Educar sem castigos

Aprenda a educar sem castigos o seu filho, tendo por base as premissas da disciplina positiva.

Será possível educar os nossos filhos sem punições nem autoritarismo? A “disciplina positiva” diz-nos que sim e garante-nos mais: a longo prazo, os resultados de educar sem castigos são mais efetivos. Saiba como o fazer.

  • PorSofia Santos CardosoJornalista

  • Entrevista aNuno Pinto MartinsEducador de famílias em Disciplina Positiva

Educar sem castigos não é uma utopia, segundo os princípios da Disciplina Positiva – fundada nos EUA nos anos 1930 e posteriormente desenvolvida, nos anos 80, pelos psicólogos Jane Nelsen e Lynn Lott. É possível educar com base no respeito mútuo, atuando sempre com firmeza e amabilidade ao mesmo tempo. Nuno Pinto Martins, educador de famílias, com certificação internacional em Disciplina Positiva, fundador da Academia Educar pela Positiva e coautor do site Chupeta VIP, é apologista deste modelo educacional.

Pai de duas crianças com 7 e 3 anos, quer fazê-lo chegar a outros pais e educadores. «A Disciplina Positiva permite encontrar o “meio termo” entre o autoritarismo e a permissividade que estão constantemente presentes nos métodos tradicionais», conta em entrevista à Revista Prevenir. O segredo? «Os pais devem focar-se nas razões que estão por detrás de determinados comportamentos em vez de se focarem no comportamento em si, procurando sempre soluções positivas».

De que modo esta forma de educar “pela positiva” pode ajudar as crianças a tornarem-se adultos mais saudáveis?

Como diz Jane Nelsen, a cofundadora da Disciplina Positiva, “as crianças portam-se melhor quando se sentem melhor”. Os princípios e as “ferramentas” deste modelo educativo têm sempre em conta a individualidade de cada criança. E ensinam-lhes a tornarem-se mais responsáveis, cooperantes, respeitosas, autónomas e, consequentemente, mais felizes. No fundo, ajudam os mais novos a resolverem os desafios com que se deparam. Ao mesmo tempo, ensinam-lhes importantes habilidades sociais e de vida, como autodisciplina, autocontrolo ou cooperação, que lhes permitirão tornar-se adultos capazes e bem integrados na sociedade.

Quais as desvantagens dos métodos mais tradicionais?

Com as rotinas e preocupações que a maioria de nós (pais) tem, não é fácil que haja disponibilidade mental para educar os filhos ao final do dia. Quando chegamos a casa, há a necessidade de termos tudo sob controlo. Tendemos a optar sempre pelo autoritarismo até chegarmos ao ponto em que nos sentimos culpados. Achamos que fomos demasiado duros e exigentes, e, nesse momento, “saltamos” para o outro extremo, o da permissividade. Fechamos os olhos ao que normalmente estabelecemos como regras. Depois voltamos ao autoritarismo quando já não suportamos ser tão permissivos, nem ver os nossos filhos a serem tão insolentes. Inevitavelmente, entramos numa luta de poderes. É aqui que pode entrar a Disciplina Positiva, porque permite às famílias e aos educadores encontrarem um equilíbrio, um “terreno intermédio”, que não é punitivo nem permissivo.

«A punição ou o castigo resultam, mas apenas no curto prazo, porque põem fim ao “mau” comportamento no imediato. A longo prazo, resultam em rebeldia ou submissão»

Quais são as estratégias chave para atuar de uma forma positiva e efetiva?

Em primeiro lugar, é preciso consciencializarmo-nos, enquanto pais, de que somos a principal referência dos nossos filhos. E que eles são “espelhos”, ou seja, absorvem e reproduzem tudo o que veem e ouvem. Tendo isto presente, é necessário que sejamos coerentes. Não podemos dizer-lhes hoje uma coisa e amanhã outra. Também é preciso reservar tempo de qualidade para eles, saber escutar, dialogar e dar importância ao que pensam e sentem. Procurar a razão por detrás do comportamento, em vez de focar o comportamento em si, é outra estratégia essencial. Igualmente fundamental é envolver os nossos filhos nas soluções para os problemas, fazendo com que se sintam importantes e úteis. Também devemos evitar sobreprotegê-los. E nunca devemos ter medo de admitir quando erramos, porque essa atitude não nos fragiliza; pelo contrário, aproxima-nos e reforça a relação.

É possível educar sem castigos?

Sem dúvida. No entanto, não é fácil. É preciso ter tempo, paciência e criatividade. A maioria dos pais castiga porque é mais fácil, mas também porque não conhece alternativas, agindo muitas vezes como os seus pais agiram consigo. A punição ou o castigo resultam, mas apenas no curto prazo, porque põem fim ao “mau” comportamento no imediato. A longo prazo, resultam em rebeldia ou submissão. A criança que é constantemente castigada não terá vontade de melhorar nem estará a desenvolver sentido de responsabilidade. Mas, sim, medo de ser ela própria e, no futuro, provavelmente irá repetir aquele “mau” comportamento ou ter um outro qualquer.

