Reinventar o sexo na gravidez

Reinventar o sexo na gravidez

No campo da sexualidade, o que muda durante a gestação? E o que sentem, pensam e questionam mulheres e homens? Catarina Lucas, sexóloga, esclarece dúvidas transversais a todos os casais sobre o sexo na gravidez.

  • PorCarla MateusJornalista

 

  • Entrevista a Dra. Catarina LucasPsicóloga, especialista em Terapia de Casal e Sexologia

A gravidez é um período de mudanças físicas e psicológicas que geram uma série de dúvidas e preocupações para as mulheres e para os seus parceiros. Mas, ao contrário do que muitos casais ainda julgam, os nove meses de gravidez não têm de ser sinónimo de (quase) abstinência sexual. Esta fase também pode representar uma oportunidade para o casal descobrir novas formas de prazer e de promover a intimidade, desde que haja uma comunicação clara e sincera entre cada um. Em entrevista à Revista Prevenir, Catarina Lucas, psicóloga, sublinha que «o diálogo aberto é o melhor instrumento para o casal ultrapassar receios».

«Há casais que conseguem levar essas transformações com naturalidade e manter a sua sexualidade. Outros nem tanto»

Qual a influência da gravidez na sexualidade do casal?

A gestação é uma fase cheia de mudanças que podem afetar positivamente ou negativamente a sexualidade do casal. Mas tudo depende dos casais. Há casais que conseguem levar essas transformações com naturalidade e manter a sua sexo na gravidez. Outros nem tanto. Além das alterações corporais da mulher, os aspetos psicológicos e emocionais associados à gravidez, bem como os mitos que ainda persistem nos nossos dias, também têm impacto na sexualidade neste período.

O sexo na gravidez ainda é um tema tabu para os casais?
Falar de sexo de uma forma geral ainda é tabu e na gravidez também. O diálogo aberto é o melhor instrumento para o casal ultrapassar receios e não permitir que mal-entendidos se instalem. Os problemas surgem quando o homem e a mulher não comunicam e não dizem o que sentem, por vezes, com receio de magoar o outro.

«A parceira deixa de ser o objeto sexual e erotizado, passando a ser vista como a mulher-mãe, o que não significa que seja mau, mas cria uma grande dualidade na cabeça do homem, mesmo depois do nascimento do bebé»

Como é que homens e mulheres encaram a sexualidade nesta fase?
Apesar de tudo, a mulher encara a sexualidade com mais naturalidade no que diz respeito às alterações físicas, pois é ela que carrega o bebé ao longo dos nove meses. No entanto, em termos psicológicos, a situação já é diferente. A gestante precisa aprender a gerir as alterações emocionais que vão surgindo, ao mesmo tempo que enfrenta crenças e preconceitos relativamente ao seu novo estado. É comum sentir-se menos feminina, uma vez que ganhou peso e perdeu as suas formas, e ter outra imagem de si mesma. Por outro lado, o modo como o homem olha para a mulher nesta fase também muda. A parceira deixa de ser o objeto sexual e erotizado, passando a ser vista como a mulher-mãe, o que não significa que seja mau, mas cria uma grande dualidade na cabeça do homem, mesmo depois do nascimento do bebé.

«Além de todas as vantagens físicas e hormonais associadas a um maior bem-estar, o sexo na gravidez ajuda a mulher a ter uma melhor autoestima, fazendo com que se sinta bonita, desejada e valorizada»

A prática de sexo na gravidez é segura e benéfica?
Salvo contraindicação médica, de uma forma geral, existe o consenso de que o sexo na gravidez é seguro. Desde que o casal, especialmente a mãe, se sinta confortável, não haverá qualquer problema para o bebé. O sexo na gestação é bastante benéfico, não só para a grávida, como também para o bebé e, claro, para a vida amorosa do casal. Além de todas as vantagens físicas e hormonais associadas a um maior bem-estar, o sexo na gravidez ajuda a mulher a ter uma melhor autoestima, fazendo com que se sinta bonita, desejada e valorizada. Uma melhor vivência da intimidade, através da sexualidade, ajuda igualmente a fortalecer os laços entre a gestante e o seu parceiro. Quanto ao bebé, há sempre o benefício de poder nascer no seio de um casal em harmonia, não sendo exposto durante a gravidez ou no pós-parto a um ambiente stressante ou conflituoso. Quando os pais estão bem há uma maior probabilidade de o bebé crescer de forma mais equilibrada.

«Desde que não haja nenhuma contraindicação, as relações sexuais não magoam o bebé, pois ele encontra-se protegido pelo útero», afirma Catarina Lucas

Que mitos sobre o sexo na gravidez importa desmistificar?
Apesar de toda a informação disponível, ainda há muitos mitos que persistem e que, muitas vezes, impedem que o casal mantenha uma sexualidade ativa e uma intimidade coesa. Eu acho que, de todos, o maior mito continua a ser o pensamento de que o sexo na gravidez pode fazer mal ou magoar o bebé. Desde que não haja nenhuma contraindicação, as relações sexuais não magoam o bebé, pois ele encontra-se protegido pelo útero.

