Isabel do Carmo: «A COVID-19 fez-me perceber que não sou a supermulher»

Isabel do Carmo: «A COVID-19 fez-me perceber que não sou a supermulher»

A médica no papel de paciente. Isabel do Carmo, especialista em Endocrinologia, Diabetes e Nutrição e professora na Faculdade de Medicina de Lisboa, conta como ultrapassou uma pneumonia provocada pela COVID-19.

  • EdiçãoCarlos Eugénio AugustoJornalista
  • FotografiaArtur

  • Testemunho deIsabel do CarmoMédica especialista em Endocrinologia, Diabetes e Nutrição, e professora na Faculdade de Medicina de Lisboa

Aos 80 anos, Isabel do Carmo, médica endocrinologista, foi infetada pelo novo coronavírus, ficando com os pulmões muito afetados. Perante esse quadro de inesperada fragilidade, esteve dez dias internada a combater uma pneumonia, mas, como refere, graças ao extraordinário trabalho dos colegas, venceu a doença.

O testemunho de Isabel do Carmo, médica endocrinologista

«Sempre segui as regras de higiene recomendadas pela Direção-Geral da Saúde, no trabalho ou na esfera privada, e foi nesse registo que estive de serviço até 23 de dezembro de 2020, antes de gozar uns dias de férias. Foi durante essa pausa que, no Natal, como habitualmente, juntei a família para um jantar. Ao todo éramos seis adultos e três crianças. Perto da passagem de ano, alguns começaram com sintomas que indiciavam que algo não estaria bem. Eu continuava sem qualquer sinal, mas, como estava de férias, fiquei em quarentena.»

Isabel do Carmo: «A COVID-19 fez-me perceber que não sou a supermulher»

«No Natal, como habitualmente, juntei a família para um jantar. Ao todo éramos seis adultos e três crianças. Perto da passagem de ano, alguns começaram com sintomas que indiciavam que algo não estaria bem», conta Isabel do Carmo

Testes positivos

«Nos primeiros dias de janeiro, o cenário complicou-se com o meu filho a relatar febre e dores no corpo. Aconselhados por uma colega médica, todos fizemos testes, que, sem exceção, deram positivo à COVID-19. Ainda assim, estávamos relativamente bem. A exceção era o meu ex-marido, que também esteve nesse jantar, e seria internado de urgência no Hospital de Santa Maria. Foi a última vez que o vi com vida, pois acabaria por morrer no final de janeiro. Dias depois, seria a minha vez de apresentar sintomas. Tinha febre e diarreia, e, por precaução, comprei um oxímetro para avaliar a saturação de oxigénio, confirmando que estaria ligeiramente abaixo do expectável.»

Exposição à fragilidade

«Como os sintomas se mantinham, contactei o centro de saúde e fui encaminhada para a urgência do Hospital de Santa Maria. Quando lá cheguei, fiquei, como tantos outros, à espera de ser atendida durante muito tempo, de pé, debaixo de um telheiro, e terá sido esse o momento mais desconfortável de toda a experiência. Mas, desde que entrei no Covidário, tudo correu pelo melhor. Depois de estar com oxigénio, fiz um raio-X que revelou os pulmões totalmente infiltrados e com múltiplos focos de inflamação. Apesar de medrosa, aceitei o diagnóstico tranquilamente e fui instalada numa box privada. Sempre pensei ser forte e saudável, mas a COVID-19 fez-me perceber que não sou a supermulher.»

Segundo um estudo divulgado pelo site WebMD, os pulmões são dos órgãos mais prejudicados pela COVID-19. Ao contrário da pneumonia comum, a que surge na sequência desta infeção é ainda mais nociva, sendo o impedimento da normal passagem do oxigénio dos alvéolos para o sangue muito frequente e extremamente perigoso

Internamento e tratamento

«A pneumonia provocada pela infeção obrigou a um internamento. Ainda que nunca tivesse falta de ar, já na enfermaria voltei a receber oxigénio e fortes doses de corticoides. A par disso deram-me heparina, via injeção na barriga, para evitar a formação de coágulos. Outra preocupação era saber a razão da febre e, mesmo sem conclusão, tomei antibiótico. Os médicos assistentes, meus colegas, iam-me informando do quadro e durante dias mantive o que chamamos “fervores”, por culpa do tecido pulmonar apresentar “líquido”, o que adiou a alta. Dias depois fiz uma TAC, que confirmou que a COVID-19 estava a ser vencida, e fui para casa com a recomendação de tomar outro antibiótico durante uma semana.»

