Maria José da Silveira Núncio: «A família constrói-se todos os dias»

Maria José da Silveira Núncio, socióloga: «A família constrói-se todos os dias»

Num quotidiano em que a falta de tempo é geradora de conflito e existem profundas alterações nos modelos familiares, Maria José da Silveira Núncio, socióloga, convida-nos a redescobrirmos a nossa família e a olhá-la como um projeto que, não sendo perfeito, é nosso, único.

  • PorFátima Lopes CardosoJornalista
  • FotografiaArtur 

  • Entrevista aProf.ª Dra. Maria José da Silveira NúncioSocióloga 

«Cada família tem a sua dinâmica, a sua maneira de responder ao quotidiano e de desenvolver estratégias para ser mais feliz. No entanto, isso não determina que é perfeita (ou não) comparativamente a outra. Se realizarmos um processo de autoconhecimento no seio da família, apercebemo-nos que, de facto, existem inúmeros fatores de satisfação reais. Só que somos mais capazes de perceber aquilo que nos deixa insatisfeitos, de nos culpabilizarmos e aos outros, do que nos focarmos nesse lado bom», defende a autora de Famílias Felizes Sem Segredos (Porto Editora), a socióloga Maria José da Silveira Núncio,  em entrevista à Revista Prevenir. Uma conversa em que nos incentiva e ensina a mudar esse olhar, enquanto indivíduos e família.

Por motivos que nos diferenciam das gerações anteriores, estamos hoje, escreve no seu livro, «menos preparados para a tolerância e para as cedências». Esta atitude poderá explicar a elevada taxa de divórcios?

Mesmo que não seja a causa imediata, a intolerância vai causando o desgaste na relação. E sem que seja uma consequência do tempo, pois, além de termos uma taxa de divórcio muito elevada, os casamentos duram pouco tempo. O que sucede tem a ver com fatores educacionais, com o facto de permanecermos na casa dos pais e de nos vincularmos afetivamente a alguém, seja num casamento ou união de facto, cada vez mais tarde.

«No Facebook, vemos as pessoas muito animadas, em sítios muitos bonitos e com atividades interessantes. Se passámos o fim de semana em casa dedicados às tarefas domésticas, sentimos que somos de uma incompetência total e que a vida é de uma infelicidade comparada com a dos outros»

Esta tendência leva a uma série de pequenos hábitos instalados e que entram em rota de colisão com os hábitos do outro. Depois, existe cada vez mais a lógica de que o nosso destino depende de nós. Portanto, há um centralismo muito evidente no eu. Ao contrário, a vida familiar é muito do domínio do nós. Só que aquilo que são as minhas expectativas ou vontades dão cada vez menos espaço à existência do nós, tendo em conta que não são os somatórios das existências individuais que compõem a família, mas tem uma identidade própria.

Recusa a ideia de que existem famílias perfeitas. Vivemos em função de uma perceção idealizada e irrealista da vida?

A família tem de ser entendida como algo que se constrói todos os dias. Tem a ver com relações afetivas e as emoções, que são a principal dimensão da vida familiar. Depois, há o outro lado funcional que corresponde ao quotidiano das famílias. A sociedade gerou o mito da perfeição. Temos de ser perfeitos enquanto indivíduos, profissionais, mães, pais, companheiros, etc. Só que a perfeição é inatingível. No Facebook, vemos as pessoas muito animadas, em sítios muitos bonitos e com atividades interessantes. Se passámos o fim de semana em casa dedicados às tarefas domésticas, sentimos que somos de uma incompetência total e que a vida é de uma infelicidade comparada com a dos outros. Também é uma questão de escala. O cinema e a publicidade sempre nos venderam a imagem de perfeição, mas aí temos a capacidade de perceber que é uma fantasia, muito romântica e bonita. Quando se trata da perfeição da vida da vizinha do lado, pensamos: “Ela tem tudo para ser igual a mim, é capaz. Eu é que sou incompetente”. Esquecemo-nos que os outros só nos mostram aquilo que querem.

A sociedade atravessa uma crise de valores?

Hoje, temos desafios diferentes dos das gerações anteriores. Não é preciso entrar na visão catastrofista de que os valores ruíram e que estamos em crise. Simplesmente, os valores e os modelos alteraram-se. Tem a ver com a passagem do tempo. O que é preocupante é a facilidade com que se rompem as uniões.

