Obesidade infantil: o que os pais precisam de saber

obesidade infantil: causas, tratamentos

Se forem tomadas medidas, uma criança com obesidade infantil aos 5 anos tem 50 por cento de probabilidades de ser um adulto adequadamente nutrido. Mas se chegar à adolescência com excesso de peso ou obesidade já só terá entre 10 e 20 por cento de hipóteses de ser um adulto saudável. Eis o que os pais têm de saber.

  • Por
    Carla Mateus
    Jornalista

  • ColaboraçãoProfa. Dra. Ana Cristina Santos Professora da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e Investigadora do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto
  • Profa. Dra. Carla RêgoMédica pediatra do Hospital CUF Porto, professora da FMUP e da Universidade Católica e presidente do Grupo Nacional de Estudo e Investigação em Obesidade Pediátrica
  • Dra. Filipa Jardim da Silva Psicóloga
  • Profa. Luísa Fortes da Cunha Professora de Educação Física e coautora do livro Crianças Saudáveis, Famílias Felizes (Lua de Papel) 
  • Dr. Pedro Carvalho Nutricionista e coautor do livro Comer, Crescer, Treinar (Matéria-Prima)
  • Dra. Rita Santos Loureiro Nutricionista da Associação Portuguesa Contra a Obesidade Infantil (APCOI)

A ideia de que o peso a mais que se tem na infância desaparece por si só, à medida que se cresce, é errada. «Ao longo da trajetória de crescimento, a criança vai acumulando gordura excessiva, o que significa um aumento do número de adipócitos (células gordas). E uma célula gorda quando nasce não volta a ser perdida», conta Carla Rego, médica pediatra. O mais importante é prevenir o excesso de peso e não permitir que a situação escale em direção à obesidade. Mas, quando o problema se instala, existem saídas. Nesse trajeto, a proatividade, o compromisso e a solidariedade dos pais — e de toda a família — será crucial.

Mais de 30% das crianças em idade escolar têm excesso de peso ou obesidade infantil, uma percentagem que nos coloca entre os países da Europa com as maiores taxas de prevalência de obesidade pediátrica

Em todo o mundo, existem aproximadamente 40 milhões de crianças que sofrem de excesso de peso e obesidade infantil, sendo esta «atualmente a doença nutricional mais prevalente a nível mundial na idade pediátrica», relata a médica pediatra Carla Rêgo. Portugal não é exceção: mais de 30 por cento das crianças em idade escolar têm excesso de peso ou obesidade, uma percentagem que nos coloca entre os países da Europa com as maiores taxas de prevalência de obesidade pediátrica. Números preocupantes, ainda que dados do Childhood Obesity Surveillance Initiative (COSI), de 2016, revelem que, nos últimos anos, Portugal tem vindo a mostrar uma ligeira redução nas prevalências de excesso de peso e obesidade infantil em crianças dos 6 aos10 anos. Um estudo do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP), que avaliou a incidência da obesidade infantil em crianças da Área Metropolitana do Porto, concluiu que «a obesidade infantil na Geração XXI aumentou ao longo da infância, ou seja, há um incremento da incidência e prevalência de obesidade à medida que a idade das crianças aumenta», conta Ana Cristina Santos, coordenadora da investigação.

Quando é peso a mais?

A OMS define o excesso de peso e a obesidade como uma doença crónica em que uma acumulação anormal ou excessiva de gordura corporal pode atingir graus capazes de afetar a saúde. «O aumento de peso resulta de um excesso de calorias, superior às necessidades do organismo, por excesso de aporte (ingestão), por falta de atividade física ou por ambas», indica Carla Rêgo. Estes factos são válidos tanto na idade adulta como na infância, mas, para se definir se o peso da criança é ou não adequado, não basta recorrer a uma balança. Enquanto, nos adultos, o excesso de peso é calculado pelo índice de massa corporal (IMC), ou seja, o peso a dividir pelo quadrado da altura, na infância, esta avaliação é mais complexa devido às variações naturais decorrentes do crescimento. «Como a criança está a crescer, o denominador muda e não se podem utilizar os mesmos pontos de corte fixos do adulto», esclarece a médica pediatra. Em vez disso, o valor do IMC deve ser interpretado em função das curvas de crescimento, tendo por base tabelas de referência específicas para o sexo e idade das crianças. «É a localização do IMC da criança, nessas tabelas, que vai definir se tem excesso de peso ou obesidade», refere Carla Rêgo. De um modo geral, «considera-se excesso de peso quando o IMC é superior ao percentil 85 e obesidade quando este se encontra acima do percentil 95. Importa referir que o excesso de peso é uma situação de risco para obesidade, pelo que deve ser seriamente avaliado. A vigilância do crescimento e do comportamento alimentar deve ser feita pelo médico de família ou pediatra, porque a obesidade é uma doença».

