Diabetes gestacional: sintomas, riscos e tratamento

Diabetes gestacional: Quando a diabetes surge na gravidez

A diabetes gestacional resulta da incapacidade do organismo de produzir insulina suficiente para as necessidades acrescidas desta fase. A sua prevalência em Portugal, tal como no mundo, tem vindo a crescer. Porquê?

  • PorCarmen SilvaJornalista

  • Entrevista aDra. Maria do Céu AlmeidaMédica ginecologista-obstetra, diretora do Serviço de Obstetrícia B, da Maternidade Bissaya Barreto, do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC), e responsável pelo Grupo de Estudo Diabetes e Gravidez da Sociedade Portuguesa de Diabetologia (SPD)

A Revista Prevenir entrevistou a médica ginecologista-obstetra Maria do Céu Almeida. A responsável pelo Grupo de Estudo Diabetes e Gravidez da Sociedade Portuguesa de Diabetologia (SPD) esclareceu todas as questões relacionadas com a diabetes gestacional e indica: «Os fatores de risco estão a aumentar», nomeadamente a obesidade, o sedentarismo e a gravidez em idades mais tardias, após os 35 anos.

Diabetes gestacional versus diabetes na gravidez

Diabetes gestacional e diabetes na gravidez não são a mesma coisa. O que as diferencia?

São diferentes tipos de diabetes, relacionados com os valores de glicemia na altura do diagnóstico. Se os valores da glicemia em jejum variarem entre 92 e 125 mg/dl, estamos perante a diabetes gestacional, mas, se forem iguais ou superiores a 126 mg/dl, já é considerada diabetes na gravidez (semelhante à diabetes fora da gravidez, mas que só foi descoberta nesta fase).

Quem já tem diabetes, seja de tipo 1 ou 2, pode vir a desenvolver diabetes gestacional?

Quem já tem diabetes (tipo 1 ou 2) antes da gravidez quando engravida já tem o diagnóstico de diabetes e, nestes casos, é denominada diabetes prévia à gravidez. É diferente da diabetes gestacional, pois é mais grave e associada a mais complicações se não for devidamente tratada.

A diabetes gestacional pode surgir em que fases da gravidez?

É detetada quando se fazem os rastreios de diabetes, ou seja, no início da gravidez, através de uma glicemia em jejum ou entre as 24 e 26 semanas. No início, poderá corresponder a mulheres que já teriam alguma intolerância à glicose, não diagnosticada, antes de engravidar. Porém, ocorre com mais frequência na segunda metade da gestação, pois é nessa altura que as hormonas da gravidez têm uma ação diabetogénica e exigem que o organismo produza maior quantidade de insulina.

Como evitar a diabetes gestacional

E pode ser prevenida?

Sim, se eliminarmos os fatores de risco para a diabetes (ver galeria). Além disso, uma alimentação saudável e fazer exercício físico também são fatores de prevenção.

Por que razão a idade da mulher é considerada um fator de risco?

Porque, ao longo da vida, existe um “desgaste” nas células pancreáticas que produzem insulina, associado a outros fatores que levam a maior dificuldade de utilização da insulina pelas células periféricas do organismo, como as células adiposas e musculares.

Ter diabetes gestacional numa gravidez anterior é um fator de risco para que, na gravidez atual, se volte a ter?

Quem desenvolve diabetes gestacional é porque tem um défice relativo de insulina e qualquer gravidez implica um stresse adicional para o pâncreas (aumento da necessidade de produzir insulina). Por isso, qualquer gravidez pode desencadear o aparecimento de diabetes.

Uma alimentação saudável e fazer exercício físico são fatores de prevenção

Se numa primeira gravidez não se teve diabetes gestacional, é um indicador de que poderá não surgir nas próximas gravidezes?

Se não estiverem presentes outros fatores de risco, sim, há grandes hipóteses de não desenvolver diabetes gestacional. Muitas vezes numa segunda gravidez estamos mais pesadas e somos mais velhas. Se a isso se associar, por exemplo, um antecedente familiar (mãe ou pai), já haverá maior probabilidade de desenvolver a doença.

Quais os sintomas da diabetes gestacional?

Como este tipo de diabetes é sinónimo de uma alteração de glicemia menor do que nas mulheres com diabetes fora da gravidez, não há os típicos sintomas da diabetes, como sede ou polaquiúria, ou seja, necessidade frequente de urinar, normalmente acompanhada pela diminuição do volume de urina em cada micção.

E como é diagnosticada?

