Saúde mental: a quem pedir ajuda?

Saúde mental: quem me ajuda?

Um coach, um psicólogo, um psicoterapeuta, um psiquiatra ou um neurologista podem ajudar a resolver problemas de saúde mental. Mas a qual destes profissionais deve recorrer? O que acontece nas suas consultas? Os especialistas esclarecem.

  • PorSolange Sousa MendesJornalista
  • EdiçãoVanda Oliveira

A necessidade de mudar algo estrutural na nossa vida, uma tristeza constante ou um mal-estar incapacitante podem levar à procura de ajuda. A escolha do especialista certo depende dos sintomas e da sua gravidade. Podem complementar-se, mas cada um tem a sua especificidade e forma de abordar e tratar os problemas.

Estes são os especialistas em saúde mental

Coach: o treinador da mudança

«Um coach é um profissional certificado em coaching, por uma entidade certificadora reconhecida e competente para o fazer, que apoia a definição, criação e desenvolvimento da mudança pessoal, profissional ou organizacional, para produzir alterações efetivas num curto espaço de tempo», explica Teresa Marta, mental coach, à Revista Prevenir.

  • A sua função é… «Ajudar a definir um plano de ação para a mudança que o coachee (o cliente) deseja, acompanhando esse plano de mudança e fazendo as alterações necessárias ao longo do processo, de modo a adaptar o plano de concretização às problemáticas que vão surgindo pelo caminho.»
  • O que acontece na primeira sessão «É feita a auditoria emocional e comportamental da pessoa; são identificados os aspetos que a fazem querer mudar e quais os pontos de desconforto que sente no momento. São identificadas as crenças limitativas que a pessoa tem em relação a si e ao mundo, bem como os padrões mentais que a estão a impedir de seguir em frente, tomar decisões e fazer escolhas positivas. Deverá também ficar definido qual o objetivo do processo de coaching: o que é que a pessoa deseja alcançar. As sessões têm, em média, a duração de uma hora.»
  • O que o diferencia do psicólogo «O coach ajuda a criar uma mudança rápida na vida das pessoas sem necessidade de esmiuçar todo o seu passado, os seus traumas e as suas dores emocionais.»
  • O coach não resolve… Problemas do foro psicopatológico, como depressões, esquizofrenia, bipolaridade, fobias e ataques de pânico. «O coach não pode entrar na área exclusiva da psicologia clínica ou da psicoterapia, não sendo ético nem deontologicamente defensável. Já o contrário é possível: um psicólogo clínico pode fazer uma certificação em coaching e juntar ambas as áreas na abordagem aos seus clientes», refere Teresa Marta.
  • Procure-o se… «Pretende alterar alguma coisa na sua vida, tanto a nível profissional (mudar de empresa, de função ou de profissão) ou pessoal (por exemplo, desenvolver as suas capacidades e recursos, reconhecer e desenvolver o seu valor pessoal, aumentar a autoestima, a autoconfiança, a resiliência, a capacidade de entender os outros e a si mesma).»
  • Como escolher «De acordo com a área que pretende trabalhar, pode escolher um life coach (mudanças na vida pessoal), um executive coach (vida profissional) ou business coach (criação de um negócio). Há ainda serviços de coaching para estudantes, relacionamentos, competências parentais ou desempenho desportivo. Depois, deve procurar informação sobre o coach: há quanto tempo está no mercado, qual a sua certificação e quais as referências positivas que surgem sobre ele, por exemplo na Internet».
  • Pode trabalhar em conjunto com… «Psicólogo ou psicoterapeuta.»

«O psicólogo trabalha com pacientes com transtornos mentais, emocionais e comportamentais e também na promoção da psicologia positiva e da autoestima»

Psicólogo clínico: o especialista nos pensamentos

«O psicólogo é um técnico licenciado em Psicologia, especialista nos processos mentais e comportamentais, que se dedica ao estudo dos aspetos cognitivos, emocionais e sociais, como a inteligência e a personalidade, a perceção, a motivação, a aprendizagem e a memória», define Fernando Lima Magalhães, psicólogo clínico e psicoterapeuta.