A obesidade infantil em números

  • Aos 4 anos
    10% das crianças já são obesas e 22% têm excesso de peso, valor que aumenta para os 26% aos 10 anos.
  • Aos 7 anos
    A obesidade infantil atinge 15% das crianças.
  • Aos 10 anos
    17% das crianças são obesas.

Fonte: Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP), estudo coordenado por Ana Cristina Santos

Obesidade infantil: os fatores de risco

São vários os fatores que, em conjunto, potenciam o aumento do risco de as crianças terem excesso de peso ou de se tornarem obesas. «Hoje sabe-se que a obesidade infantil é um problema que pode iniciar-se ainda antes de a mulher engravidar, daí que a sua prevenção deva começar já nessa altura. O peso da mãe antes da conceção, o tipo de alimentação e o aumento ponderal durante a gravidez são fatores de risco para o desenvolvimento obesidade infantil», conta Carla Rêgo. A estes fatores de risco acrescem outros: o peso do recém-nascido e a sua composição corporal, a velocidade de aumento ponderal durante os primeiros anos de vida, o tempo de aleitamento materno e a idade em que se inicia a diversificação alimentar. A herança familiar e os genes também contam. Há pessoas «geneticamente mais poupadoras de energia que têm mais facilidade em engordar e os filhos de pais obesos apresentam um risco acrescido de vir a ter obesidade», refere a médica pediatra. Só cerca de quatro por cento dos casos de excesso de peso ou obesidade tem origem numa mutação de um gene da obesidade; «cerca de dois a quatro por cento dos casos referem-se à obesidade secundária e a outras doenças e os restantes 97 por cento tem causas comportamentais, ou seja, devem-se a uma alimentação hipercalórica e ao sedentarismo», revela a especialista.

O peso da mãe antes da conceção. O tipo de alimentação e o aumento ponderal durante a gravidez são fatores de risco para o desenvolvimento obesidade infantil», conta Carla Rêgo

Obesidade infanti: o peso dos hábitos alimentares

A raiz do problema é, sobretudo, o nosso padrão alimentar, marcado pela «ingestão de alimentos ricos em energia, gordura e açúcar, mas pobre em vitaminas, minerais e outros micronutrientes saudáveis», refere Rita Santos Loureiro, nutricionista da Associação Portuguesa Contra a Obesidade Infantil (APCOI). «No estabelecimento onde leciono, vejo muitos jovens a chegar à escola sem terem tomado o pequeno-almoço», revela Luísa Fortes da Cunha, professora de Educação Física e coautora do livro Crianças Saudáveis, Famílias Felizes (editora Lua de Papel). Outras vezes, «são capazes de sair de casa com um pacote de bolachas e um refrigerante – opções carregadas de açúcar e químicos, desconhecendo que este tipo de alimentos lhes dificulta a memória de que vão precisar durante as aulas», conta. Uma situação «muito importante de evitar nas crianças, uma vez que as nossas preferências alimentares são definidas neste grupo etário», refere. Para inverter a situação, o nutricionista Pedro Carvalho, coautor do livro Comer, Crescer, Treinar (Matéria-Prima), defende que é necessário «encontrar forma de aumentar o volume de alimentos ingeridos para controlar o apetite, mas ao mesmo tempo diminuir o aporte calórico», assim como é preciso «identificar uma forma mais fácil de aumentar a atividade física nestas idades, de acordo com aquilo que é possível para a família e que a criança goste de fazer».

Perder peso sem dieta: 6 estratégias que ajudam muito

Alterar o estilo de vida é essencial para combater a obesidade infantil. Estas pequenas mudanças podem fazer uma grande diferença.

