António Raminhos: «A luta contra a POC tornou-me mais consciente do que sinto»

António Raminhos: «A luta contra a POC tornou-me mais consciente do que sinto»

Depois de uma adolescência num quase permanente estado de ansiedade, António Raminhos, humorista, procurou ajuda e descobriu que sofria de perturbação obsessivo-compulsiva (POC). O que se seguiu foi uma viagem de autoconhecimento.

  • EdiçãoCarlos Eugénio Augusto
  • Fotografia Mário Santos

  • Testemunho deAntónio RaminhosHumorista

A Revista Prevenir falou com o humorista António Raminhos que nos contou como aprendeu a lidar com a ansiedade e os desafios de sofrer de perturbação obsessivo-compulsiva (POC).

António Raminhos: a minha história

António Raminhos: «A luta contra a POC tornou-me mais consciente do que sinto»

«Sempre vivi com algumas manias e medos. No entanto, nunca achei que isso fosse problemático, assumindo-o como coisas minhas. Mas algo que me aconteceu por volta dos 18 anos e saiu do registo “normal”, fez-me perceber que alguma coisa se passava, pois, a ideia de ficar doente ou eventualmente contaminado estava a condicionar a minha vida. Esse episódio estava relacionado com um corte numa orelha feito pelo barbeiro, e isso transformou os habituais “e se”, que funcionam como uma porta mágica para qualquer possibilidade, em algo devastador, pois coloquei a hipótese de ter ficado infetado com uma doença que nos aterrorizava na década de 1980: a sida. Tinha noção de que aqueles pensamentos não teriam sentido nem eram racionais, ainda que não conseguisse evitá-los, mas a partir desse momento estavam a interferir na minha vida pois tornaram-se recorrentes.»

Ansiedade permanente

«Além do desgaste mental que isso significava, percebi que os momentos de alívio que a realidade me proporcionava em relação a essas preocupações eram passageiros. Por exemplo, na suspeita de ter sida, arranjei pretexto para fazer análises e respirei de alívio, mas o desconforto mantinha-se. Os pensamentos tornavam-se outras obsessões e medos, e ficava num constante sobressalto. Cheguei mesmo a sentir pânico de andar de transportes por pensar que estavam contaminados ou limpava até à exaustão os talheres. Não tendo noção de que se tratava de um problema passei a evitar algumas situações ou sair de casa.»

«Não sou o único a passar por momentos de medo, angústia e ansiedade, e ter essa consciência impede-me de estar “à deriva”. Afinal, o mundo não está contra mim» António Raminhos

Estranho e só

«Apesar disso, não sentia grande necessidade de falar sobre o que sentia, até porque quando o fazia a resposta era: “Deixa-te de coisas!”. A exceção era a minha irmã, que dizia que poderia ter um problema. Alguns dos meus familiares desvalorizavam o que sentia, comparando-me a uma tia que tinha “manias” semelhantes. Hoje, não tenho dúvidas: essa tia tinha comportamentos obsessivo-compulsivos. Nessa altura já namorava com a minha mulher e falámos sobre o assunto, mas a sua bem-intencionada ajuda não me apaziguava. Sem uma resposta para o meu problema, sentia-me estranho e só, pois acreditava que apenas eu me sentia daquela forma.»

Procurar ajuda

«As respostas começaram a surgir quando consultei o psicólogo da minha faculdade, pois, apesar de não o demonstrar, a minha cabeça era um turbilhão, ainda que fosse especialista em disfarçá-lo. Apesar de não ter recebido um diagnóstico, a ajuda do psicólogo ajudou-me a perceber e a normalizar o meu comportamento, através de esquemas escritos numa folha que “explicavam” como os meus pensamentos surgiam, o que fazia para os contrariar e conseguir um alívio temporário, e como evoluíam noutro caminho. Aquela abordagem fazia sentido, pois estudava os esquemas, procurava soluções e sentia que o meu comportamento não era assim tão anormal. Paralelamente, pus em prática técnicas de exposição ligeiras para enfrentar os medos.»

