Burnout parental: «Não existem crianças felizes com pais tristes e cansados»

Burnout parental: «Não existem crianças felizes com pais tristes e cansados»

São cada vez mais os pais com sintomas de esgotamento físico e emocional. Joana Martins, médica pediatra, explica o impacto do burnout parental e o que fazer para o prevenir, reagir e recuperar a confiança e felicidade de educar uma criança.

  • PorCarlos Eugénio AugustoJornalista

  • Entrevista aDra. Joana MartinsMédica pediatra

Para perceber o que é o burnout parental é primeiro preciso perceber que educar um filho é uma espécie de maratona. É uma exigente corrida com imensos obstáculos, sejam eles tarefas quotidianas como levar e apanhar o filho à escola, treinos de futebol ou aulas de ballet, preparar as suas refeições, escolher a roupa, agendar a próxima consulta médica, ajudar a fazer os trabalhos de casa ou dar banho. E, entretanto, há tarefas domésticas para fazer. Tudo isto depois de um longo dia de trabalho. E a única forma de cruzar a meta, enquanto vencedor, e estar consciente do caminho é saber como respirar e recuperar forças ao longo do percurso. São, contudo, cada vez mais os pais que se arrastam e perdem o prazer de participar na corrida. Este facto foi confirmado por um estudo realizado por investigadores do Instituto de Pesquisa em Ciências Psicológicas da Universidade de Louvain, Bélgica, que concluiu que entre oito e 14 por cento das famílias vive um cenário de esgotamento. Joana Martins, médica pediatra, assiste a essa realidade em consultório. «Infelizmente, verificamos que existem mais pais e famílias à beira de um ataque de nervos, a viver aquilo a que chamamos burnout parental, um estado de exaustão física, emocional e comportamental causado por um hiperenvolvimento e dedicação na educação dos filhos», descreve a médica pediatra à Revista Prevenir.

«Falamos de pessoas que, de tanto quererem dar o seu melhor, esgotaram os recursos e, por isso, sentem-se tristes, desmotivadas e sem a capacidade de dar a volta»

Por que há cada vez mais pais exaustos, em burnout parental?

Falamos de uma realidade que tem vindo a crescer nas últimas cinco ou seis décadas, ainda que, apenas recentemente, tem sido feita investigação de forma mais séria e sistemática sobre o burnout parental. Tornou-se comum falar de mães e pais cansados, sem recursos para a tarefa de educar nem confiança nos próprios instintos, mas, erradamente, não se dá o devido valor ao problema. E um cenário que reflete mudanças sociais, particularmente o facto de as mães terem conquistado projetos profissionais semelhantes e tão exigentes quanto os dos pais. No passado, na esmagadora maioria das vezes, a mulher assumia a responsabilidade pela educação das crianças. Este cenário mudou e obrigou a mulher a ser competente em duas frentes: profissional e parental. Alem disso, especialmente a partir dos anos 2000, houve uma grande divulgação dos princípios da parentalidade positiva, uma filosofia que visa reforçar os direitos das crianças e incentivar uma convivência mais presente e calorosa, com suporte emocional. Face a quotidianos complicados marcados pela falta de tempo livre, essa nova visão sobre a parentalidade veio aumentar a pressão nos pais para serem ainda mais competentes. O problema é que muitos associam essa competência a ideais de perfeição, e isso não existe. Ao não conseguir atingi-la, ficam frustrados, sentem-se perdidos e seguem, erradamente, comportamentos que os tornam ainda mais vulneráveis.

«O burnout parental está associado à sensação de incapacidade do ato de educar, surge dentro do contexto familiar e, na maior parte dos casos, não afeta outras competências»

Que tipo de comportamentos?
Em desespero, e com medo de falhar (ainda) mais, os pais ficam reféns da própria situação. Pensam que a solução é optar por uma atitude hiperempenhada, que, tendencialmente, vai elevar os níveis de exigência e proteção. Com isso, surge a vontade de manter os filhos 100 por cento felizes e 100 por cento do tempo (os famosos pais-helicóptero), porque todos queremos o bem dos nossos filhos, o que fragiliza a própria autoridade parental. Nestes casos, gera-se um efeito bola de neve e um desgaste e exaustão, que, quando crónicos, levam a um quadro de burnout parental. Falamos de pessoas que, de tanto quererem dar o seu melhor, esgotaram os recursos e, por isso, sentem-se tristes, desmotivadas e sem a capacidade de dar a volta.

