Carlos Oliveira neste artigo e no vídeo abaixo.

Viver sempre com fome

«A leptina é a hormona que diz ao cérebro a quantidade de energia que está armazenada no corpo», explica Carlos Oliveira. «O sinal da leptina é produzido pela célula gorda, vai ao cérebro e no regresso a ordem para queimar gordura não chega a estas células porque o neurotransmissor enviado é retido por macrófagos que se encontram à volta do neurónio no tecido nervoso simpático e que está diretamente ligado a estas células. Estes macrófagos existem naquele local pelo facto de a obesidade ser uma doença inflamatória e ali existir um processo inflamatório em curso. E então, o que acontece é que o indivíduo com obesidade não consegue queimar gordura, exceto em situações extremas de dietas extraordinariamente rigorosas ou acompanhadas de exercício físico muito forte. E, por isso, estas pessoas vivem permanentemente com fome e permanentemente disponíveis para comer, porque como o sinal não está a funcionar, o cérebro acha que o indivíduo não tem energia suficiente para viver e emite a mensagem: “come porque precisas de energia para viver e não gastes porque estás a pôr a vida em risco”.»

“Fui até aos 156 quilos”

«Durante a minha juventude pratiquei muito desporto. Jogava básquete, fazia judo e mesa alemã. E em determinada altura da minha vida embarquei. Sou capitão da marinha mercante e andei 15 anos embarcado e, ao parar, qualquer atleta, alarga. Aliás, temos o exemplo do nosso Carlos Lopes. Durante os 15 anos que andei embarcado mais ou menos fui até aos meus 120 quilos com 1,88 m de altura», conta Carlos Oliveira. Tinha então um índice de massa corporal superior a 30, o que, de acordo com a tabela do IMC indicava já uma obesidade moderada ou de grau I. «Depois, vim para terra e enquanto a minha função era estar no terminal a receber navios, mantive mais ou menos o peso. Quando passei a uma função mais sedentária de direção, aí o peso subiu por aí acima e fui até aos 156 quilos», explica Carlos Oliveira que, com este peso, atingiu o nível mais grave de obesidade, a obesidade mórbida ou de grau III.

Portugal foi o primeiro país da Europa a reconhecer a obesidade como uma doença crónica, em 2004

O passo para o tratamento

«Comecei a ter os problemas que estão associados a uma pessoa com muito peso. O facto de não conseguir dormir deitado, ter um quadro pré-diabético, problemas articulares… então disse para mim mesmo: “Isto não pode ser. Tenho uma filha pequena e tenho mesmo de me tratar”. Isto aconteceu por volta dos meus 46 anos, em 1998. Nessa altura, em Portugal, só havia um médico a tratar a obesidade mórbida por via cirúrgica, o doutor António Sérgio do Hospital de Santo António no Porto, e foi lá que eu fui procurar ajuda», recorda. Colocou uma banda gástrica que lhe permitiu perder o peso que tinha a mais. «A cirurgia obriga a que tenhamos uma alteração alimentar e comportamental e é uma grande ajuda para a perda de peso», refere.

O nascimento da associação de doentes

Foi na sala de espera do hospital que Carlos Oliveira em conjunto com outros pacientes com obesidade tiveram a ideia de criar uma associação. «Houve um dia em que saiu nos jornais uma notícia da Organização Mundial de Saúde a dizer que a obesidade era uma doença crónica e nós estávamos ali à espera da consulta e começámos a conversar: “Então, mas se a obesidade é uma doença crónica porque é que nós não somos tratados como todos os outros doentes?” Conversa puxa conversa, falámos acerca disto com o doutor António Sérgio e com a professora Helena Cardoso, juntámos 60 doentes e criámos a associação.» A ADEXO – Associação de Doentes Obesos e Ex-obesos de Portugal nasceu em 2002. «Tem sido uma bola de neve que cresceu e que tem conseguido neste país alterações que são muito importantes para as pessoas que vivem com esta doença», recorda.

