José Gameiro: «A crítica é o mais destruidor na vida do casal»

José Gameiro: «A crítica é o mais destruidor na vida do casal»

Ao fim de quase 40 anos de experiência em terapia do casal, o psiquiatra José Gameiro não tem dúvidas sobre o que tende a falhar na vida a dois. E como devemos reagir para manter relações felizes e duradouras.

  • PorFátima Lopes CardosoJornalista

  • Entrevista aProf. Doutor José GameiroMédico psiquiatra especializado em Terapia Familiar e do Casal
  • FotografiaArtur

O casamento vive tempos difíceis em Portugal. De acordo com dados divulgados, em 2016, pela Pordata, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, por cada 100 casamentos, 70 terminam em divórcio. Nestes números, que conquistam o primeiro lugar no ranking europeu de separações para Portugal, não constam as centenas de relações conjugais não oficializadas, pelo que a realidade pode ser ainda mais avassaladora. Em entrevista à Revista Prevenir, o psiquiatra José Gameiro, um dos fundadores da Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar (SPTF)e autor de uma dezena de livros, reconhece que não tem a fórmula milagrosa para uma relação dar certo, mas considera que ninguém consegue ser feliz ao lado da pessoa amada se não resolver primeiro as suas tristezas e inquietações.

O que explica a elevada taxa de divórcios, em Portugal?

As explicações para o fenómeno são relativamente uniformes nos estudos sociológicos realizados nos países da cultura ocidental. No caso de Portugal, após o 25 de abril, a separação oficial tornou-se possível com a revogação da lei que permitiu os divórcios católicos. Mas, na generalidade e o que é consentâneo para todos é que estes números são justificados pelo aumento da esperança média de vida e, particularmente, com a mudança da posição das mulheres na relação do casal.

Além das explicações lógicas, o que lhe dita a sua experiência de décadas de terapia do casal?

Que o aumento das taxas de divórcio tem a ver com a enorme confusão que gerou incluir o amor no casamento. Parece-nos lógico e que faz sentido, mas gerou uma confusão enorme. Antes, o amor era algo secundário ou quase inexistente. Eram outras convenções que formalizavam o casamento. Sendo o amor um sentimento que tem alguma volatilidade, muito influenciado por sentimentos internos, mas também por causas externas, a instabilidade do matrimónio aumentou e essa será a tendência.

«Às vezes, generaliza-se um pouco a ideia de que os casais se separam facilmente e à primeira, mas não é assim. As pessoas separam-se lentamente e com custos emocionais e sofrimento envolvido. Porque, apesar de tudo, quando se casam ou acasalam, acreditam que é para toda a vida»

Aliado a este fenómeno, existe outro igualmente importante, que é a ideia, iniciada na minha geração e que ganhou mais relevância nas seguintes, de que a felicidade pessoal está associada ao amor, à relação conjugal e outros aspetos afetivos e amorosos. Quando as pessoas, de uma forma consistente, são infelizes e percebem que não há muito a fazer, separam-se.

É possível que se tenha também perdido a paciência de outros tempos?

Às vezes, generaliza-se um pouco a ideia de que os casais se separam facilmente e à primeira, mas não é assim. As pessoas separam-se lentamente e com custos emocionais e sofrimento envolvido. Porque, apesar de tudo, quando se casam ou acasalam – há muitos estudos que indicam que casar-se com ou sem papel é muito igual em termos de dinâmica emocional –, acreditam que é para toda a vida. O que é aparentemente contraditório com as estatísticas.

O que mudou desde há 40 anos, quando iniciou a sua atividade como terapeuta do casal?

Quando começámos a terapia familiar, era muito complicado porque os casais não aderiam. As famílias sim, mas era difícil os casais aceitarem uma intervenção. Hoje em dia, há mais casais a submeterem-se à terapia do que famílias. A separação passou a ser a consequência quando a realidade não melhora. Mudou a ideia de que o casamento é para sempre e as mulheres tornaram-se mais exigentes. A partilha das tarefas e a expressão dos afetos passou a ser apresentada como uma condição sine qua non para a relação funcionar.

«Todos os casamentos têm fases de seca. É impossível estar sempre nos píncaros. Às vezes, o difícil é aceitar e aguentar essas fases. Para as combater, os casais têm de se divertir»

Os homens estão mais à defesa do que antigamente. Em situações extremas, elas põem a condição: “Ou isto muda ou acabou”. Quando as mulheres colocam a questão desta maneira, são mais coerentes do que os homens. Elas ameaçam menos e agem mais.

Uma das razões para o fim da paixão na vida de um casal é a rotina. Como é que se pode conviver com as obrigações conjugais sem se perder o “encantamento” dos primeiros tempos de namoro?