«Um exemplo de burnout parental é alguém que passa o fim de semana miseravelmente e, quando chega a segunda-feira, fica aliviado porque vai finalmente conseguir almoçar descansado e libertar-se do peso de ser cuidador. Mas que fica em pânico com a ideia de regressar a casa depois de um dia de trabalho»

Falamos de pais deprimidos?
São questões diferentes. O burnout parental está associado à sensação de incapacidade do ato de educar, surge dentro do contexto familiar e, na maior parte dos casos, não afeta outras competências. Exemplo disso é alguém que passa o fim de semana miseravelmente e, quando chega a segunda-feira, fica aliviado porque vai finalmente conseguir almoçar descansado e libertar-se do peso de ser cuidador. Mas que fica em pânico com a ideia de regressar a casa depois de um dia de trabalho. Em contrapartida, a depressão é global, afeta-nos em qualquer cenário ou situação, tem um espetro continuo. Agora, um quadro de burnout parental crónico e não tratado pode contribuir para a depressão.

«É comum os pais referirem uma sensação crónica de cansaço»

Quais são os sintomas físicos do burnout parental?
É comum os pais referirem uma sensação crónica de cansaço. Com o agudizar desse estado de exaustão, podem surgir sintomas como alterações do apetite ou dos hábitos de sono. No limite, temos um maior risco de consumos toxicófilos e dependências.

«Alguns pais chegam a confessar que o momento mais esperado do dia é a hora de deitar as crianças para ter alguma paz»

E, em termos emocionais, o que indica que há um problema grave?
A desmotivação provocada pela sensação de perda de eficácia e competência leva a um afastamento ou a um isolamento emocional e a uma baixa autoestima que faz com que os pais atuem em “piloto automático”, sem capacidade de alterar rotinas, tornando o seu papel numa tarefa difícil e pesada. Alguns chegam a confessar que o momento mais esperado do dia é a hora de deitar as crianças para ter alguma paz. O sentimento de fracasso pode gerar ansiedade, irritabilidade e intolerância. Exemplo disso são os pais exaustos que podem perder a paciência e ter atitudes que, todos nós prontamente condenamos. Estamos a falar de pais que, fartos de arrumar brinquedos, começam a deitá-los para o lixo, ou pais que já não querem sair num sábado à tarde com os miúdos porque a confusão é tão grande que preferem ficar em casa, ou que desistem de ir a praia com os filhos porque estão fartos de arranjar marmitas.

Quem corre maior risco de ser arrastado para um cenário de burnout parental?
Se juntarmos as conclusões das pesquisas sobre o tema e a experiencia em consultório, sabemos que esse risco é maior para quem tem filhos menores de 5 anos, especialmente se estiver perante questões sociais precárias a nível financeiro, desemprego, pais que trabalham em part-time (pois acumulam a pressão laboral com o papel de cuidador mais interventivo e presente), casos de paternidade precoce (pela falta de experiência de vida e de reserva emocional para lidar com uma criança), cuidadores com baixas competências emocionais e/ou tendência para o perfeccionismo, e situações em que existam conflitos de autoridade parental ou insatisfação conjugal e em risco de separação.

«Por mais paradoxal que pareça, existem alguns contextos familiares que servem como fatores protetores para o burnout parental. Um deles é ter uma família monoparental por opção»

As famílias monoparentais têm um risco acrescido?
Depende. Por mais paradoxal que pareça, existem alguns contextos familiares que servem como fatores protetores para o burnout parental. Um deles é ter uma família monoparental por opção, independentemente de se ser pai ou mãe, como nos casos de procriação medicamente assistida. Os estudos mostram que, nessas situações, apesar do normal stresse, o processo de educar é mais pacífico, porque apenas existe um cuidador e em absoluto controlo e fortalecimento da sua autoridade, que não necessita de ser partilhada. Por outro lado, em caso de divórcio ou morte de cônjuge, o panorama complica-se bastante pelo drama associado à situação.