«Causa-me muita confusão ver uma família num restaurante entregar um tablet ou o telemóvel à criança»

E não estou a dizer que as pessoas não se devem separar e procurar outra realidade. Claro que se determinada situação já não corresponde, de todo, às expectativas, as pessoas devem divorciar-se. Mas antes de tomar essa decisão, é fundamental tentar perceber se fizeram tudo o que era possível para a relação funcionar. Muitas vezes, as pessoas desistem à primeira adversidade.

De que forma a educação que recebemos dos nossos pais pode tornar-nos mais ou menos capazes de sermos felizes em família?

Interfere imenso e de maneiras que nem nos apercebemos. O modo como fomos educados, os rituais que sucedem em família, os hábitos e costumes tendem a ser reproduzidos quando constituímos uma família. O ambiente em que crescemos também contribui muito para a idealização daquilo que deve e vai ser a nossa família. E tanto funciona nos casos em que a pessoa cresceu num ambiente familiar muito positivo e satisfatório e a expectativa é “vou reproduzir este modelo”, como nos casos ao contrário. Geralmente, os filhos de pais que se divorciaram têm mais receio de criar um vínculo estável, mas quando estabelecem essa ligação, tendem a mantê-la, fazendo um esforço para a preservar com mais solidez do que quem cresceu em ambientes familiares intactos.

Constata que as novas tecnologias são motivo de cisão nas famílias?

Os tablets, telemóveis e computadores interferem muito na comunicação em família. Falamos muito no uso excessivo destes dispositivos em crianças e adolescentes, mas, efetivamente enquanto adultos, temos de perceber qual é a nossa responsabilidade. Causa-me muita confusão ver uma família num restaurante entregar um tablet ou o telemóvel à criança: enquanto está a jogar, ninguém está a sofrer os efeitos da impaciência, mas, mais tarde, isso vai gerar um problema.

«É dramático quando os nossos filhos não ouvem o “não” em casa, pois vão ouvi-lo inúmeras vezes noutros contextos»

O que pode ser um sossego num determinado momento torna-se um hábito. Mais tarde, não temos legitimidade para, noutras circunstâncias, proibir aquilo que incentivámos. Em idades mais precoces, as crianças não aprendem por aquilo que lhe dizemos, mas pelo que fazemos. Os dispositivos eletrónicos têm de ser utilizados com moderação. Cabe aos adultos definirem as regras.

Proibir causa momentos de tensão na família…

Os pais têm medo da reação dos filhos porque podem ser malcriados, vão ficar amuados. Mas não podemos ter a presunção de educar alguém sem o “não”. As recusas são muito benéficas para a estruturação enquanto pessoas, desde que lhes expliquemos o porquê. É dramático quando os nossos filhos não ouvem o “não” em casa, pois vão ouvi-lo inúmeras vezes noutros contextos. Se não existir esta disciplina, podemos estar a criar gerações de pessoas completamente desorganizadas e impreparadas fora do contexto familiar. Hoje, vivemos todos pressionados com o excesso de trabalho e a falta de tempo. Adotamos a lógica da educação permissiva, em que deixamos fazer tudo para evitar a tensão que surge quando se diz “não”.

Que estratégias nos permitem evitar que a falta de tempo comprometa a qualidade dos momentos em família?

É preciso gerir melhor o tempo. Devemos evitar a ideia de que só nós é que somos capazes de fazer as coisas, em qualquer contexto. Temos de pedir a colaboração. Não digo ajuda, mas sim colaboração. E não é só do companheiro, mas de qualquer um dos elementos da família. Desde idades muito precoces, podemos ensinar os filhos a colaborar na vida doméstica, com pequenas tarefas que até são satisfatórias para a criança, como fazer a cama, arrumar brinquedos, etc. Também é uma maneira de ela se organizar.

«As famílias têm muito mais forças do que aquilo que muitas vezes julgam ter»

No trabalho, um dos passos é hierarquizar tarefas. Perceber o nível de prioridade de cada tarefa e marcar na agenda com cores diferentes. Se começarmos a anotar o tempo que gastamos, iremos perceber onde gastamos mal o tempo e podemos rentabilizá-lo. Temos de adotar uma postura colaborativa, delegando tarefas aos outros, sem recear que não façam tão bem ou que pensem que somos menos competentes. O tempo também não pode ser tão centrado entre a família e o trabalho. Cada pessoa precisa de um tempo para si e os outros têm de aprender a respeitá-lo.