Um obrigado ao SNS

«Graças à dedicação de todos profissionais de saúde que me acompanharam, superei o problema. Tanto no Covidário, como na enfermaria, tudo correu bem e, mesmo numa altura de grande ansiedade e muitos doentes para atender, a organização era exemplar. Fiquei especialmente feliz por encontrar uma “máquina” tão “oleada” e humana, o que comprova a qualidade do nosso Serviço Nacional de Saúde e que está repleto de pessoas resilientes e adaptadas às circunstâncias. Isso é ainda mais extraordinário pois, e sendo médica há décadas sei-o tão bem, há momentos de tensão no hospital em que tudo pode correr mal e só a solidariedade e competência de quem dá a vida pela saúde dos outros consegue ultrapassá-lo.»

«Por tudo o que vivi e aprendi com esta doença, aconselho a todos que se protejam e sejam proativos, seja isso contactar a Linha Saúde 24 na suspeita de sintomas ou fazer quarentena voluntária», aconselha Isabel do Carmo

Estar do “outro lado”

«Fiquei dez dias internada e, durante esse período, soube o que é ser paciente, estar no outro lado da luta que é o quotidiano hospitalar. Vivi esses momentos com grande curiosidade, comportando- -me sempre como o mais obediente dos pacientes e respeitando as opções dos médicos, depositando total confiança. Era essa curiosidade que fazia com que espreitasse os seus procedimentos, avaliasse os meus dados e quisesse saber dos outros doentes que estavam na enfermaria. O facto de ser médica podia funcionar como uma questão de duplo sentido: ter noção do risco real da doença ou ajudar-me a enfrentá-la. Felizmente, “segui” o segundo caminho.»

SOS telemóvel

«Uma das questões mais complicadas do internamento foi lidar com a distância das pessoas que amo, pois as visitas são proibidas. Mas, graças às novas tecnologias, e em especial ao telemóvel, conseguia ver, falar e saber da família, sendo por essa via que também falava com o meu ex-companheiro, que lutou pela vida numa sala ao lado da minha, e, infelizmente, não resistiu. E foi também ao telemóvel que consegui ajudar uma doente minha a ultrapassar um problema, comunicava com colegas de serviço e lia as notícias. Mas o auge do dia era, antes de jantar, a videochamada com toda a família, tendo o prazer especial de falar com os meus netos.»

Isabel do Carmo: «A COVID-19 fez-me perceber que não sou a supermulher»

«O nosso pensamento continua muito homocêntrico, pensamos ser especiais e imbatíveis, esquecendo que somos apenas pequenas partículas no universo», refere Isabel do Carmo

Aprender com o vírus

«A COVID-19 mudou a maneira de ver o mundo, a vida, abalando certezas e sublinhando fragilidades. O nosso pensamento continua muito homocêntrico, pensamos ser especiais e imbatíveis, esquecendo que somos apenas pequenas partículas no universo. Este vírus obrigou-nos, muitas vezes da forma mais trágica, a recolocarmo-nos perante a vida. Por tudo o que vivi e aprendi com esta doença, aconselho a todos que se protejam e sejam proativos, seja isso contactar a linha SNS 24 na suspeita de sintomas ou fazer quarentena voluntária. Ah, e ir ao hospital só numa situação grave. Este é o circuito normal e responsável, e o que vemos, felizmente, é que a esmagadora maioria dos infetados vence a doença graças a profissionais altamente qualificados. Depositar confiança nessas pessoas, mantendo a calma, é uma forma de agradecer o seu extraordinário trabalho.»


Negacionistas: a mensagem de Isabel do Carmo

«Mesmo perante as provas dadas pela ciência, muitos ainda negam essa evidência, algo que me surpreende, em particular quando essa ideia surge de pessoas letradas», lamenta Isabel do Carmo. «Este vírus é real, mata em todo o mundo, e dizer o contrário na Internet ou no espaço público, fazendo circular mentiras e contrariando o uso da máscara ou a vacinação, é prova de egoísmo e irresponsabilidade. Desde o iluminismo que a ciência tem, com sucesso amplamente reconhecido, um método que se baseia na colocação de hipóteses, experimentação e verificação, e o que assistimos hoje é que alguns preferem regressar ao obscurantismo típico da Idade Média.»

Última revisão: Julho 2021

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