Os medicamentos não sujeitos a receita médica podem ser aliados do seu bem-estar. Mas tem de saber usá-los.

  • PorRita MiguelJornalista

  • Colaboração e revisão científicaDr. António Hipólito De AguiarFarmacêutico

Sempre que tomamos um comprimido para aliviar a dor de cabeça ou baixar a febre estamos a automedicar-nos. A Organização Mundial de Saúde define a prática como a seleção e uso de medicamentos (incluindo produtos tradicionais e de ervanárias) pelos indivíduos para tratar doenças e sintomas reconhecidos pela própria pessoa. Em Portugal, o Infarmed restringe-a à utilização de medicamentos não sujeitos a receita médica de forma responsável, sempre que se destine ao alívio e tratamento de queixas de saúde passageiras e sem gravidade, com a assistência ou aconselhamento opcional de um profissional de saúde.

Os anti-inflamatórios contêm substâncias que provocam lesões da mucosa gástrica, estando associados a problemas de estômago. Não abuse

A automedicação é, assim, aceite como parte do sistema de saúde e não é por acaso: vai ao encontro do desejo crescente de que as pessoas se responsabilizem pela sua saúde e, se praticada corretamente, contribui para o alívio financeiro dos sistemas de saúde pública, reconhece a Associação da Indústria Europeia de Automedicação (AESGP). No entanto, envolve riscos, pelo que há cuidados a adotar.

O que pode tomar?

Em Portugal, os medicamentos dividem-se em sujeitos a receita médica (MSRM) e não sujeitos a receita médica (MNSRM). Esta classificação permite, segundo a APIFARMA – Associação Portuguesa da Indústria Farmacêutica, saber quais os medicamentos que exigem prescrição e utilização sob supervisão médica e os que estão disponíveis sem necessidade de receita médica, podendo ser usados para automedicação – são os chamados medicamentos de não prescrição ou de escolha ou venda livre. Daqui se depreende que nenhum MSRM deverá ser utilizado para automedicação, pelo que tomar um medicamento prescrito a outra pessoa, ou ainda que lhe tenha sido prescrito a si num outro episódio de doença, é o primeiro erro a evitar, salvo indicação médica em contrário.


Um dos casos mais comuns é o dos antibióticos: são produtos extraídos das bactérias que agridem o organismo, pelo que tomá-los indevidamente pode fazer com que aquelas se tornem resistentes, deixando o medicamento de ter efeito terapêutico, o que acarreta riscos para a saúde individual e pública. Assim, jamais deveriam ser tomados em regime de automedicação.

Em que casos usar?

As situações passíveis de automedicação estão previstas em Diário da República. A lista especifica vários problemas digestivos, respiratórios, cutâneos, nervosos, musculares/ósseos, oculares, ginecológicos, vasculares e gerais. Como sintetiza a Associação da Indústria Europeia de Automedicação, incluem-se, entre outros:

  • Constipações e gripes;
  • Tosse e dores de garganta;
  • Infecções recorrentes das narinas;
  • Úlceras da boca;
  • Digestão incompleta ou difícil;
  • Vómitos, diarreia, obstipação esporádica (prisão de ventre), hemorróidas;
  • Dores ligeiras a moderadas;
  • Queimaduras solares;
  • Feridas, picadas de insetos, eczema e outros problemas ligeiros a moderados da pele.

Em situações passíveis de automedicação diagnosticadas pelo médico, ele deverá informá-lo sobre os medicamentos de venda livre recomendados.

Cuidados essenciais em caso de automedicação

«Na ausência de consulta prévia com um médico, o consumidor deve tomar consciência de que o seu ato é sempre suscetível de gerar riscos», sublinha o Infarmed, e de que «assume plenamente a responsabilidade pelo seu tratamento», refere a AESGP. Para minimizar os riscos, além de usar apenas medicação de venda livre respeitando as situações clínicas bem definidas a que se aplicam, é essencial que:

  • Siga as instruções do rótulo e folheto, bem como as dadas pelo médico ou farmacêutico, nomeadamente a dose e tempo de toma (em geral, não deve ir além de cinco a sete dias).
  • Consulte o médico ou o farmacêutico caso, no decurso da utilização, surja uma situação que torne a automedicação desaconselhável.
  • Opte por um medicamento que trate apenas os sintomas que apresenta (se tem pingo no nariz, não escolha um que trate também dores de cabeça).
  • Registe as reações alérgicas e evite produtos com os mesmos ingredientes.
  • Não tome suplementos vitamínicos em paralelo, sem supervisão de um profissional de saúde.
  • Não combine medicamentos sujeitos a receita médica com fármacos não sujeitos a receita médica, sem consentimento médico.
  • Faça uma lista do que está a tomar e informe a sua família do local onde se encontra.
  • Guarde os medicamentos num local seco, a uma temperatura amena e onde as crianças não tenham acesso.

Fonte: adaptado de informações de Infarmed, Associação da Indústria Europeia de Automedicação e dados fornecidos por António Hipólito de Aguiar, farmacêutico, à Revista Prevenir.


Potenciais riscos

Alguns medicamentos de venda livre «têm doses de utilização convencional que, se ultrapassadas, são tóxicas», explica António Hipólito de Aguiar, farmacêutico, à Revista Prevenir. Respeite a dosagem.

  • Analgésicos Nos que contêm paracetamol, o desrespeito pela dose indicada (500 mg ou 1g) é arriscado: estão descritas mortes por hepatite fulminante com 4 g.
  • Antigripais São uma mistura de analgésicos, antipiréticos e antialérgicos, o que os torna imprevisíveis. Dores de estômago, náuseas e irritação cutânea são sinais de alarme.
  • Laxantes Em excesso, tornam o intestino dependente e desequilibram a absorção dos alimentos.
  • Antiácidos Representam risco para hipertensos, já que contêm sais que fazem aumentar a tensão arterial.
Última revisão: setembro 2013

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