Em famílias reconstruídas ou monoparentais, como é que os pais podem garantir que o equilíbrio emocional dos filhos não é prejudicado?

Em relação aos filhos, independentemente do modo como as pessoas se separam, existe sempre uma dimensão de tristeza e infelicidade associada. A situação mais comum é aquela em que o momento da separação apenas é sentido por um dos elementos do casal e não pelo outro, o que vai adensar a mágoa. No meio deste cenário, os filhos funcionam como arma de arremesso de um progenitor em relação ao outro. O bom senso passa por conseguirmos separar a situação conjugal, que termina, de uma situação parental, que nunca irá acabar. A partir do momento em que há filhos, não é possível entender a separação como algo que acontece radicalmente. Têm de tentar planear um futuro já não como companheiros, mas como pais daqueles filhos. No fundo, é reorientar os papéis.


Por que é tão importante nunca perder a capacidade de brincar com filhos?

Quando crescemos, tornamo-nos demasiado adultos. Inclusive, referimo-nos às crianças como “eles”. Vamos criando uma barreira e esquecemos que esta dimensão lúdica é extremamente importante não só para as crianças, pois é uma forma de estabelecer o vínculo e a confiança, mas também para os adultos. Há imensos estudos na área da psicologia que comprovam que as crianças tendem a confiar mais no adulto que brinca com eles, seja a mãe ou o pai. Mas também é importante para os adultos, pois não só é relaxante como nos ajuda a colocar as coisas em perspetiva. Aprendemos a não levar tudo tão a sério.

Quando é que as pessoas precisam da ajuda de um coaching familiar?

Quando não conseguem estabelecer regras ou cumprir as regras que definiram. Quando têm problemas de comunicação, seja na relação conjugal , seja com familiares próximos ou relação parental. Ou também se sentem que existe uma relação de conflitualidade ou de insatisfação em certas áreas da sua vida. Mas as famílias têm muito mais forças do que aquilo que muitas vezes julgam ter. O primeiro exercício é tentarem encontrar as melhores respostas, pois somos conhecedores da nossa própria realidade.


Os três pilares da harmonia familiar

  1. Rotinas «São fatores estruturantes do bom desenvolvimento e ajudam a construir a identidade familiar», define a autora de Famílias Felizes sem Segredos. A socióloga aconselha o desenvolvimento de rotinas próprias, adaptadas às circunstâncias da família, e a hierarquização das tarefas, deixando espaço para o improviso.
  2. Rituais «Têm a ver com a maneira como se vivem determinados acontecimentos, sejam positivos, como as datas festivas, ou os inesperados». A socióloga recomenda que se estimule a presença de todos os elementos da família nessas ocasiões e se explique às crianças a importância da celebração.
  3. Regras «É importante perceber que há regras, que são um tubo de ensaio do que vai ser a nossa maneira de interagir com os outros, fora do contexto familiar», sublinha a socióloga. Na aplicação das regras, é importante que sejam explicadas, entendidas e revistas de acordo com as circunstâncias e momentos da vida familiar.

Comunicação no casal

«Muitas vezes, dizemos coisas erradas e depois arrependemo-nos com a célebre frase “não era nada disto que queria dizer”. Na verdade, queríamos dizer aquilo; o problema foi a maneira como dissemos. Há regras simples que podem ajudar a evitar a conflitualidade», explica Maria José Núncio Silveira à Revista Prevenir.

Isto é aquilo que nunca deve dizer…

  • “Não”, “nunca”, “jamais”. «Palavras com uma conotação muito negativa e definitiva devem ser evitadas, como “não”, “nunca” ou “jamais”. Prejudicam e criam barreiras desnecessárias.»
  • “Tu fazes”, “tu dizes”. «Tendemos a usar muito o “tu fazes”, “tu dizes”. Se invertermos essa tendência e dissermos “preferia que tu fizesses” ou “que dissesses”, transformamos uma acusação num pedido. Se o outro se dirige a mim de forma acusatória, replico o tom. Se existir um pedido, o outro reage de forma colaborativa.»
Última revisão: Agosto 2018

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