Rita Redshoes: «A música é minha aliada na luta contra a depressão»

Rita Redshoes, cantora e compositora

Rita Redshoes lida com a ansiedade e a depressão desde a infância. «Sei que nunca serei otimista por natureza, mas aprendi a defender-me de situações que me deixam mais fragilizada e hoje consigo usufruir mais e melhor da vida», conta.

  • EdiçãoCarlos Eugénio AugustoJornalista
  • FotografiaArtur

  • Testemunho deRita RedshoesCantora e compositora

Assombrada pelos fantasmas da depressão desde a infância, Rita Redshoes explica como a escrita de canções e o apoio terapêutico a ajudaram a expressar e entender as suas emoções, e como esse processo de autoconhecimento permitiu (re)conhecer as próprias fragilidades.

O testemunho de Rita Redshoes, cantora e compositora

Rita Redshoes, cantora e compositora

«Na infância, era muito tímida e tinha episódios de fobia social. Isso prejudicou o percurso escolar, ainda que me sentisse mais tranquila quando criava amizades, pois a minha fragilidade emocional precipitava uma reação somática, e era vulgar sentir ansiedade acompanhada de falta de ar ou febre.»

A primeira ida ao psicólogo

«Como não conseguia verbalizar o que sentia, ficava refém de um medo que me fazia sentir mal. Viviam-se os anos 80, fase em que a saúde mental ou a depressão eram tabus, mas os meus pais, preocupados, levaram-me ao psicólogo quando tinha 11 anos para perceber se as fobias estariam relacionadas com a escola. A sugestão foi que mudasse de estabelecimento, obrigando-me a ir às aulas. Já para a minha médica pediatra, pouco consciente face à somatização de sintomas e os meus medos, a solução para a febre era um antibiótico.»

A importância da amizade

«A minha adolescência também foi complicada, pois sentia um vazio e era abalada por picos de ansiedade, continuando sem compreender essa cadeia complexa. No entanto, o facto de ter conseguido fazer amigas verdadeiras, que moravam no meu bairro, ajudou-me pessoal e socialmente. Sentia-me mais protegida e integrada, e as fobias diminuíram. Ainda assim, era frequente ficar triste, calada, ausente e pessimista, mas, como já me conheciam bem, as minhas amigas percebiam o meu estado e ajudavam-me a sair dele».

«A psicoterapia deu-me ferramentas que me ajudavam a libertar das amarras da tristeza e ansiedade e, muito importante, a identificar quando uma crise estaria no horizonte», conta Rita Redshoes

A música como porto de abrigo

«Tão importante como a amizade, em termos de autoestima e integração, foi ter descoberto a paixão pela música e, principalmente, tocar e escrever sobre o que sentia. Era, e continua a ser, um canal que me fazia sentir realizada e emocionalmente equilibrada pois, através dessa arte, conseguia exprimir as minhas emoções. Ainda hoje, a música é um porto de abrigo e terapia para enfrentar a depressão. Foi também por isso que entrei na Escola Superior de Música. Infelizmente, não me adaptei a um curso centrado no universo mais clássico e acabaria por desistir. Senti essa desistência como um fracasso e fiquei perdida.»

A ajuda da psicoterapia

«Os meus pais foram muito compressivos face a essa minha escolha, ficando o resto do ano letivo a pensar no que viria a seguir. Felizmente, aproveitei o tempo livre para escrever e compor quase todas as músicas do meu primeiro disco e iniciei, pela primeira vez, um tratamento psicoterapêutico que me ajudou muitíssimo, seja em termos de autoconhecimento ou resolução de dúvidas emocionais. Gostei tanto desse processo que, aos 20 anos, fui estudar Psicologia Clínica. Apesar da tranquilidade que o tratamento conferia, continuava assombrada por momentos de solidão. Cheguei a ter medo da vida e isso provocava uma inércia que não entendia, que me roubava a típica energia de quem está a iniciar a vida adulta. Felizmente, a psicoterapia deu-me ferramentas que me ajudavam a libertar das amarras da tristeza e ansiedade e, muito importante, a identificar quando uma crise estaria no horizonte. Isto porque a depressão é sempre um processo, pois existem gatilhos, por vezes não percetíveis e que podem ser diferentes, que nos empurram para momentos maus.»

Rita Redshoes, cantora e compositora

«Sei que nunca serei otimista por natureza, mas aprendi a defender-me de situações que me deixam mais fragilizada e hoje consigo usufruir mais e melhor da vida», conta Rita Redshoes

O papel da medicação

«Muitas vezes, fala-se de depressão ignorando a questão biológica associada e isso torna mais difícil uma predisposição para tomar medicação, algo que aconteceu comigo, pois achava que era nova para tal. Mas a verdade é que, depois de anos de psicoterapia e psicanálise – cheguei a receber um falso diagnóstico de bipolaridade –, ainda que ajude muitos a vencer o problema, percebi que apenas isso não conseguia libertar-me do tal vazio, o que só aconteceu ao aceitar ir mais longe no tratamento. Aos 30 anos, comecei a ser medicada e passei a sentir-me mais estável.»