«É absolutamente necessário que haja uma comparticipação dos medicamentos, para que as pessoas possam aceder ao tratamento e evitar chegar aos níveis mais graves de obesidade»

Obesidade, uma doença crónica

Dois anos após o nascimento da associação, em 2004, a ADEXO alcança duas grandes metas. «Em primeiro lugar, o reconhecimento da obesidade como doença crónica em Portugal, o primeiro país da Europa em que isso aconteceu. Depois, também na mesma data, conseguimos um Dia Nacional de Luta Contra a Obesidade, que é assinalado todos os anos no penúltimo sábado de maio.» Seguiram-se muitas outras conquistas: «Estivemos presentes na construção do Programa Nacional de Combate à Obesidade e da Comissão Nacional de Acompanhamento do Tratamento Cirúrgico da Obesidade. A nível europeu, ajudámos a criar outras associações, estivemos no Parlamento Europeu e o primeiro documento que existe na Comissão Europeia sobre obesidade, o Livro Branco da Obesidade foi desencadeado por nós em com o contributo de outras equipas. Também começámos o embrião do Conselho Europeu de Pacientes com as duas únicas associações que existiam na altura e que hoje reúne associações de 25 países e é um movimento muito forte na Europa em relação à obesidade», recorda.

Pela igualdade no acesso ao tratamento da obesidade

Com quase 20 anos de existência, a ADEXO lamenta ainda não haver igualdade no acesso ao tratamento da obesidade em Portugal. «Na parte da cirurgia, temos vários hospitais a funcionar e que, antes da pandemia, realizavam 2300, 2600 cirurgias por ano. Mas a cirurgia está indicada para pessoas com um índice de massa corporal (IMC) superior a 40 ou a 35 se houver outras doenças associadas. Abaixo desse IMC não há nada. Ou melhor, existe tratamento farmacológico, mas não é comparticipado», conta Carlos Oliveira. Existem neste momento três medicamentos aprovados para o tratamento da obesidade em Portugal. «São medicamentos extraordinariamente caros, entre os 120-130 e os 250 euros. Acresce o facto de que a grande maioria das pessoas que tem obesidade está na camada menos favorecida financeiramente da população. É absolutamente necessário que haja uma comparticipação dos medicamentos, para que estas pessoas possam aceder ao tratamento e evitar chegar aos níveis mais graves de obesidade», conclui o presidente da ADEXO que em conjunto com a Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade (SPEO) lançou o documento Recalibrar a Balança – Por uma resposta holística e equitativa contra a obesidade.

A quem pedir ajuda

15 anos após a colocação da banda gástrica, Carlos Oliveira teve um contratempo. «A banda não deixa de ser uma prótese e, sendo o estômago um órgão que tem movimento, a banda pode deslocar-se e criar problemas. No meu caso isso aconteceu e afetou o esófago. Acabei por tirar a banda e fazer um bypass. O apetite é controlado pela própria cirurgia, que diminui o tamanho do estômago», contou-nos. A quem enfrenta um problema de excesso de peso ou obesidade, o presidente da ADEXO aconselha: «Deve pedir ajuda ao seu médico de família. Especialmente, se já está acima do índice de massa corporal 30. Pode também aceder à Associação de Doentes Obesos e Ex-obesos de Portugal (ADEXO), à Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade (SPEO) ou à Sociedade Portuguesa de Cirurgia da Obesidade e Doenças Metabólicas (SPCO) e pedir informação. Enviamos de imediato.»


Será que sofre de obesidade?

A obesidade em adultos é avaliada em função do índice de massa corporal (IMC). Este índice calcula-se dividindo o peso pela altura (em metros) ao quadrado. O resultado pode indicar:

  • Excesso de peso: IMC 25 a 29
  • Obesidade: IMC 30 a 34
  • Obesidade grave: IMC 35 a 39
  • Obesidade muito grave (mórbida): IMC superior a 40

Fonte: Adaptado a partir do documento Recalibrar a Balança – Por uma resposta holística e equitativa contra a obesidade, elaborado de forma conjunta entre a Associação de Doentes Obesos e Ex-Obesos de Portugal (ADEXO) e a Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade (SPEO)

Última revisão: Março 2021

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