António Raminhos: «A luta contra a POC tornou-me mais consciente do que sinto»

«Estava decidido a “dizer tudo como os malucos”, sem medo de partilhar a vida com o psicólogo», conta António Raminhos

Bater no fundo

«Erradamente, assumi que as melhorias significavam que estaria “curado” e deixei de consultar esse psicólogo. Só mais tarde, quando tinha 26 anos, e na ressaca de outra crise terrível, é que voltaria com regularidade a um consultório, pois estava na hora de saber o que se passava realmente comigo. Essa decisão surgiu na sequência de uma tradição familiar natalícia em que era hábito comermos borrego. Só que nesse ano, decidi, pela primeira vez, comer mioleira e esse ato fez-me pensar que poderia apanhar uma doença semelhante à das “vacas loucas”, versão borrego. A preocupação e os pensamentos eram tão intensos e o descontrolo tão grande e incapacitante que bati no fundo.»

António Raminhos: «Afinal, tenho POC»

«Só restava uma opção: voltar à tona. Foi nessa altura que conheci o Dr. Cláudio Pina Fernandes que até hoje me acompanha e aconselha. Cheguei à sua consulta com a mente totalmente aberta e uma jura de honestidade. Estava decidido a “dizer tudo como os malucos”, sem medo de partilhar a vida com o psicólogo. Interiorizei esse processo de cura com muita “fé”, e, depois de duas ou três consultas e alguns testes, chegaria a confirmação de um diagnóstico de POC. Paralelamente, procurei, por indicação do Dr. Cláudio, um médico psiquiatra para fazer medicação que até hoje sigo.»

«Apesar de sentir um maior controlo das situações ainda sou muitas vezes “apanhado na curva”, mas isso é natural e faz parte da evolução», conta António Raminhos

Entre altos e baixos

«Entendo a luta contra a POC com o compromisso de aceitar e acreditar nas indicações dos especialistas, para superar os meus medos, obsessões e compulsões, que procurei interiorizar ao longo destes anos. Com isso aprendi que a ansiedade tem um limite e que é possível aprender a contrariá-la e, mais importante, compreendê-la. E, apesar de sentir um maior controlo das situações ainda sou muitas vezes “apanhado na curva”, mas isso é natural e faz parte da evolução. As pessoas que estão comigo, em especial a minha família, sabem o que se passa, e agora sinto mais abertura para explicar que estou a passar por uma crise e, mesmo não gerindo bem o processo, essa confissão deixa-me mais tranquilo.»

O caminho do autoconhecimento

«Hoje, tenho a capacidade de sentir que os processos de ansiedade, apesar de sinónimo de pânico, são também oportunidades de autoconhecimento. Além disso, acredito que a luta contra a POC me tornou mais consciente do que sinto, das minhas falhas, na medida que assumo que o problema é meu, tento entendê-lo e desligar-me do que o provoca. Uma das coisas que mais “conforto” me trouxe quando procurei a ajuda de especialistas é que deixei de me sentir sozinho. A dor não deixa de ser nossa, mas partilhá-la, de forma consciente e paciente, é meio caminho para a “cura”. E, mesmo quando as coisas não correm como planeamos e temos recaídas, desistir não é a solução. Sim, tenho (muitas) manias, mas não sou o único a passar por momentos de medo, angústia e ansiedade, e ter essa consciência impede-me de estar “à deriva”. Afinal, o mundo não está contra mim.»


António Raminhos: somos todos malucos

Podcast da autoria de António Raminhos, nasceu no Instagram a partir de conversas descontraídas, descomplicadas e divertidas em torno da saúde mental, medos, ansiedades, dúvidas e superações. Para ouvir e saber mais, siga #somostodosmalucos e a página de Instagram de António Raminhos.


Formas de autoterapia por António Raminhos

«Sou um homem da ciência, mas também da espiritualidade, e acredito que a junção dessas áreas me ajuda a crescer e a encontrar estabilidade emocional», sublinha António Raminhos. «Por isso, já fiz reiki, faço mindfulness e meditação, e essas práticas levam-me a saber mais sobre mim, algo essencial para quem lida com POC, mas também a estar no momento presente, sendo importantíssimo para enfrentar as crises, compreender o que estou a sentir e reconectar-me com o essencial, evitando a ansiedade».

  • O poder das palavras: «A escrita é também um excelente exercício para compreender os pensamentos, em especial relendo o que se sentia e percebendo que, afinal, já não me relaciono com a dor representada naquelas palavras, naquela aflição. Tudo isso funciona como uma autoterapia», confessa António Raminhos à Revista Prevenir.

capa livro Somos Todos Estranhos, de António Raminhos

Somos Todos Estranhos
António Raminhos
Contraponto Editores
€16,60

Última revisão: Fevereiro 2022

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