  1. Refeições em família
    «Devem ser um momento de reunião familiar, com horários regulares e sem televisão por perto. É um momento privilegiado de trocas afetivas e de partilha entre os membros da família, pelo que se recomenda que façam, pelo menos, uma refeição em conjunto», aconselha a psicóloga Filipa Jardim da Silva.
  2. Dar o exemplo
    «Como líderes, os pais têm de ser os primeiros a assumir a responsabilidade e ver o que podem mudar no seu próprio comportamento alimentar. Num lar onde não entram bolachas, refrigerantes, batatas fritas, e onde todas as refeições começam com sopa e os pais dão o exemplo, existem condições para que a criança consiga manter o peso de forma saudável e sustentável», salienta Pedro Carvalho, nutricionista.
  3. Cinco refeições por dia
    «A criança e a família devem fazer, pelo menos, cinco refeições por dia, evitando jejuns longos e nunca “saltar refeições”, particularmente o pequeno-almoço. As refeições principais devem ser iniciadas com sopa ou um prato de legumes cozinhados ou vegetais/ saladas e a única bebida a ser consumida diariamente é água», aconselha a médica pediatra Carla Rêgo.
  4. Quantidade q.b.
    Em casa, «cozinhe apenas a quantidade de comida suficiente e prepare os pratos ao balcão, não colocando travessas na mesa. Se não houver comida à vista, a tentação de repetir é menor e os pais evitam cair no erro de dizer “tu não podes comer mais”», refere a pediatra.
  5. Pôr todos a mexer
    «Uma boa maneira de incentivar as crianças a fazer exercício é ter os pais como exemplo», aponta Luísa Fortes da Cunha. Outra solução passa por «restringir o tempo passado em frente aos ecrãs e nos jogos de computador».
  6. Recompensar a criança
    Utilizar o reforço positivo para premiar a ingestão de alimentos é uma técnica eficaz para recompensar um comportamento desejado, no entanto, «não deve ser feito através da oferta de doces ou outros alimentos não saudáveis», adverte Rita Santos Loureiro. Em vez disso, «os pais devem optar por recompensar com medalhas de mérito (mesmo que sejam de papel para afixar no frigorífico) ou proporcionando momentos divertidos em família», sugere a nutricionista.

Obesidade infantil: o impacto na saúde

O efeito da obesidade está longe de ser estético. Ela «compromete todos os órgãos e sistemas, contribuindo para o desenvolvimento de doenças como colesterol elevado, hipertensão, diabetes tipo 2, fígado gordo e problemas ortopédicos», aponta Carla Rêgo. O “gordinho” de hoje pode bem ser o obeso de amanhã. As consequências do excesso de peso na criança tendem a surgir em idades cada vez mais precoces e a persistir na idade adulta, acrescenta ainda a médica pediatra Carla Rêgo: «São problemas que vão hipotecar a qualidade de vida da população e reduzir a expectativa de vida, pois mesmo que o indivíduo venha a ter um peso adequado vai ter um maior risco de desenvolver este tipo de doenças na idade adulta». Ou seja, os quilos a mais podem significar anos a menos.

Mais insegurança, menos autoestima

A par do impacto na saúde física, o peso a mais também pode ter consequências a nível cognitivo e emocional, especialmente nos casos de bullying. Na infância, o primeiro choque dá-se na escola, quando a criança é confrontada pelos colegas e começa a ter perceção da sua diferença corporal. «É uma altura crucial, uma vez que as crianças começam a estruturar a sua imagem corporal por volta dos 6 ou 7 anos», alerta Carla Rêgo. Mais tarde, por volta dos 9 anos, «começam a não gostar da própria imagem, a perder a autoestima e autoconfiança», revela. É também nesta altura que a criança tende a sofrer as consequências psicológicas, emocionais e sociais do excesso de peso. «Podemos ter crianças mais inseguras do seu valor pessoal, com base na insatisfação que sentem com o seu corpo e em possíveis situações de discriminação/crítica social que possam sofrer», refere a psicóloga Filipa Jardim da Silva. Com a autoestima diminuída, cresce a ansiedade, o isolamento e a vergonha e, com eles, surgem consequências negativas ao nível do rendimento escolar e do desenvolvimento de competências físicas e sociais que podem deixar marcas para a vida.

Se o seu filho tem peso a mais, evite estes erros

  • Não “vestir a camisola” da mudança
    Segundo Rita Santos Loureiro, «toda a família deve empenhar-se no mesmo objetivo, incentivando um espírito de companheirismo e união que mostre à criança que não estão apenas a tratar o seu problema de saúde: estão todos a tornar-se mais saudáveis».
  • Culpar a criança pelo peso a mais
    «Nenhuma criança gosta de ter excesso de peso e de ser vítima de comentários desagradáveis dos colegas que, nestas idades, são particularmente cruéis. Daí que, em casa, o ambiente familiar tem de ser extremamente protetor, não culpando a criança pelo peso que tem», sublinha o nutricionista Pedro Carvalho.
  • Usar a comida como prémio ou castigo
    «É essencial não atribuir à comida um valor simbólico, usando-a como moeda de troca, recompensa ou castigo ou equivalente de amor e segurança com as crianças», alerta a psicóloga Filipa Jardim da Silva.
  • Ser controlador e restritivo
    «Os pais devem evitar tornar-se “polícias alimentares” mesmo quando os filhos têm excesso de peso, visto que demasiado controlo pode gerar resultados contrários às intenções dos progenitores», diz a psicóloga.