Quem tende a ser mais vulnerável ao burnout parental: o pai ou a mãe?
Ainda que exista uma maior prevalência do burnout parental nas mães, convém contextualizar e ressalvar que isso se deve ao facto de que ainda são elas as principais gestoras do projeto familiar e em quem mais recai a responsabilidade de cuidar dos filhos. Mas o que os estudos nos dizem é que quem está no olho do furacão é o cuidador, o gestor da família, aquele que sabe a quem pertencem as marmitas e reconhece a roupa de cada filho. Não interessa se é o pai ou a mãe, pois estamos perante níveis de incidência igual entre sexos. Mas, se essas tarefas são um exclusivo de apenas uma das partes, isso está errado e vai dar problemas. E, caso não exista uma reorganização familiar, fica mais perto de um quadro de burnout parental.

Quais são as principais consequências do burnout parental?
Em termos individuais, temos um pai, uma mãe, ou ambos, em profundo sofrimento, incapazes de cumprir o papel que idealizaram. Esse cenário gera sentimentos de culpa e vergonha, e pode até aumentar a probabilidade de rutura, de divórcio, pois os pais sentem-se desorientados e com necessidade de mudar, nem que isso signifique desistir de um projeto


Burnout parental: quem corre maior risco?

  • «Quem tem filhos menores de 5 anos, especialmente se estiver perante questões sociais precárias a nível financeiro, como o desemprego.»
  • «Pais que trabalham em part-time, pois acumulam a pressão laboral com o papel de cuidador mais interventivo e presente.»
  • «Casos de paternidade precoce, pela falta de experiência de vida e de reserva emocional para lidar com uma criança.»
  • «Cuidadores com baixas competências emocionais e/ou tendência para o perfeccionismo.»
  • «Casais em que existam conflitos de autoridade parental ou insatisfação conjugal e em risco de separação.»

Como prevenir o burnout parental

Joana Martins, médica pediatra, indica como evitar o esgotamento parental e «reforçar, de forma sólida e consciente, a relação entre pais e filhos».

  • Analise a relação com o(s) seu filho(s). «É urgente e determinante entender que precisamos de uma nova relação com os nossos filhos, sempre com o objetivo de reforçar os laços emocionais. E que eles só vão mudar se nós mudarmos, por via de um processo de “imitação”.»
  • Desconstrua a ideia da paternidade perfeita. «A autoimposição de uma paternidade 100 por cento positiva e a idealização de uma educação perfeita são dados irrealistas, e, perante alguma falha, geram dúvidas sobre a competência, aumentam o stresse e a sensação de culpa. Aprenda a conhecer os seus limites e interiorize a máxima “mais vale feito que perfeito”.»
  • Peça ajuda. «É, provavelmente, o passo mais complicado. Esse apoio pode vir de familiares e amigos, mas, nesse caso, o “contra” é correr o risco de sermos julgados. Outra possibilidade é consultar um psicólogo. Ambas as opções devem servir para partilhar dúvidas, avaliar a situação e criar competências para gerir conflitos e formas de (re)agir.»
  • Exija tempo para si. «Além de pais, somos mulheres e homens que precisam de tempo e espaço próprios, sem crianças. Isso permite reconectar-se e alivar situações de pressão e stresse. Assim, peça a familiares, amigos ou a uma babysitter para ficar com a(s) criança(s), e tire uma hora por dia para fazer o que quiser. Se, ao início, não conseguir uma hora, tente 20 minutos e aumente gradualmente esse período.»
  • Faça um diário com pequenas vitórias. «Registe as vossas conquistas, por mais insignificantes que possam parecer, e sinta-as como um progresso. Nem que seja ”hoje consegui vesti-lo sem que fizesse birra!”.»

Ser pai ou mãe equivale a 2,5 trabalhos a tempo inteiro

«A paternidade é uma tarefa sem pausas ou férias, e muito desgastante. Estima-se que fazer o planeamento com uma criança a tempo inteiro equivale a cerca de 2,5 trabalhos a full-time. Se se tratar de uma família numerosa e com diferenças de idade, é como gerir uma empresa de média dimensão», compara Joana Martins, médica pediatra.

Última revisão: Outubro 2019

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