Os cigarros de tabaco aquecido são menos prejudiciais à saúde: sim ou não?

Tabaco aquecido: o que é, quais os riscos

O tabaco aquecido é apresentado como sendo menos tóxico do que o cigarro convencional por só ter nicotina e não ter fumo, monóxido de carbono ou alcatrão. Será?

  • ColaboraçãoDra. Cecília PardalMédica pneumologista

O que já se sabe sobre os riscos do tabaco aquecido e o que falta apurar? A Revista Prevenir falou com a médica pneumologista Cecília Pardal e tem as respostas para lhe dar. «O tabaco aquecido é uma das mais recentes formas de fumar e é apresentado como sendo menos tóxico do que o cigarro convencional por não provocar combustão, por só ter nicotina e não ter fumo, monóxido de carbono ou alcatrão. Embora não haja combustão, o tabaco aquecido atinge os 350ºC, temperatura suficientemente elevada para induzir reações químicas e mudanças físicas, formando outras substâncias potencialmente tóxicas. O facto de não ter os outros componentes do cigarro tradicional pode ser uma vantagem, mas infelizmente não existem estudos independentes sobre os riscos associados ao tabaco aquecido. Segundo a Surgeon General, US Department of Health and Human Resources de 2016, não há evidência que demonstre uma redução do risco com o cigarro aquecido a médio e a longo prazo, quer no fumador ativo, quer no passivo, e não nos podemos esquecer que os malefícios do cigarro tradicional só foram descobertos muitos anos após o início do seu uso», indica Cecília Pardal, médica pneumologista.

«Embora não haja combustão, o tabaco aquecido atinge os 350ºC, temperatura suficientemente elevada para induzir reações químicas e mudanças físicas, formando outras substâncias potencialmente tóxicas»

Riscos do tabaco aquecido

«Estes cigarros, só pelo facto de terem nicotina, são prejudiciais: dão dependência tal como os convencionais, pelo que os fumadores terão as mesmas dificuldades em parar de fumar. A via inalatória é sempre perigosa porque os produtos chegam rapidamente ao pulmão e, no caso da nicotina, potencia o seu efeito e a própria adicção, interessando a quem os vende continuar a criar produtos com altos teores de nicotina e fáceis de criar dependência. Como tal, tendo em conta as atuais evidências científicas, não podem ser aconselhados como alternativa aos fumadores que querem deixar de fumar

12 organismos médicos alertam para riscos do tabaco aquecido

«Doze sociedades científicas e organizações de saúde portuguesas uniram-se numa posição conjunta em relação aos produtos de tabaco aquecido por estarem “fortemente preocupadas com o surgimento de novos produtos de tabaco e com as alegações da indústria sobre o risco reduzido destes dispositivos”», lê-se no comunicado.

No documento oficial, as entidades signatárias tornam público que «não recomendam a utilização de Produtos de Tabaco Aquecido (PTA), alertam para os seus riscos e mantêm a firme convicção de que a melhor forma de salvaguardar a saúde humana é a prevenção da iniciação de qualquer forma de consumo e o apoio médico para cessação tabágica». Como explica o documento, estes produtos «são dispositivos eletrónicos com um pequeno cigarro contendo tabaco, que produzem aerossóis com nicotina e outros químicos que são inalados pelo utilizador (em Portugal comercializados com a marca iQOS)». Os organismos alertam que, «do ponto de vista de segurança e do risco para a saúde, atualmente não existe evidência que demonstre que os Produtos de Tabaco Aquecido são menos prejudiciais do que o cigarro convencional. É importante lembrar que não existe um nível de segurança para o uso do cigarro e que mesmo o consumo baixo produz doença significativa. Assim, afirmar que os PTA contêm menos tóxicos não significa que se reduza o risco de doença». Os quatro pontos que se seguem estão na base desta iniciativa contra os Produtos de Tabaco Aquecido.