Efeitos da obesidade infantil nos resultados escolares

O desempenho escolar da criança pode ficar afetado «pela menor disponibilidade mental para o estudo, mas também devido à má alimentação, que não favorece um cérebro ágil, focado e saudável. Pode haver alterações no sono, instabilidade de humor e dificuldades de concentração», descreve Filipa Jardim da Silva. Crianças com excesso de peso também se cansam com mais facilidade e têm dificuldade em mexer-se. Na escola, as aulas de Educação Física refletem o impacto do peso a mais. «O comportamento típico de uma criança obesa numa aula de Educação Física é marcado pelo desinteresse e a vergonha da sua aparência corporal, vergonha em se expor perante a turma. Como tem receio dos comentários dos outros, acaba por não investir na aula», conta a professora Luísa Fortes da Cunha. «O obeso tem grande dificuldade em realizar os exercícios que são propostos pelo professor», constata, explicando que, geralmente, «é nas áreas ligadas à organização do espaço temporal e do equilíbrio que se verificam essas dificuldades».

«Uma criança obesa aos 5 anos tem 50% de probabilidades de ser um adulto saudável se forem tomadas medidas. Contudo, se chegar à adolescência com excesso de peso ou obesidade, já só terá entre dez e quinze por cento de hipóteses de ser um adulto adequadamente nutrido», adverte a médica pediatra Carla Rêgo

Obesidade infantil: procurar ajuda é essencial

«Quanto mais precoce for a intervenção médica, maior o sucesso», indica Carla Rêgo, acrescentando que «na adolescência a taxa de insucesso é brutal e não há praticamente nenhuma cura da obesidade». Por essa razão, o tratamento baseia-se, antes de mais, na prevenção. Segundo Carla Rêgo, os primeiros anos de vida da criança são críticos para o desenvolvimento das regras alimentares e para o treino do paladar/ texturas, «o que significa que a prevenção deve começar numa idade precoce. É muito mais fácil manter uma criança dentro dos parâmetros normais de peso do que levar uma criança obesa a emagrecer e a manter um peso saudável», reforça. Por sua vez, quando o problema se instala, a ajuda médica é vital. Segundo Carla Rêgo, o aumento rápido de peso ou o desajuste em relação à estatura são sinais de alerta que devem levar à procura de ajuda profissional tão cedo quanto possível. «A abordagem inicial deve ser feita pelo pediatra da criança ou pelo médico de família, que procurarão, se necessário, o apoio de pediatras em centros de referência de obesidade infantil e de uma equipa multidisciplinar de profissionais com formação nesta área, nomeadamente nutricionista, especialista em exercício e psicólogo», descreve. O tratamento assenta em dois grandes pilares: «Na reeducação do comportamento alimentar no contexto familiar e escolar e na mudança do estilo de vida em termos de atividade física», adianta a médica pediatra, ressalvando que «a intervenção deve ser sempre personalizada».

«Não se pode esperar que uma criança coma os legumes que tem no prato se os seus pais não o fazem. Tal como será muito complicado para a criança resistir a beber um sumo empacotado se for permitido ao seu irmão fazê-lo»

O exemplo dos pais

A forma como os pais atuam é crucial para a superação do problema. «Os pais têm de ter noção de que são os educadores. São eles que decidem o que dão aos filhos e, como tal, têm de assumir as consequências das suas escolhas», defende Carla Rêgo. São os pais que servem de modelos de referência. Muitas vezes, «ao ver a fisionomia dos pais em consulta, podemos perceber as razões pelas quais a criança tem excesso de peso», confessa Pedro Carvalho. «Hoje existem demasiadas tentações alimentares quando saímos de casa, por isso, se até em casa esse equilíbrio não for conseguido, será praticamente impossível manter um peso saudável», alerta. Assim o primeiro passo dos pais é dar o exemplo, adotando um estilo de vida saudável. «Devem, por um lado, incentivar o consumo de alimentos saudáveis e promover momentos de lazer que impliquem atividade física em família. E, por outro, limitar a disponibilidade em casa de alimentos não saudáveis, bem como o número de horas passado em atividades sedentárias, como aquelas que são despendidas em frente aos ecrãs», aconselha Rita Santos Loureiro. É também importante «transmitir mensagens de segurança e união», «explicando que, por vezes, deixar de comer alguns alimentos que se gosta em prol de outros que são mais saudáveis nem sempre é fácil e exigirá algum esforço, mas no final irá valer a pena, pois irá sentir-se melhor e ter mais energia para brincar ou estudar», refere a nutricionista.

