O que é preciso para ser um bom pai?

ser pai

Três especialistas traçam o retrato do que é preciso para que ser pai seja uma experiência enriquecedora e feliz. Para progenitores e filhos.

  • Recolha e ediçãoCarlos Eugénio Augusto

  • ColaboraçãoDr. Luís BorgesNeuropediatra
  • Dr. Mário CordeiroPediatra
  • Dr. Nuno Lobo AntunesNeuropediatra

Durante décadas, especialistas da área da parentalidade defendiam que o elo mais importante da vida de uma criança era aquele que era desenvolvido com a sua mãe. Muito, talvez,  por culpa da ligação biológica que se estabelece durante a gravidez. Hoje, o paradigma alterou-se. Está provado que a presença e amor do pai são igualmente decisivos na vida e evolução saudável de um filho. E, por isso, a educação deve ser um trabalho de equipa entre os dois progenitores.

Nuno Lobo Antunes, pai de três filhos

Neuropediatra

Nuno Lobo Antunes

Nuno Lobo Antunes, neuropediatra, pai de três filhos

«Um bom pai educa pelo exemplo. Ama com tranquilidade os seus filhos e consegue transmitir-lhes a segurança desse amor. Mas ser pai é também compreender e alertar que existem consequências para as escolhas. Dar liberdade, aconselhar, aceitar o exercício da mesma e ter a capacidade de lidar com as diferenças de forma inteligente. De preferência em equipa com a mãe dos seus filhos. Essa cooperação e o que resulta das suas diferenças biológicas tornam a intervenção paterna complexa. O pai é ainda uma figura que luta para atingir o patamar de excelência empática e emocional da mãe, sem perder o seu lado mais prático.

O segredo é estabelecer vasos comunicantes com os filhos pela partilha de gostos. Essa aproximação é hoje, em comparação com os nossos pais ou avós, mais efetiva. Temos menos filhos e logo mais tempo para lhes dedicar. Hoje, os pais acompanham mais os filhos nas minhas consultas, revelando maior interesse, disponibilidade e sentido de responsabilidade em relação à educação e saúde.»

O neuropediatra Nuno Lobo Antunes ensina:

  • «A paternidade ensina-nos muito quanto à vida e ao seu valor, à própria existência e ao privilégio que é estar vivo.»
  • A paternidade revela-se «uma experiência única e nenhum manual pode ensiná-la. Cada filho é um desafio particular e as poucas certezas que temos é a impossibilidade de regatear o amor ou a nossa presença».
  • É importante «ter uma relação de partilha com os filhos, com a paixão de passarmos tempo juntos. Mas também temos de estar preparados para “dividir” a sua atenção com elementos estranhos ao núcleo familiar».

Luís Borges, pai de três filhas

Neuropediatra

Luís Borges

Luís Borges, neuropediatra, pai de três filhas

«A educação é um trabalho de equipa entre pai e mãe e, por vezes, irmãos, mas, nas últimas décadas, o papel de pai foi ganhando importância. Esse estreitar de laços possibilita uma distribuição de tarefas que torna a figura do pai mais afetiva, presente e interveniente. Essa proximidade traz novas questões e aprendizagens. É por isso que recomendo especial atenção sobre as necessidades dos filhos, apelando ao sentido de proatividade e intervenção na proteção e educação.

À medida que avançamos na vida recebemos novos ensinamentos e regras, e muitos deles são os filhos que nos transmitem. A paternidade é uma relação de dois sentidos, dar e receber. E, quando lidamos com coisas novas, é muito normal e frequente errarmos, algo que a experiência nos ajuda a ultrapassar.»

O neuropediatra Luís Borges ensina:

  • «Devemos promover o contacto dos nossos filhos com atividades lúdicas e evitar que centrem exclusivamente a sua atenção nas redes sociais ou consolas, algo que tende a isolá-los, principalmente na adolescência.»
  • Os principais erros dos pais «são o não acompanhamento das atividades dos filhos, seja na escola ou nos tempos livres, por alegada falta de tempo ou cansaço, ou a inexistência de diálogo».
  • Um pai separado «deve passar a mensagem aos filhos que estes são o seu bem mais precioso e que não é o divórcio que vai colocar isso em causa».

Mário Cordeiro,  pai de uma filha e quatro filhos

Pediatra

Mário Cordeiro

Mário Cordeiro, pediatra, pai de uma filha e quatro filhos

«Ser pai é estar presente, mostrar aos filhos que são amados e que eles também nos amam. Não ter receio de desenvolver afetos, saber educar e estabelecer limites. Encaminhar a criança no percurso de vida para que venha a ser uma pessoa, cidadão e profissional íntegro, honesto, rigoroso, que respeita os outros, brioso, com uma clara noção da ética e socialmente solidário, que saiba estar, sentindo-se bem em companhia. A par de estimular o gosto pela aprendizagem, pelo saber, pelo “ir além”.

Durante milénios, as mães é que tomavam conta das crianças, no chamado “cuidar”. Os pais apenas surgiam “em jogo” no final do primeiro “não” e apenas para ralhar, perguntar pelos estudos ou para brincadeiras. Agora, pais e mães completam-se.

«Seria excelente que os pais se libertassem do eterno complexo de culpa por não estarem com os filhos mais tempo»

Nas minhas consultas, por exemplo, tenho geralmente o casal à minha frente, mas, por vezes, apenas o pai. São contingências da vida. Seria excelente que os pais fossem mais espontâneos e se libertassem do eterno complexo de culpa por não estarem com os filhos mais tempo. Estão o tempo que podem.

E não devem ter medo de errar, de ter dúvidas. Essa fragilidade tem de ser vencida e convencendo-se que são bons pais, refletindo sobre isso e ganhando graus de liberdade a cada dia. Percebendo que não se pode ter tudo, que a vida é uma arte de gerir o possível. Se se quer ser um pai presente, não se pode pensar que se vai dedicar a vida à carreira e os filhos surgirem em enésimo lugar. Deve ter vida própria, vida conjugal, amigos, família e momentos sociais, mas não se pode ter tudo e o dia só tem 24 horas.


Haverá alturas de mais trabalho, outras de menos, momentos em que precisamos mais de estar sem filhos, outros com eles. No fim, importa que os nossos filhos se sintam amados, mas também entendam que não são uma extensão ou uma cópia dos pais, nem vice-versa, mas todos pessoas autónomas mesmo que interdependentes.»

O pediatra Mário Cordeiro ensina:

  • «Para estimular a autonomia, o pai deve atribuir tarefas diárias como tomar banho sozinho ou arrumar o quarto. Deve também ensinar a argumentar, expressar ideias e razões, de um modo civilizado.»
  • Escutar os filhos «leva a que eles também nos escutem. Claro que isto não equivale a fazer tudo o que eles querem. Mas, pelo menos, mostra uma coisa: respeito».
  • Os pais erram quando «tentam compensar uma menor dedicação com bens materiais ou permissividade e facilitismo».
Última revisão: Março 2017

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