Rita Redshoes: como eu venci a timidez

«Nessa altura, já era música profissional, e essa paixão deu-me outra preciosa ajuda para a vencer a timidez, até porque um dos maiores privilégios e desafios de um artista é subir ao palco. Confesso que ainda hoje tenho dias em que o medo de enfrentar o público é terrível, mas ter essa possibilidade serve para me confrontar e enfrentar medos. Saber que consigo fazê-lo e retirar prazer disso completa-me e deixa-me feliz. A música salvou-me e é minha aliada na luta contra a depressão, e a ida para o placo é uma “vingança” pelos anos sublinhados pelas fobias que sabotavam a minha vida. Trata-se de me superar e libertar, e o palco é forma de tomar consciência do meu caminho.»

«Sejamos honestos, nem todos os dias são felizes, mas o essencial é ter ferramentas psicológicas que evitem que nos sintamos toldados de emoções que fazem parte de nós e da vida»

Depressão pós-parto

«A vida foi correndo, com alguns normais altos e baixos e, aos 37 anos, decido ser mãe, um dos meus sonhos. A gravidez foi pacífica e harmoniosa, e não interrompi a medicação, pois em nada prejudicava o bebé. Até que, 15 dias após o nascimento da Rosa, senti os níveis de ansiedade disparar, tendo os ataques de pânico regressado, agora com a sensação horrível de ter medo de falhar como mãe. Felizmente, a conselho de amigas também mães, encontrei ajuda especializada e rapidamente reencontrei a paz. Nesse período, voltei a recorrer à música para me reequilibrar e escrevi algumas canções “à flor da pele”, que são como uma “carta aberta” aos meus fantasmas.»

Défice bioquímico

«Descobri, no pós-parto, que o meu organismo não produz em quantidade suficiente a molécula serotonina, o que interfere diretamente no humor. Fiz exames e constatou-se que o meu nível de serotonina era sete, sendo o mínimo “exigido” 40. Para vencer esse défice químico, tomo medicação e hoje sinto-me bem, quando é caso para isso, pois, sejamos honestos, nem todos os dias são felizes, mas o essencial é ter ferramentas psicológicas que evitem que nos sintamos toldados de emoções que fazem parte de nós e da vida».

«O primeiro passo para vencer a depressão é estar disponível para ser ajudado, reconhecer que algo não está bem e partilhar esses sentimentos. Assumi-lo não é vergonha, mas um ato de inteligência», afirma Rita Redshoes

Aceitar quem somos

«Estar medicada e ter acompanhamento regular é sinónimo de estabilidade emocional e, com a exceção do pós-parto, não mais tive episódios graves e debilitantes. No entanto, e conheço-me bem, sei que nunca serei otimista por natureza, mas aprendi a defender-me de situações que me deixam mais fragilizada e hoje consigo usufruir mais e melhor da vida. O “truque” é aceitar de forma positiva quem somos. Isso tornou-me melhor pessoa e mais empática com o sofrimento alheio, conseguindo criar laços mais fortes.»

A psicoterapia como autoconhecimento

«A minha experiência com a depressão, e face ao bom resultado dos tratamentos, faz com que aconselhe todos a experimentar a psicoterapia, independentemente de nos sentirmos bem ou não, pois é uma forma de autoconhecimento decisiva para enfrentar problemas. Aos pais, recomendo estarem muito atentos a diferenças de comportamentos das crianças e, quando necessário, procurar apoio especializado. O primeiro passo para vencer a depressão é estar disponível para ser ajudado, reconhecendo que algo não está bem e partilhar esses sentimentos. Não há outra forma de ultrapassar esta doença sinónimo de uma dor que não se vê e assumi-lo não é vergonha, mas um ato de inteligência.»

Rita Redshoes e os livros infantis

Rita e a Aventura Feliz Rita Redshoes Betweien Edições

 

Rita e a Aventura Feliz
Rita Redshoes
Betweien Edições

«O desafio para escrever um livro sobre emoções e hábitos de vida saudável surgiu a convite da Betweien, que tem um projeto pedagógico para sensibilizar as crianças para a saúde física e emocional. A aventura começou, em 2017, com o livro Rita e a Floresta dos Legumes, que agora tem seguimento com este livro que aborda o lado emocional, para que as crianças entendam a saúde na sua plenitude, percebendo que, por vezes, estamos tristes, felizes ou zangados, e isso é tudo normal.»

Última revisão: Junho 2022

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