Todos os casamentos têm fases de seca. É impossível estar sempre nos píncaros. Às vezes, o difícil é aceitar e aguentar essas fases. Para as combater, os casais têm de se divertir. No meio das fraldas, é importante manter o sentido de humor e passar bons momentos a dois. Reconheço que há muitos casais que têm uma vida difícil. É complicado manter o humor quando se tem de acordar às seis da manhã, levar as crianças, ainda quase a dormir, à escola e regressar a casa às oito da noite. Mas depende muito da capacidade de frustração de cada pessoa. Há quem tenha dificuldade em aceitar essas rotinas chatas que começam a criar tensão. Geralmente, as mulheres aguentam melhor a frustração das rotinas do que os homens, que são mais infantis e imaturos.

Nos seus livros e crónicas, refere, muitas vezes, que existem emoções e maneiras de lidar com a relação a dois que são próprias das mulheres. Em que é que elas diferem dos homens?

As mulheres têm mais facilidade em dizer aquilo que sentem. No geral, são mais óbvias, não guardam muito e são capazes de expressar o que estão a sentir, de bom e de mau. Às vezes, são até demasiado “cirúrgicas”. Fazem mais balanços na relação conjugal, na expressão dos afetos e têm mais necessidade de sentir que o outro diga que gosta delas ou que se aproxime no toque, que não é propriamente sexual. Para as mulheres, o sexo não é um medidor da relação conjugal, como é para os homens.

E qual lhe parece ser a importância do sexo para os homens?

Para os homens, sexo é orgasmo e corresponde ao momento da ejaculação. É biológico. A brincar, costumo dizer que os homens são um bocado como as barragens. Quando estão cheias, precisam de esvaziar. Em geral, enquanto vai havendo sexo, para o homem, está tudo bem.

«À partida, quando os casais estão bem, o sexo funciona; quando estão mal, o sexo não funciona. O sexo é como comer e dormir. Se a pessoa está bem, come e dorme.»

Pelo contrário, se não há sexo, ao fim de alguns dias, começa a ficar tenso e irritado e começa a achar que aquilo não faz sentido nenhum. De qualquer forma, cada vez há mais mulheres com comportamentos sexuais parecidos com os dos homens.

E essa perspetiva masculina é verdadeira? O sexo é um barómetro para o estado da relação?

Transmite-se a ideia de que o sexo é muito importante e que a maior parte dos casais funciona mal sexualmente, mas não tenho nada essa perceção. À partida, quando os casais estão bem, o sexo funciona; quando estão mal, o sexo não funciona. O sexo é como comer e dormir. Se a pessoa está bem, come e dorme.

Há cada vez mais pessoas a recorrerem a aplicações como o Tinder. Qual é a sua opinião sobre este tipo de aplicações?

Para pessoas sozinhas, as redes sociais podem exercer um papel importante. Tenho doentes sós que começaram por fazer amizades virtuais, que, em alguns casos, passaram a reais e houve quem conseguisse relações amorosas com futuro. De outra forma, ou iam para os bailes dos clubes no fim de semana ou dificilmente teriam essa oportunidade. Agora, embora saiba pouco do assunto, essas aplicações funcionam muito para encontros ocasionais. Os utilizadores podem começar a conversar, tomam café um dia e, no limite, vão para a cama. Não tenho nenhum juízo moral sobre essas aplicações, cada um faz o que quer, mas creio que pode haver riscos de segurança para quem as utiliza.

Que estratégias alguém pode adotar para encontrar o homem ou a mulher da sua vida?

Essa é a pergunta de dois milhões de dólares (risos). Acho que é como as doenças. O professor Manuel Sobrinho Simões, um dos maiores especialistas em Oncologia do País, diz que o cancro é, acima de tudo, uma questão de azar. Depois, há os fatores de risco genéticos e ambientais. Nas relações conjugais, também depende da sorte e do azar. Há pessoas que, à primeira ou segunda oportunidade, têm muita facilidade em encontrar um companheiro com quem terão uma relação consistente para o resto da vida e há outras que têm uma grande dificuldade em acertar nas relações, por razões relacionadas consigo próprias.

«Face a uma série de relações falhadas, talvez seja altura de perceber porquê. Possivelmente, a culpa não é dos outros. Se ainda não percebeu a razão dos fracassos amorosos, em vez de culpar os outros, deve falar com alguém ou fazer uma autoavaliação»

Nem todos fomos fadados para ter relações amorosas consistentes e duradoras. Há pessoas que não conseguem gostar, que não são gostáveis, que são ultracríticas e estão sempre a arranjar problemas. Por isso, têm muita dificuldade em manter as relações. Não existe uma estratégia. Face a uma série de relações falhadas, talvez seja altura de perceber porquê. Possivelmente, a culpa não é dos outros. Se ainda não percebeu a razão dos fracassos amorosos, em vez de culpar os outros, deve falar com alguém ou fazer uma autoavaliação.

No seu mais recente livro de crónicas, Talvez para Sempre, escreve: «A felicidade é estarmos à altura do que acontece. Ninguém o pode fazer por nós.» Quer isto dizer que exigimos muito do outro, mas deveríamos começar por exigir mais de nós?