Opções saudáveis na lancheira

Considerando a importância dos lanches para a saúde das crianças, a nutricionista Rita Santos Loureiro dá três sugestões para trocar lanches calóricos por opções nutritivas.

  • Bolachas recheadas com iced tea empacotado
    substitua por
    Rodelas de banana recheadas com manteiga de amendoim (ou outro fruto oleaginoso) com infusão de frutos vermelhos e maçã fresca
  • Pão doce com pepitas de chocolate
    substitua por
    Wrap de trigo integral com queijo creme, fatias de morango e rúcula
  • Iogurte açucarado com pedaços ou pepitas para misturar
    substitua por
    Boião de iogurte natural sem açúcar adicionado, com muesli e pedaços de pêssego preparado em casa

Combater a obesidade infantil: um projeto familiar

«Mais do que convencer ou obrigar a criança seja ao que for, é importante que lhe deem informação, recursos e modelos de inspiração para um estilo de vida mais saudável», reforça Filipa Jardim da Silva, Desta forma, «estarão a assegurar que, aos poucos, a criança, por si só, será capaz de fazer escolhas diferentes, encarando mais a comida como uma medicação natural, com impacto no seu humor, atenção, energia e saúde global», esclarece a psicóloga. Para que a criança seja eficaz na manutenção ou perda de peso, é preciso que toda a família se comprometa com uma mudança de hábitos. Como tal, «o plano alimentar seguido pela criança com excesso de peso ou obesidade deve ser realizado tanto pelos pais, como pelos irmãos, avós ou outros familiares com os quais convivam diariamente», indica Rita Santos Loureiro. Os momentos de refeições devem ser partilhados por toda a família num ambiente tranquilo, até porque, como realça Filipa Jardim da Silva, «mais do que aquilo que é dito, importa o que a criança observa à sua volta, todos os dias». Uma opinião partilhada pela nutricionista da Associação Portuguesa Contra a Obesidade Infantil: «Não se pode esperar que uma criança coma os legumes que tem no prato se os seus pais não o fazem. Tal como será muito complicado para a criança resistir a beber um sumo empacotado se for permitido ao seu irmão fazê-lo».

Sem dramas: como gerir os doces

«O consumo de doces e de outros alimentos não saudáveis deve diminuir ou mesmo ser eliminado de forma gradual, sempre com uma perspetiva motivadora e através de jogos e objetivos semanais. Inicialmente, esse tipo de alimento deve ser permitido de forma pontual, sendo estabelecida a sua redução a cada semana que passa. Quando esse hábito estiver bem interiorizado, é hora de introduzir uma nova mudança, mantendo a anterior. O processo deve continuar até se tornar um hábito natural consumir este tipo de alimentos apenas em momentos fora da rotina, de preferência mensais, como nos dias de festa», explica Rita Santos Loureiro, nutricionista.

Dietas restritivas, não

Em termos alimentares, a solução passa pela reeducação alimentar da criança e da família. «É preciso ensinar a comer de tudo de forma saudável e desde a mais tenra idade, explicando quais os alimentos que devem ser oferecidos diariamente e aqueles que não devem fazer parte da dieta regular da criança, como bolachas, sumos, pães empacotados e sobremesas», diz Carla Rêgo, ressalvando que «não se deve ser fundamentalista. Tudo é permitido, mesmo em crianças com excesso de peso e obesidade marcados». O plano alimentar tem de ser equilibrado, baseado numa mudança a longo prazo dos hábitos alimentares, mas sem proibições. «Uma restrição alimentar implica necessariamente desequilíbrio emocional e, como tal, nunca se deve fazer dieta, muito menos em idade de crescimento», explica a médica pediatra. Até porque «castrar ou proibir provoca, na maioria das vezes, o efeito contrário, ou seja, leva à desmotivação, ao abandono do plano, à depressão, tudo aquilo que não se pretende», esclarece.


