Episiotomia: quando é mesmo necessária

Episiotomia: quando é mesmo necessária e quando não é

Excesso de zelo, facilitismo, mutilação da mulher a abolir ou uma intervenção necessária para evitar consequências piores, durante o parto? Contrarie ideias feitas acerca da episiotomia e descubra quando é que o corte na zona do períneo pode ajudar e quando deve ser evitado.

  • PorFátima Lopes CardosoJornalista

  • ColaboraçãoDra. Lisa VicenteMédica ginecologista-obstetra

As estatísticas indicam que quase 73 por cento dos partos por via vaginal realizados em Portugal recorrem ao corte na zona do períneo, apesar de a Organização Mundial da Saúde recomendar a redução de intervenções desnecessárias, onde se inclui a episiotomia, a menos que existam riscos reais de complicações. Lisa Vicente, ginecologista-obstetra, garante que «há um empenho dos profissionais de saúde para diminuir o número de episiotomias, nas maternidades nacionais», mas adverte que continuam a existir situações em que esta intervenção reduz o risco de rasgaduras graves ou extensas do períneo.

«Embora muitas mulheres possam colocar no plano de parto que não querem realizar uma episiotomia, muitas vezes, é impossível corresponder a essa vontade»

Episiotomia: cortar para não rasgar

O recurso à episiotomia no mundo e em concreto também nas maternidades portuguesas foi baseada em estudos que mostravam que a realização de episiotomia seria uma forma de evitar lacerações graves. Como explica Lisa Vicente, «historicamente, começaram-se a fazer episiotomias, um corte linear definido no momento do parto, porque se achava que esse ato poderia prevenir a rutura de grau 3. Foram desenvolvidos alguns estudos para saber qual das episiotomias, média lateral ou mediana, era melhor para prevenir essa situação. O que as pesquisas mais recentes vieram a demonstrar é que a episiotomia não diminui o risco de acontecer uma rutura de grau 3. Muitas vezes, tanto acontece nas mulheres que foram submetidas a episiotomia como nas que não fizeram».

Decisão no momento do parto

Embora muitas mulheres possam colocar no plano de parto que não querem realizar uma episiotomia, a médica obstetra avisa que, muitas vezes, é impossível corresponder a essa vontade: «É um ato decidido no momento porque o parto não é matemático. Durante o nascimento, a cabeça do feto vai-se moldar ou não ao canal de parto. Depende do número de horas do trabalho de parto, da forma da bacia da mulher, da criança, entre outros fatores. Há momentos em que somos obrigados a abreviar o trabalho de parto porque a cardiotocografia (CTG) começa a dar sinais de que o bebé pode não estar bem. Ao longo do seu trajeto, desde o útero até à vulva, que são mais ou menos 12 centímetros de vagina, o feto tem de progredir neste espaço impulsionado pela contrações e pelos esforços expulsivos da mãe. Daí a importância de a mãe colaborar ativamente nesta fase. Se existem sinais em termos de monotorização fetal que indiquem que, realmente, a criança pode não estar bem, pode ser preciso encurtar o tempo até ao nascimento, o que corresponde a um parto com episiotomia ou ajudado com fórceps, ou com ventosa».

É importante gerir expectativas

A especialista considera que é preciso abrir o espírito à possibilidade de o parto não correr como esperado e aconselha a gerir as expectativas. «As pessoas tendem a esperar que o parto só tenha uma forma, que comecem com contrações, que cheguem à maternidade e estejam controladas, mas podem ocorrer várias situações e nem sempre se conseguem antecipar. Pode-se romper a bolsa e não existir trabalho de parto, iniciar as contrações, mas o trabalho de parto ser lento ou, ao contrário, começar com contrações e o nascimento ser precipitado. Pode ter um parto muito antes do tempo previsto (parto pré- -termo) ou um parto induzido por uma gravidez prolongada ou porque surgem complicações que indiquem a necessidade de “fazer nascer”. Ou seja, para o parto existem várias possibilidades», indica. E acrescenta: «As mulheres, quando entram em trabalho de parto, querem, acima de tudo, garantir a sua segurança e a do bebé. Mesmo que peçam para não ter uma episiotomia, se tiverem uma complicação intraparto que exija uma cesariana, a maioria não tem dúvidas sobre qual é a conduta correta.»

Episiotomia: cuidados pós-parto

O processo de cicatrização, depois de uma episiotomia, tende a não ser muito demorado. «O períneo das mulheres foi feito para cicatrizar, ao longo de milhares de anos, sem sequer ser necessário ser suturado. Por vezes, não tinha os melhores resultados, mas é uma área que cicatriza bem», refere. Nessa altura, é necessário um reforço dos cuidados de higiene: «Deve-se lavar e secar bem a zona para não ficar húmida. Depois de evacuar, a mulher deve limpar bem o períneo. Não é preciso ter cuidados extras de uso de desinfetantes.» A médica obstetra afirma ainda que «é importante realizar fisioterapia para fortalecimento da zona do períneo, uma vez que é essencial no bem-estar futuro, nomeadamente para evitar a incontinência urinária, fecal ou de gases». E conclui: «Hoje em dia, para partos normais, com fórceps, ventosas e mesmo para mulheres com cesariana, porque, no fim da gravidez, o peso do próprio feto sobre o pavimento pélvico altera a sua resistência, é importante realizar exercícios concretos de recuperação do períneo».


Episiotomia: quando é mesmo necessário cortar

Existem algumas situações em que a equipa de saúde que assiste ao parto pode antecipar que seja preciso uma episiotomia:

  • No caso de bebés grandes.
  • Em mulheres com diabetes gestacional ou diabetes prévia, que tendem a ter bebés grandes. «Nestes casos, podem surgir complicações porque passa a cabeça do bebé, mas depois não passam os ombros.»
  • Em alguns bebés muito prematuros. «Pode-se pensar que por serem muito pequeninos não é necessária episiotomia, mas pode ser necessário para diminuir o traumatismo do bebé no parto.»
  • Quando, em dilatação completa, é necessário abreviar o parto.

Pode ser desnecessário…

  • Quando se prevê que o períneo não vai rasgar de forma descontrolada ou extensa, ou seja:
  • Em mulheres a colaborar ativamente e de forma controlada durante o período expulsivo.
  • Em grávidas em que não se antecipa um recém-nascido grande e que tenham um períneo elástico.
Última revisão: Outubro 2018

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