«Na reta final podem existir algumas limitações, na medida em que, por exemplo, não conseguem fazer determinadas posições ou porque a mulher já não se sente sexualmente atraente»

Existem limitações na prática de sexo na gravidez?
Mesmo que não exista uma patologia específica, o último mês de gravidez pode ser desconfortável para a mulher. Na reta final podem existir algumas limitações, na medida em que, por exemplo, não conseguem fazer determinadas posições ou porque a mulher já não se sente sexualmente atraente, mas o relacionamento sexual não está contraindicado. No entanto, existem obviamente gravidezes de risco ou situações em que o sexo não é recomendado ou permitido. Nesses casos, devem aconselhar-se com o médico que acompanha a gravidez.

Quando as relações sexuais estão interditas, quais as alternativas?
É importante que se perceba que a sexualidade não se resume à penetração. Quando o casal não consegue ou não pode concretizar efetivamente uma penetração, tem uma série de alternativas, desde explorar outras zonas do corpo – que, por vezes, se esquece porque está muito focado nessa concretização –, como experimentar novas práticas, sensações e formas de toque. Há um leque de possibilidades na sexualidade sem que haja penetração ou coito. Cabe ao casal conversar e decidir o que é melhor para si, consoante o seu conforto e necessidade.


Intimidade e sexualidade: o que as distingue?
Assumir que a intimidade é sinónimo de sexualidade, como muitas vezes ocorre, é redutor. Há várias situações que podem ser mais íntimas para o casal do que o próprio ato sexual, como por exemplo uma conversa ou o partilhar um jantar. Todavia, embora diferentes, são conceitos que se interligam. A intimidade potencia a sexualidade e, por seu lado, a sexualidade fomenta a intimidade. Quanto mais íntimo um casal for, melhor viverá a sua sexualidade, sendo a recompensa desse envolvimento sexual gratificante um aumento da intimidade e coesão do casal. Por sua vez, a sexualidade não se resume à penetração, havendo muito mais para explorar neste âmbito, o que permite ao casal, sobretudo nesta fase da gravidez, descobrir novas formas de gratificação e prazer.

O orgasmo pode estimular o parto?
O orgasmo é responsável por libertar oxitocina, que faz com que o útero se contraia. Por seu lado, o esperma contém prostaglandinas, que podem induzir a dilatação do colo e provocar contrações leves. Contudo, embora exista esta associação, alguns estudos indicam que estes aspetos não se manifestam de modo suficientemente significativo ao ponto de induzir o parto.

«Esta é uma ótima oportunidade para se tornarem mais criativos, experimentarem coisas novas que sejam confortáveis para ambos», sugere Catarina Lucas

Que cuidados deve ter o casal durante a relação sexual?
É sempre importante ter em atenção a forma como o outro se está a sentir, seja o marido em relação à mulher que está grávida, seja o contrário, pois para o homem esta também não é uma transição fácil. No fundo, é praticarmos a empatia, a capacidade de nos colocar no lugar do outro. Deve-se também ter atenção às posições que possam ser desconfortáveis ou provocar dor. E, depois, o cuidado de comunicar, como já foi falado. A comunicação não deve ser fomentada apenas na gravidez, mas sim desde o início da relação.

O uso de preservativo é recomendado?
Desde que não haja nenhum tipo de contraindicação, como a existência de uma alergia, não vejo porque não usar. Aliás, se o homem for portador de uma doença sexualmente transmissível o uso de preservativo é obrigatório.

Esta é uma fase em que a sexualidade pode ser reinventada?
Eu acho que tem obrigatoriamente de se reinventar, pois toda a fase de gravidez põe o casal fora da sua zona de conforto. E, por isso, o casal tem de arranjar estratégias alternativas e outras formas de obtenção de prazer, que vão para além da relação sexual com penetração. Esta é uma ótima oportunidade para se tornarem mais criativos, experimentarem coisas novas que sejam confortáveis para ambos e, por exemplo, variarem as posições ao longo da gestação.


Sexo na gravidez: a intimidade fortalece a sexualidade

«Um dos maiores problemas dos casais é a perda de intimidade, que posteriormente leva à perda de sexualidade e vice-versa», sublinha Catarina Lucas. A psicóloga sugere quatro estratégias para promover a intimidade:

  • Crie momentos e espaços de intimidade para que o casal possa estar mais disponível para o envolvimento sexual;
  • Mostre preocupação com o parceiro/a;
  • Reserve tempo para “estar genuinamente com o outro”. Um jantar, um fim de semana ou uma ida ao cinema são uma opção para passar tempo com o outro;
  • Seja empática/o, ponha em pratica a capacidade de se colocar no lugar do outro.
Última revisão: Maio 2019

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