  • «Contêm nicotina uma substância altamente adictiva que existe no tabaco, causando dependência nos seus utilizadores, para além de estarem presentes outros produtos adicionados que não existem no tabaco e que são frequentemente aromatizados.»
  • Podem influenciar a decisão de deixar de fumar. Segundo os especialistas, «o uso dos Produtos de Tabaco Aquecido permite imitar o comportamento dos fumadores de cigarro convencional, podendo haver o risco de os fumadores alterarem o seu consumo para estes novos produtos em vez de tentarem parar de fumar». O documento refere ainda que «não existe evidência de que os produtos de tabaco aquecido sejam eficientes como ajuda para a cessação tabágica».
  • São «tentação para não fumadores e menores de idade iniciarem os seus hábitos tabágicos. Atualmente, a experimentação e uso de cigarros eletrónicos e outros produtos de tabaco pelos adolescentes e jovens está a sofrer um crescimento exponencial e já se demonstrou que aumenta o risco de iniciação também no cigarro convencional e noutras drogas».
  • Retrocesso e risco de uso duplo. «Finalmente, estes novos produtos impõem o risco de re-normalização do tabagismo e de uso duplo com cigarros convencionais.»

O que diz a indústria do tabaco

«A indústria do tabaco afirma que há uma redução de 90-95% na quantidade de substâncias nocivas e na toxicidade dos Produtos de Tabaco Aquecido. Grande parte destas alegações baseia-se em estudos publicados pela própria indústria, com conflitos de interesse evidentes, havendo muitas evidências de que não se deve confiar neste tipo de estudos», afirma o documento subscrito pelas 12 sociedades médicas e organismos científicos nacionais, que aponta dados de várias investigações científicas:

  1. «Foram encontradas substâncias nocivas em altas concentrações nos seus estudos, como material particulado, alcatrão, acetaldeído, acrilamida e um metabolito da acroleína.»
  2. «Alguns estudos independentes encontraram concentrações mais elevadas de formaldeído em produtos de tabaco aquecido do que em cigarros convencionais. Investigação independente mostrou que a acroleína é reduzida em apenas 18%9, o formaldeído em 26%, o benzaldeído em 50% e o nível de nitrosaminas específicas do tabaco é um quinto do nível encontrado nos cigarros de combustão convencionais.
  3. «Além disso, a substância potencialmente carcinogénica acenafteno é quase três vezes mais alta que nos cigarros convencionais e os níveis de nicotina e alcatrão são quase idênticos aos de um cigarro convencional.»
  4. «O primeiro estudo experimental comparando diretamente os efeitos do fumo de cigarro, vapor de e-cig e aerossol do iQOS mostrou que este último provoca o mesmo tipo de danos nas células pulmonares que o fumo de cigarro, mesmo em baixas concentrações.»

O risco da exposição das crianças

«Existe evidência suficiente sobre emissões e compostos nocivos e potencialmente prejudiciais a partir de produtos de tabaco aquecido que sugerem que a exposição passiva ou em segunda mão a estas partículas é menor, mas mensurável. No caso das crianças esta exposição pode ser ainda mais prejudicial por serem particularmente suscetíveis aos efeitos do fumo passivo, devido a respirarem mais depressa, a uma maior área de superfície do pulmão e relativa imaturidade dos mesmos», alertam os organismos signatários.

As entidades signatárias

Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública (ANMSP)
Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar/Grupo de Estudo de Doenças Respiratórias (GRESP)
Confederação Portuguesa de Prevenção do Tabagismo
Federação das Sociedades Portuguesas de Obstetrícia e Ginecologia (FSPOG)
Sociedade Portuguesa de Angiologia e Cirurgia Vascular (SPACV)
Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC)
Sociedade Portuguesa de Estomatologia e Medicina Dentária (SPEMD)
Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI)
Sociedade Portuguesa de Medicina do Trabalho (SPMT)
Sociedade Portuguesa de Oncologia (SPO)
Sociedade Portuguesa de Pediatria (SPP)
Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP)

Última revisão: Maio 2019

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