Rogério Martins: «A Matemática não é um bicho-de-sete-cabeças»

Rogério Martins: «A Matemática não é um bicho-de-sete-cabeças»

Sabe o que é preciso para motivar o seu filho? Rogério Martins, professor, matemático e coautor do livro Isto É Matemática, desmistifica a disciplina e mostra-lhe o caminho.

  • PorCarlos Eugénio AugustoJornalista
  • FotografiaArtur

  • Entrevista aProf. Rogério Martins
    Professor e investigador no Departamento de Matemática da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa e coautor do livro Isto É Matemática (Texto Editores)

Para muitas crianças, a Matemática é sinónimo de ansiedade. Esse medo reflete-se nas (más) notas e falta de confiança com que encaram a disciplina. É por isso que a tarefa de motivar e ensinar Matemática é um desafio para professores e pais. A solução pode passar por «humanizar a disciplina e relacionar as suas matérias com o dia a dia, pois a Matemática está em todo o lado», diz, em entrevista à Revista Prevenir, Rogério Martins, professor e investigador no Departamento de Matemática da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa e coautor de Isto É Matemática, um livro baseado no programa de televisão homónimo que aposta na divulgação da Matemática de forma acessível, rigorosa e divertida.

Grande entrevista Rogério Martins, professor e matemático

Rogério Martins: «A Matemática não é um bicho-de-sete-cabeças»

«Devemos combater a ideia de que as pessoas, por defeito, não percebem de Matemática e o humor pode ajudar a desconstruir isso», defende Rogério Martins

Como surgiu a ideia de fazer um programa de televisão como o Isto É Matemática?

Um pouco por acaso. Tudo partiu de uma ideia de Nuno Crato, pouco antes de ter assumido a pasta de ministro da Educação, e o objetivo era aproximar a Matemática das pessoas, passar a ideia de que esta ciência está além da escola e é parte na nossa cultura. O projeto iniciou-se na Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM) e eu fui convidado. No fundo, tínhamos a ambição de mostrar que a Matemática é uma herança cultural.

Na televisão e, agora em livro, usam temas como o futebol ou uma série de ficção científica de forma divertida para simplificar ideias matemáticas. O humor é a chave para aproximar a Matemática das pessoas?

Sim, pode ser uma estratégia e resultou no programa. A Matemática ainda assusta as pessoas apesar de se querer saber mais sobre o tema, nem que seja para ajudar os filhos na escola. Devemos combater a ideia de que as pessoas, por defeito, não percebem de Matemática e o humor pode ajudar a desconstruir isso. O Isto É Matemática foi pensado para que as pessoas se divertissem, tal como acontece quando vão a um concerto ou ao cinema. A Matemática tem potencial para isso pois está relacionada com as nossas vidas e não é um bicho-de-sete-cabeças.

Assumimos a Matemática como uma disciplina abstrata mas em Isto É Matemática é possível associá-la ao quotidiano. Mas, o que é, afinal, a Matemática?

Essencialmente é uma abstração da realidade, tal como um mapa ou uma televisão, que permite chegar a um fim e que pode ser aplicada na vida real. Além disso, trabalha com padrões e explica o que várias ideias têm em comum, sendo redutor pensar que é apenas sinónimo de contas ou cálculos.

Como é que esse raciocínio pode ajudar-nos a gerir as tarefas do dia a dia?

A Matemática pode ser a chave para entendermos melhor o mundo? Acredito que sim. Mas, tendencialmente, somos muitos exigentes com a Matemática e no seu relacionamento com o dia a dia. Estamos sempre a perguntar onde estão as suas aplicações e para que serve. Mas, tal como outras matérias que aprendemos na escola, não conseguimos sempre aplicar a Matemática no quotidiano. Mas esta ciência dá-nos uma certa “bagagem” para as nossas intuições e decisões. Seja para comprar um carro ou ir de férias, a Matemática ajuda-nos a estabelecer, de forma implícita, uma estrutura mental para chegar a uma conclusão.

Portanto, ajuda a desenvolver o lado mais funcional…

Sem dúvida. Mas isso ainda pode melhorar, principalmente se se revissem os programas escolares e se optasse por matérias menos técnicas e mais estimulantes, tendo em vista a lógica e o próprio raciocínio. Ainda assim, podemos ter a certeza que estudar polinómios, trigonometria ou algoritmos nos ensina a pensar o mundo de forma mais racional, ainda que não se faça uma associação direta. Por exemplo, permite- -nos, entender como funciona um jogo como o Euromilhões e a probabilidade de ganhar (ou não) um prémio.

Rogério Martins, professor, matemático

«Não devemos forçar sempre a associação da Matemática à vida real, pois, o aluno também tem de perceber em que medida o que está a aprender se enquadra na sua vida e fazer ele próprio essa relação», defende Rogério Martins

Enquanto professor universitário, também utiliza o humor para motivar os seus alunos?

Tenho a tarefa facilitada pois ensino futuros engenheiros, gente predisposta a aprender Matemática. Uso o humor na sala de aula, mas nem sempre, pois aprender é um assunto sério e não tem de ser divertido. Em qualquer área, aprender implica trabalho árduo, exige esforço e pode ser duro.