Através da uma glicemia em jejum, no início da gravidez, igual ou superior a 92 mg/dl; ou por uma prova de tolerância à glicose, entre as 24 e 28 semanas de gravidez, que consiste em colher sangue em jejum e, depois, uma e duas horas após a ingestão de 75 g de glicose em 300 ml de água.

O tratamento da diabetes gestacional

É possível controlar a diabetes gestacional só com a alimentação?

Na maioria dos casos (mais de 60 a 70 por cento), é possível controlá-la só com dieta e exercício físico porque, sendo uma alteração ligeira do metabolismo dos hidratos de carbono, os cuidados na alimentação podem controlar as glicemias.

Como é que a grávida deve vigiar a glicemia e o que indica que a diabetes gestacional está controlada?

Deve fazer pesquisa da glicemia capilar (com aparelhos medidores de glicemia, sendo os mais usados os que fazem a leitura pela picada no dedo) em jejum e uma hora após as refeições principais (pequeno-almoço, almoço e jantar). A diabetes gestacional está controlada se os valores em jejum estiverem abaixo de 95 mg/dl e, uma hora após as refeições, forem inferiores a 140 mg/dl.

Quais as possíveis complicações na mãe e no bebé durante a gravidez?

Se a diabetes gestacional estiver bem controlada, as complicações são iguais às das grávidas sem diabetes. Se não se conseguir controlar, podem existir complicações, como bebés macrossómicos (com peso de nascimento superior a 4 kg), maior incidência de hipertensão arterial e maior volume de líquido amniótico (hidrâmnios), que pode levar a complicações, como parto prematuro (antes das 37 semanas).

Riscos da diabetes gestacional

Qual o impacto, na prática, da diabetes gestacional no parto?

Se a diabetes não estiver controlada, poderá haver maior probabilidade de cesariana ou parto vaginal instrumentado (fórceps ou ventosa) por vários motivos, como maior probabilidade de indução do trabalho de parto e de o bebé ser maior.

Depois do parto, a diabetes gestacional desaparece?

Sim, logo após o parto há uma descida acentuada das necessidades de insulina do organismo materno e, como tal, a diabetes gestacional desaparece na grande maioria dos casos. Além disso, a amamentação é muito importante para reduzir essas necessidades e normalizar a glicemia.

O que indica que a mulher deixou de ter diabetes gestacional?

Quando os valores de glicemia voltam ao normal, em jejum inferior a 95 mg/dl e, uma hora após as refeições, inferior a 140 mg/dl (mesmo sem medicação nas que faziam), mas só temos a certeza quando se repete a prova de tolerância à glicose oral, seis a oito semanas após o parto (análise igual à que os adultos fazem para diagnosticar diabetes, isto é, glicemia em jejum e duas horas após a ingestão de 75 g de glicose). Temos verificado, contudo, que cerca de cinco por cento destas mulheres fica com algum tipo de alterações do metabolismo dos hidratos de carbono (intolerância à glicose ou mesmo, numa baixa percentagem, diabetes, geralmente tipo 2).


Quais as consequências da diabetes gestacional na mulher e na criança depois do parto ou mesmo durante a vida?

Se estiver bem controlada, não parece haver consequências, particularmente para o filho. Para a mulher, serve de marcador para um desenvolvimento futuro de diabetes. Havendo este marcador, é muito importante que comece a eliminar os fatores de risco evitáveis (sedentarismo, obesidade) para impedir que a diabetes se desenvolva no futuro.


5 fatores de risco

São várias as situações que podem desencadear a diabetes gestacional, como indica a médica ginecologista-obstetra Maria do Céu Almeida. Veja a galeria de imagens:

Idade materna superior a 35 anos
Idade materna superior a 35 anos

Antecedentes familiares de 1.º grau (mãe, pai ou irmão) de diabetes
Antecedentes familiares de 1.º grau (mãe, pai ou irmão) de diabetes

Antecedentes de diabetes em gravidez anterior
Antecedentes de diabetes em gravidez anterior

Doenças associadas, como síndrome do ovário poliquístico ou síndrome metabólica
Doenças associadas, como síndrome do ovário poliquístico ou síndrome metabólica

Obesidade
Obesidade

Controle o que come

Para controlar a diabetes gestacional através da alimentação, a médica ginecologista-obstetra Maria do Céu Almeida recomenda:

• Elimine os açucares de absorção rápida e controle as calorias.
• Tenha horários de refeições certos, ingerindo alimentos a cada 3 a 4 horas.
• Faça, pelo menos, seis refeições durante o dia e evite um jejum noturno superior a 7-8 horas.

Última revisão: Junho 2020

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