Ensine-o a gostar de vegetais

«Há que respeitar o gosto pessoal da criança, mas deve-se manter a assertividade de dizer que é necessário gostar de algumas opções dentro dos grupos das frutas e dos legumes», recomenda o nutricionista Pedro Carvalho.

  • Não pressione
    «Algumas crianças são resistentes à mudança e pressioná-las pode ter o efeito contrário, conduzindo à recusa de experimentar alimentos novos», alerta Rita Santos Loureiro.
  • Varie as opções
    Aprender a apreciar sabores e texturas é um processo que demora. Por isso, quanto mais cedo começar, melhor. Não anuir ao primeiro “não gosto” é fundamental, pelo que é essencial «expô-las a vários tipos de frutos e de legumes, incentivando-as a experimentá-los várias vezes», recomenda Rita Santos Loureiro.
  • Confecione-os
    Cozinhar ou saltear os legumes ajuda a torná-los mais atrativos aos olhos e paladar dos mais novos, da mesma maneira que «incorporar os legumes no arroz ou na massa é uma forma de dissimular o seu consumo e fazer com que a criança se habitue ao seu sabor», sugere Pedro Carvalho.
  • Conte uma história
    «A leitura de contos associados a práticas saudáveis e ao consumo de legumes, que estimulam as crianças a adotar os comportamentos das personagens» ajuda, segundo a nutricionista da Associação Portuguesa Contra a Obesidade Infantil.

Ser flexível é importante

Um plano alimentar com vista à perda de peso na infância «tem de ter flexibilidade e abertura. Negociar algumas cedências na parte alimentar e falar a mesma linguagem que a criança ou adolescente é fundamental para que o plano consiga ser cumprido», afirma Pedro Carvalho, nutricionista. «A alimentação deve ser variada e equilibrada, garantindo a presença diária e regular de alimentos saudáveis e apelativos. A fruta e os legumes são excelentes exemplos pelos seus teores de vitaminas, minerais e fibra», lembra Rita Santos Loureiro. Diminuir o consumo de alimentos altamente energéticos – batatas fritas, bolos, bolachas, refrigerantes e bebidas açucaradas – é um princípio a seguir. «Os alimentos calóricos e ricos em gordura, açúcar e sal devem ser limitado» e atenção à quantidade: «As crianças não necessitam de porções tão grandes como os adultos», lembra Rita Santos Loureiro. Igualmente importante é a promoção da atividade física em família. Podem ser atividades estruturadas, como futebol ou natação, ou simplesmente brincar à apanhada ou andar de bicicleta em família. A escolha é vossa, mas toca a mexer!

Alimentos que parecem saudáveis, mas não são

Há alimentos que parecem saudáveis, mas acabam por dificultar o processo de perda de peso. Os nutricionistas Rita Santos Loureiro e Pedro Carvalho ajudam a identificá-los.

  • Néctares e outras bebidas empacotadas.
  • Bolachas Maria/água e sal.
  • Iogurtes e sobremesas lácteas dirigidos ao público infantil.
  • Cereais de pequeno-almoço açucarados.

O que nunca dizer ao seu filho

Para a psicóloga Filipa Jardim da Silva, «todas as afirmações críticas e discriminativas que colem valor pessoal a imagem corporal ou amor/desamor a peso são um erro». Estas expressões «devem ser mantidas fora do discurso em detrimento de reforços positivos», aconselha a médica pediatra Carla Rêgo.

Em vez disto:

  • “És gordo”
  • “Não comas isso porque engorda”
  • “A culpa de seres assim é tua”
  • “Não podes comer isso”

Diga isto:

  • “Se comeres isto, vais ter mais força”
  • “Isto faz-te crescer”
  • “Ficas mais inteligente”

Exercício físico: qual o melhor?

A par da atividade física espontânea, como jogar à bola ou andar de bicicleta, «os pais têm a obrigação de pôr as crianças a fazer um desporto. Faz parte da promoção da saúde e da prevenção da obesidade», considera a médica pediatra Carla Rêgo. Nestas idades, o ideal é optar pelas modalidades que a criança mais gosta de praticar. Para a professora Luísa Fortes da Cunha, «os desportos coletivos, como andebol, basquetebol, futebol e rugby são excelentes atividades porque têm uma componente competitiva, tão do agrado das crianças e jovens». Devem ser praticadas «três vezes por semana, sempre com roupa e calçado adequado à modalidade», recomenda.

Última revisão: Setembro 2019

artigos recomendados

Previous Next
Close
Test Caption
Test Description goes like this