Uma das principais queixas dos alunos é o conteúdo menos interessante dos programas. O que devia ser feito para tornar a disciplina mais apelativa?

Acima de tudo, humanizar a disciplina e relacionar as suas matérias com o dia a dia, pois a Matemática está em todo o lado. Nem tudo está mal e os métodos de ensino de hoje são mais apelativos e próximos dos alunos. Por outro lado, não devemos forçar sempre a associação da Matemática à vida real, pois, o aluno também tem de perceber em que medida o que está a aprender se enquadra na sua vida e fazer ele próprio essa relação.

«A Matemática não é diferente das outras disciplinas. Para ser bom aluno deve estar-se motivado, ser-se interessado pela matéria, dedicar-se e ter método»

As médias dos exames de Matemática a nível nacional são baixas quando comparadas com outras disciplinas. Qual a razão?

É um problema global, mas o panorama está a melhorar. Os resultados dos nossos alunos de ciências estão dentro das médias internacionais e tem vindo a existir uma melhoria progressiva. Isso acontece porque a sociedade está mais consciente da importância da educação, talvez porque os pais têm um nível de escolaridade mais elevado e valorizem o conhecimento, preparando os filhos para uma sociedade competitiva. Quando a família tem esse cuidado, os alunos ficam mais motivados.

As novas tecnologias podem ajudar nessa motivação?

Essa relação é uma grande incógnita. Tendencialmente, diria que sim, mas temos de esperar para ter noção de qual o efeito das novas tecnologias naqueles que já nasceram a mexer em gadgets. Hoje não vivemos sem computadores e as suas funcionalidades simplificam a nossa vida. Daí, acreditar que as novas tecnologias podem ajudar a ensinar e aprender Matemática, de preferência de forma criativa. Será difícil fugir a essa realidade e terá de ser um processo ponderado e adaptado, sem cair na tentação de que a educação possa ser substituível pelo Google ou YouTube.

Rogério Martins, professor, matemático

«Podemos tentar motivar os filhos, mostrando interesse genuíno por aquilo que estão a estudar, perguntando-lhes o que têm aprendido», refere Rogério Martins

É necessário estudar muito para ser um bom aluno a Matemática?

A Matemática não é diferente das outras disciplinas. Para ser bom aluno deve estar-se motivado, ser-se interessado pela matéria, dedicar-se e ter método. Agora, tratando-se de uma disciplina mais objetiva, a prática reflete-se de forma mais clara na avaliação. Enquanto pais, podemos tentar motivar os nossos filhos nesse sentido.

Como?

Mostrando interesse genuíno por aquilo que estão a estudar, perguntando-lhes o que têm aprendido. Essa atenção pode despertar a sua dedicação. Além disso, podemos motivar pelo exemplo ao introduzir o gosto pelas ciências e a Matemática em particular, incluindo essas temáticas nas atividades de tempos livres ou lazer. No fundo, incluir a Matemática nas nossas vidas.


Explicações: sim ou não? A opinião de Rogério Martins

«É um recurso que deve ser encarado como uma “terapia” temporária e não algo inevitável. Antes de recorrer a um explicador, é aconselhável motivar o aluno e perceber se poderá melhorar por si. O ideal é tornar o aluno autónomo pois isso melhora a sua autoestima uma vez que vai associar o sucesso e competência a si próprio», considera Rogério Martins.


Para estudar bem matemática, Rogério Martins aconselha…

Ensine o seu filho a fazer isto…

  • «É importante estabelecer uma programação do estudo de forma contínua e dar a mesma importância tanto à parte teórica como prática.»
  • «Fazer bons apontamentos e resumo.»
  • «Conseguir relacionar o que se está a aprender com a vida real e pensar a disciplina com um todo e não como um somatório de contas e cálculos.»

E a evitar estes erros…

  • «Pensar que basta decorar fórmulas sem procurar o seu significado, e contexto. Isso até pode resultar a curto prazo mas não permite ver o todo, remetendo para um saber mais vazio e apenas operacional.
  • «Não praticar com frequência e apenas estudar na véspera»
  • «Não tirar dúvidas logo no início das dificuldades».

5 jogos que desenvolvem o raciocínio matemático

Alguns jogos ou passatempos podem ser uma excelente forma de treinar o pensamento matemático. Rogério Martins dá exemplos e explica porquê.

  1. Xadrez
    «Treina a capacidade de estratégia num sentido mais alargado e num encadeamento de ações que pressupõe outras, estimulando o raciocínio lógico. É semelhante a uma fórmula matemática.»
  2. Sudoku
    «Apela à dinâmica estratégica e lógica tal como o xadrez só que, em vez de peças, usa números e tem regras mais simples.»
  3. Cubo mágico
    «Aguça a visualização espacial e desenvolve a componente lógica. Ajuda a entender que o raciocínio matemático está baseado em questões físicas e em processos algorítmicos.»
  4. 2048
    Este jogo de raciocínio «é um excelente exercício de cálculo mental».
  5. Puzzle mecânico
    «Desenvolve a habilidade estratégica e visualização espacial. Alarga a criatividade e a perseverança, algo que em Matemática é importantíssimo para a resolução de problemas.»
Última revisão: Novembro 2018

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