"E se o meu filho for homossexual?"

A orientação sexual pode não corresponder ao que imaginou para ele, mas não há nada de errado em ter um filho homossexual.

Saber que se tem um filho homossexual pode não corresponder ao que se imaginou. Não há nada errado nisso, nem no receio que ambos possam sentir. Importa só não esquecer o que os une para a vida: o amor.

  • PorManuela VasconcelosJornalista

  • Entrevista aProf. Dr. Henrique Marques PereiraPsicólogo clínico

Ter um filho homossexual é uma realidade que assusta muitos pais, desafia sonhos e expectativas familiares. Mas também coloca jovens em sofrimento e ansiedade – estima-se que o risco de depressão seja quatro vezes superior neste grupo. Em entrevista à Revista Prevenir, Henrique Marques Pereira, psicólogo clínico e professor na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade da Beira, responde às principais questões dos pais.

Em que idade se define a identidade sexual da criança?

A orientação sexual constrói-se de forma complexa e envolve a integração de sentimentos, atrações, fantasias, comportamentos, preferências e identificações com várias categorias (heterossexual, homossexual, bissexual ou assexual). Pode ficar apenas consolidada na adolescência, quando se resolvem as dúvidas identitárias. No entanto, muitas pessoas LGB dizem ter sentido uma orientação diferente desde sempre. Num plano consciente, os sentimentos de diferença são os primeiros sinais de interesse homoerótico de que há lembrança. Por volta dos 5 anos, apresentam uma forma semelhante aos interesses eróticos dirigidos ao sexo oposto.

A que sinais devem os pais estar atentos?

Antes de mais, é necessário que os pais entendam que a homossexualidade é uma atividade normal de sete a dez por cento da espécie humana e não só, e que tem de ser respeitada. Portanto, não existe nada a que os pais “devam” estar atentos, como se fosse uma doença para a qual devem estar preparados. Se a criança se tornar homossexual, sê-lo-á porque essa é a sua natureza. A tarefa dos pais é aceitarem-na como é, independentemente da orientação sexual. Ainda que possa não ser fácil, sobretudo se tiverem elevados índices de conservadorismo ou preconceito.

«É necessário que os pais entendam que a homossexualidade é uma atividade normal de sete a dez por cento da espécie humana e não só, e que tem de ser respeitada»

Como devem reagir às questões do filho?

Se a criança mostrar indícios de interesse romântico por pessoas do seu sexo, isso deve ser vivido de forma natural, com respeito, permitindo a natural expressão. A criança entenderá que o seu sentimento de diferença não é errado, ainda que seja diferente, minoritário ou incompreendido. Os pais podem também criar vias de comunicação de forma aberta e despreocupada. Aproveitar um filme, um livro, uma figura pública para falar abertamente do assunto. Ajustar as expectativas àquilo que os filhos são realmente e não ao que gostaria que fossem, rejeitando o medo e a incompreensão.

Como pais, é normal sentir desgosto ou revolta ao saber que se tem um filho homossexual?

Muitos pais vivem uma sensação de perda quando descobrem, e isso é natural, tendo em conta as expectativas que tinham criado. Os medos fazem parte deste novo período, mas podem ser encarados como a casca de uma cebola. À medida que retira as camadas, ficará cada vez mais perto da essência da compreensão e da aceitação do seu filho homossexual. É normal sentir-se surpreso, em negação, com culpa ou raiva, mas com o tempo isso passará.

Que impacto pode ter o preconceito no desenvolvimento da criança?

A experiência de ser LGB para os jovens pode ser ameaçadora. De tal modo que a taxa de suicídios entre estes jovens é três a cinco vezes superior quando comparada com jovens heterossexuais. O preconceito ainda é grande, apesar das mudanças positivas que têm ocorrido. O que se passa é que os jovens antecipam a possibilidade de deixarem de ser amados e apoiados por quem mais amam (a família e amigos). E esta experiência de abandono é muito adversa.

Qual deve ser a atitude dos pais?

Os pais devem estar atentos aos seus próprios sentimentos (medo, ansiedade, raiva, desgosto, tristeza, indiferença) e impedir que essas reações gerem uma prisão moral devido ao que os outros possam pensar ou dizer. Devem abandonar crenças erróneas, informar-se acerca da homossexualidade e respeitar o desenvolvimento dos filhos. Devem também criar oportunidades para a comunicação, fazendo perguntas de forma natural, sem ser moralista e mostrando apoio.

Que erros devem ser evitados?

É necessário desconstruir mitos, estereótipos. Em vez de confrontar e forçar, encontre momentos para conversar calmamente. Em vez de se sentir lesado, comunique genuinamente os seus valores. Em vez de avaliar com base em ideias moralistas, religiosas ou sanitaristas (“não é natural”, “vais apanhar doenças”), mantenha as fronteiras apropriadas para chegar ao mundo do(a) seu/sua filho(a).

«Viver com um pai ou uma mãe “dentro do armário” é uma experiência muito negativa»

É possível que surjam pensamentos do tipo “não pedi para ter que lidar com isto”. Mas o seu filho também não e esta é, verdadeiramente, a luta dele. É necessário compreender que não é uma coisa passageira. Por isso, procure colocar as coisas em perspetiva para diminuir a ansiedade.

Os pais devem procurar apoio?

Saber que se tem um filho homossexual marca o início de uma transição importante na vida dos pais, na vida do filho e na relação entre ambos. A melhor atitude é pensar que esta nova fase pode ser uma lição de vida, baseada no crescimento humano. Mas, para que isto realmente aconteça, é necessário libertar-se das expetativas e condicionalismos. Não tem de passar por esta situação sozinho(a). Viver com um pai ou uma mãe “dentro do armário” é uma experiência muito negativa, cheia de evitamentos sociais e rutura de ligações com o mundo social. Além da família ou amigos, tem à sua disposição associações dedicadas a esta causa [Associações de Mães e Pais pela Liberdade de Orientação Sexual, Associação ILGA – Portugal, Associação de Jovens LGBT – Rede ExAequo e Linha LGBT ]. Pedir apoio não é sinal de fraqueza.


O psicólogo ensina

Colocar o facto de que tem um filho homossexual em perspetiva ajuda a lidar com a nova realidade. Henrique Marques Pereira, psicólogo clínico, explica-lhe como:

  1. Reconheça que deseja a felicidade do seu filho/a.
  2. Não dê o passo maior do que a perna e não vá a correr à marcha do orgulho pelos direitos LGB se não está confortável com isso.
  3. Comunique que o problema é seu e não do seu filho/a.
  4. Comprometa-se a tentar compreender e aceitar a homossexualidade.
  5. Dê a si e ao seu filho/a o tempo e o espaço de que ambos precisam para se habituarem à ideia. Pode ser necessário paciência e capacidade para resistir às frustrações.
  6. Diga a si mesmo(a) e ao seu filho/a aquilo de que precisa para avançar (falar com outras pessoas, deixar a poeira assentar, chorar, gritar…).
  7. Reconheça que colocar a cabeça debaixo na areia não é uma boa estratégia, pois não só o problema não irá desaparecer como o seu filho/a irá pensar que o(a) está a abandonar.
  8. Vá conversando e deixando transparecer os passos que está a dar no sentido da compreensão e aceitação desta nova situação.

 

Última revisão: Março 2015

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