De que forma podem os pais mais autoritários mudar a sua postura?

Tentando escutar mais os filhos, o que eles estão a pensar, a sentir e a decidir, deixando de querer impor tudo e apelando à cooperação, envolvendo-os mais nas soluções e dialogando. É essencial também que os pais tenham a capacidade de se acalmar nos momentos de conflito. Assim, poderão agir em vez de reagir, sem entrar numa luta de poderes e, claro, mostrando sempre um amor incondicional, associado à firmeza. Às vezes, o simples tom de voz que usamos para dizer determinadas coisas faz toda a diferença.


Estratégias para educar sem castigos

Nuno Pinto Martins sugere, para casos muitos concretos e frequentes, estratégias da Disciplina Positiva úteis que ajudam a educar sem autoritarismo ou punições.

– Não quer comer sopa

«A criança pode não gostar dos alimentos em causa ou pode comportar-se desta forma porque procura uma atenção excessiva dos pais.»

  • Faça assim
    «Teste vários alimentos até encontrar os que a criança mais gosta, com o cuidado de fazer opções saudáveis e variadas. Associe o momento da refeição a um momento feliz em família, por exemplo, contando histórias divertidas à mesa.»
  • Não faça isto
    «Obrigar a criança a comer torna o momento da refeição penoso. Premiar só vai criar dependência.»

– Atira-se para o chão no supermercado

«A criança pode estar cansada ou poderá querer chamar a atenção.»

  • Faça assim
    «Se a criança ainda for pequena, até aos 3 anos, o primeiro passo é retirá-la do local e depois distraí-la, mudando-lhe o foco para outra coisa. A partir dos três anos, já é preciso empatizar com a criança, mostrando que se compreende o seu sentimento e tentando resolver a situação em conjunto com ela.»
  • Não faça isto
    «Gritar, ameaçar com castigos, bater ou prometer algo em troca do “bom” comportamento».

– Não aceita a derrota

«Por vezes, as crianças sentem que não estão à altura dos desafios e a forma de o demonstrarem é “portando-se mal”, o que significa, normalmente, um pedido de ajuda.»

  • Faça assim
    «Anime a criança, mostrando-lhe que acredita nela e que ela é capaz. Ensine a superar obstáculos e a lidar com a frustração, dizendo que se trata de algo normal, admitindo que os próprios pais, por vezes, também o sentem.»
  • Não faça isto
    «Ter pena, criticar ou desvalorizar a situação. Para a criança, é importante que valorizem o que pensa e sente.»

– Insulta os pais

«Uma criança que tenha este tipo de comportamento poderá achar que não é importante. Por essa razão, fere os outros, pois também ela se sente ferida e acha que não pode ser aceite ou amada», explica o educador.

  • Faça assim
    «Converse com a criança sobre o que estão ambos a sentir e a pensar; tente mostrar-lhe que reconhece que ela se sente magoada. O mais importante é fomentar a confiança, mostrando carinho e compreensão.»
  • Não faça isto
    «Castigar ou aplicar represálias só intensificará a luta de poderes.»

– Mente

«Há crianças que mentem pontualmente, outras que mentem por medo de represálias ou vergonha e há aquelas que o fazem por sistema», refere Nuno Pinto Martins.

  • Faça assim
    «Tente identificar a razão que está por detrás do comportamento, para depois atuar de forma positiva e efetiva. Mostre compreensão e, ao mesmo tempo, seja firme. Tente fazer com que a criança entenda que agiu de forma errada, levando-a a propor uma solução respeitosa para todos, para que a situação não se repita.»
  • Não faça isto
    «Reprimir, censurar, castigar ou bater. São práticas que têm consequências negativas a longo prazo, causando designadamente rebeldia, submissão e baixa autoestima. E isso pode colocar em risco o vínculo emocional entre pais e filhos.»

– Bate aos pais

«Uma criança que bate nos pais pode ter como objetivo a vingança», alerta Nuno Pinto Martins. «Com este comportamento, a criança está a querer passar a mensagem tácita de que se sente magoada e que necessita que validem as suas emoções», explica.

  • Faça assim
    «Reconhecendo o sentimento da criança, procure escutá-la reflexivamente e converse com ela para tentar perceber os motivos que a levaram a tomar esta atitude. É essencial mostrar firmeza, confiança, carinho e compreensão.»

– Bate nos colegas da escola

«O ambiente escolar difere do ambiente em casa. A criança até pode ser um doce em família e agressiva na escola. O passo mais importante é encontrar as causas em conjunto com os educadores, para depois atuarem ambos de uma forma positiva», recomenda.

  • Faça assim
    «Em conjunto com os educadores, tente compreender os motivos que levaram a criança a agir desta forma. Procure criar situações em que a criança possa redirecionar a agressividade para algo positivo. Por exemplo, proporcionando uma brincadeira com o colega que o seu filho agrediu, levando-lhe um brinquedo para oferecer ou para brincarem juntos.»
Última revisão: Agosto 2017

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