Não podemos reivindicar do outro o que exigimos a nós e vice-versa. Temos de perceber o mais rapidamente possível o que é que o outro pode ou não fazer. Quando partimos para uma relação, imaginamos uma princesa encantada, mas temos de aceitar que a pessoa que está ao nosso lado tem limitações e características próprias. É determinante perceber os limites da mudança. Todas as pessoas têm uma linha a partir da qual se torna intransponível. Um dos elementos do casal exige determinada mudança, mas não consegue alterar o outro. Há pessoas que não conseguem ser o que a outra quer. Não há nada a fazer.


Terapia do casal: Quando procurar ajuda

O psiquiatra José Gameiro divide em duas categorias as situações clínicas que passam pelo seu consultório.

Problemas agudos
«Este tipo de problemas tende a surgir em casais jovens ou com uma relação recente, que procuram ajuda assim que se apercebem que a relação não está bem e que a tendência é para se agravar.»

  • Principais causas: «Geralmente são problemas provocados por infidelidades, podendo também ser provocados por conflitos com as famílias de origem, entre outros.»
  • Bom prognóstico: «Estes casos resultam numa excelente indicação para terapia familiar. A situação não é fácil e é preciso balancear uma certa “lavagem de roupa suja” que a pessoa traída pretende e que não é nada útil para a terapia. Mas se os dois quiserem continuar juntos, a relação sobrevive e renovam-se os votos.»

Problemas crónicos
«Tendem a surgir em casais de idade mais avançada ou em relações antigas, com problemas de há muitos anos, que podem ter surgido logo na noite de núpcias.»

  • Principais causas: «Podem surgir devido a problemas de comunicação, à crítica sistemática ou a outras situações de conflito.»
  • Terapia mais demorada e difícil: «Como a procura de ajuda ocorre tardiamente, ao fim de muitos anos de mal-estar e conflito, às vezes, a terapia não funciona.»

São estes os grandes “inimigos” do casal

As principais ameaças à vida a dois, de acordo com José Gameiro são:

A crítica sistemática
A crítica sistemática

«Está estudado que o mais destruidor na vida do casal é a crítica sistemática ao outro. Quando alguém é constantemente criticado, quer seja por coisas pequenas ou mais relevantes, mas sempre com uma generalização, começa a sentir que é uma não pessoa, que não vale nada, que não presta. É devastador. Mesmo que alguém aguente durante algum tempo, depois começa a sentir-se sufocado.»

«Está estudado que o mais destruidor na vida do casal é a crítica sistemática ao outro. Quando alguém é constantemente criticado, quer seja por coisas pequenas ou mais relevantes, mas sempre com uma generalização, começa a sentir que é uma não pessoa, que não vale nada, que não presta. É devastador. Mesmo que alguém aguente durante algum tempo, depois começa a sentir-se sufocado.»

As famílias de origem
As famílias de origem

«Os conflitos entre um dos parceiros e a família de origem do outro podem dar cabo da relação conjugal, especialmente quando o parceiro exige ao outro que se afaste da sua família. Apesar de ser o extremo, vejo muitos casos destes e, a prazo, não há quem aceite viver assim. Ao princípio, há a questão das lealdades conjugais, mas, depois, acaba por não fazer sentido, pois a família de sangue tem mais tempo na vida dessa pessoa do que o cônjuge.»

«Os conflitos entre um dos parceiros e a família de origem do outro podem dar cabo da relação conjugal, especialmente quando o parceiro exige ao outro que se afaste da sua família. Apesar de ser o extremo, vejo muitos casos destes e, a prazo, não há quem aceite viver assim. Ao princípio, há a questão das lealdades conjugais, mas, depois, acaba por não fazer sentido, pois a família de sangue tem mais tempo na vida dessa pessoa do que o cônjuge.»

A rotina
A rotina

«Quando não é bem gerida, pode arruinar a vida a dois. Se durante anos seguidos, o casal não tem espaço de encontro, não se diverte e estão os dois muito ocupados com o trabalho, ao fim de algum tempo, dá problemas. O casamento ou acasalamento é um espaço de expressão afetiva. Quando alguém não o encontra na relação vai procurar expressá-lo noutras pessoas ou no trabalho, amigos, copos, futebol ou o que quer que seja. A relação aguenta algum tempo, mas, depois, dá-se o afastamento.»

«Quando não é bem gerida, pode arruinar a vida a dois. Se durante anos seguidos, o casal não tem espaço de encontro, não se diverte e estão os dois muito ocupados com o trabalho, ao fim de algum tempo, dá problemas. O casamento ou acasalamento é um espaço de expressão afetiva. Quando alguém não o encontra na relação vai procurar expressá-lo noutras pessoas ou no trabalho, amigos, copos, futebol ou o que quer que seja. A relação aguenta algum tempo, mas, depois, dá-se o afastamento.»

Última revisão: Fevereiro 2018

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