Posso tomar só uma das doses da vacina contra a COVID-19?

Posso tomar só uma das doses da vacina contra a COVID-19?

«Se o benefício e o risco das vacinas foram definidos em estudos utilizando duas inoculações, o uso prático deve respeitar esta modalidade de administração», como explica António Vaz Carneiro, neste artigo.

  • PorProfessor Doutor António Vaz CarneiroMédico especialista em Medicina Interna, Nefrologia e Farmacologia Clínica, Professor Catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, diretor do Centro de Estudos de Medicina Baseada na Evidência (CEMBE), presidente do Conselho Científico do Instituto de Saúde Baseada na Evidência das Faculdades de Medicina e Farmácia da Universidade de Lisboa e diretor da Cochrane Portugal

Em princípio, as vacinas devem ser administradas de maneira idêntica à dos ensaios clínicos que serviram para a sua introdução no mercado (JAMA 2021;325:898). Por outras palavras, se o benefício e o risco das vacinas foram definidos em estudos utilizando duas inoculações, o uso prático deve respeitar esta modalidade de administração. Isto deve-se à necessidade de conseguir uma imunidade adequada, já que a conseguida com uma única inoculação é menor do que com duas (de facto, não sabemos bem a eficácia de apenas uma dose única de vacina). Por outro lado, há vacinas que requerem apenas uma dose única (pelo que estas considerações não se aplicam). O intervalo de administração varia de vacina para vacina. Por exemplo, a vacina da Pfizer deve ser dada três semanas após a primeira inoculação, enquanto a da Moderna deve ser administrada às quatro semanas. Em qualquer caso, o intervalo entre inoculações não deve ser superior a seis semanas.

«Se o benefício e o risco das vacinas foram definidos em estudos utilizando duas inoculações, o uso prático deve respeitar esta modalidade de administração. Isto deve-se à necessidade de conseguir uma imunidade adequada, já que a conseguida com uma única inoculação é menor do que com duas»

Há problema em tomar duas doses diferentes?

Finalmente existe evidência científica de boa qualidade que sugere que a mistura de doses da vacina da Oxford AstraZeneca com a da Pfizer, por exemplo, induz mais frequentemente reações adversas leves a moderadas (febre baixa, artralgias, dores de cabeça, dores articulares e musculares) do que a administração de duas doses da mesma vacina (BMJ 2021;373:n1216).

«É possível que haja uma variante que reduza a eficácia da vacina, mas as empresas farmacêuticas estão a criar vacinas que deverão funcionar contra novas estirpes de SARS-CoV-2»

E as variantes?

As vacinas atualmente disponíveis são eficazes em diversos graus contra as variantes mais importantes – nomeadamente a B.1.1.7 (Reino Unido), a B.1.351 (África do Sul), a P.1 (Brasil) e a B.1.617.2 (Delta) – variando esta eficácia entre 75 e 90 por cento (DOI: 10.1056/ NEJMsr2105280). A explicação para este facto é que as vacinas são sintetizadas para criar diferentes tipos de anticorpos para diferentes componentes do mesmo vírus, de modo que mesmo que uma parte do vírus sofra uma mutação, os anticorpos podem reconhecer outras componentes virais. É possível que haja uma variante que reduza a eficácia da vacina, mas as empresas farmacêuticas estão a criar vacinas que deverão funcionar contra novas estirpes de SARS-CoV-2. Curiosamente, na vida real várias vacinas apresentam uma eficácia muito elevada, mesmo quando as pessoas têm teores de anticorpos neutralizantes baixos. Isto deverá ser devido à imunidade celular (células T) que a vacina e/ou a infeção pelo coronavírus confere.

Última revisão: Agosto 2021

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