  • Que tipo de problemas trata «O psicólogo trabalha com pacientes com transtornos mentais, emocionais e comportamentais e também na promoção da psicologia positiva e da autoestima. Depressão, ansiedade, baixa autoestima, dificuldades de aprendizagem e transtorno de stresse pós-traumático são alguns dos casos mais comuns.»
  • O que o diferencia do psiquiatra «O psiquiatra possui uma formação de base em medicina e pode receitar medicamentos, os quais são essenciais em várias perturbações. O psicólogo não pode receitar medicação.»
  • O que acontece na primeira consulta «Faço algumas perguntas para conhecer melhor a situação atual do cliente: o motivo da consulta, há quanto tempo dura o problema, as maneiras habituais de pensar, como se sente na vida em geral, que crenças importantes costuma ter sobre si próprio e sobre os outros. De acordo com a informação recebida, defino um processo de terapia e explico-o ao cliente, sugerindo algumas ferramentas práticas e algum trabalho de casa para ajudá-lo a gerir a sua saúde mental. A primeira sessão dura cerca de 80 minutos. As sessões seguintes têm uma duração de 50 minutos», descreve.
  • Procure-o se… «Sente um sofrimento significativo na sua vida, com uma falta de bem-estar que não consegue ultrapassar por si próprio; manifesta défices ou excessos de comportamentos que interferem no funcionamento normal (por exemplo, evitar viajar ou comer em excesso), se participa em atividades que são questionáveis pelas pessoas que o rodeiam e que têm consequências negativas que revertem sobre si própria ou sobre os outros (por exemplo, jogo compulsivo ou comportamentos violentos).»
  • Como escolher «Verifique se o psicólogo está inscrito na Ordem dos Psicólogos, porque é a garantia de que está habilitado para exercer a profissão. Deve informar-se sobre a sua formação, os anos de experiência e se trabalha nas áreas para as quais procura ajuda. Além das competências técnicas, é importante que o cliente se sinta confortável e seguro, pois serão as competências interpessoais que farão a maior diferença em escolher um psicólogo.»
  • Pode trabalhar em conjunto com… «Médico psiquiatra e neurologista e, em muitos contextos, com médicos, enfermeiros, nutricionistas, professores e assistentes sociais.»

«O importante é que faça por encontrar no psiquiatra alguém que, além de tecnicamente competente, tenha a capacidade de compreensão e empatia»

Psiquiatra: o médico para as perturbações mentais graves

«O psiquiatra é um médico, especializado em doenças do foro mental e em saúde mental», explica Vítor Viegas Cotovio, médico psiquiatra e psicoterapeuta.

  • Que tipo de doenças trata «Doenças do foro psiquiátrico que envolvem alterações do comportamento, das emoções e do pensamento e que exijam medicação, como perturbações da ansiedade incapacitantes, depressões graves (major), dependências e psicoses (como esquizofrenia, doença bipolar e perturbações delirantes)», enumera.
  • O que acontece na primeira consulta «Estabelece-se uma relação com o paciente, baseada na empatia. Depois avalia-se o que levou o paciente a procurar o psiquiatra, procurando identificar sinais e sintomas psicopatológicos que possam levar a um diagnóstico e ao consequente programa terapêutico.
  • O psiquiatra pode não tratar… «Perturbações leves da ansiedade e depressões ligeiras em que o paciente não necessita de ser medicado.» Nestes casos, deve ser acompanhado por um psicólogo ou psicoterapeuta.
  • Procure-o se… «O próprio ou alguém próximo identifica em si sinais e sintomas que pela sua intensidade, persistência e frequência condicionam a sua vida, e que se inscrevam nas doenças mentais graves acima mencionadas».
  • Como escolher Vítor Cotovio refere que a escolha do psiquiatra é feita com base nas referências dadas por pessoas próximas ou que encontra na Internet. Também pode encontrar este especialista pela referenciação de outras especialidades, nomeadamente nos cuidados de saúde primários (médico de família). «O importante é que faça por encontrar no psiquiatra alguém que, além de tecnicamente competente, tenha a capacidade de compreensão e empatia», sublinha.
  • Pode trabalhar em conjunto com… «Uma equipa multidisciplinar de que fazem parte psicólogos, psicoterapeutas, enfermeiros de saúde mental, terapeutas ocupacionais e assistentes sociais. Procura-se a interdisciplinaridade das competências específicas das várias valências», explica.

Se tem dúvidas sobre qual o especialista certo para si, fale com o seu médico de família. «É o médico de Clínica Geral que, com a sua visão mais globalista, deve orientar a pessoa», refere José Lopes Lima, médico neurologista

Neurologista: só ele trata a demência

«Tal como o psiquiatra e o psicólogo, também o médico neurologista trata doenças do cérebro, mas, enquanto os primeiros se focam sobretudo nas alterações do comportamento e da personalidade, os neurologistas ocupam-se mais das doenças vasculares, como o AVC, doenças tumorais, degenerativas, como a de Alzheimer e Parkinson, e as do sistema nervoso central, como a esclerose múltipla», esclarece José Lopes Lima, médico neurologista.

  • Mas também pode tratar a depressão «Por vezes, as pessoas procuram o neurologista porque lhes dói a cabeça, sentem-se muito cansadas, não são capazes de trabalhar ou pensam que estão a perder a memória, mas na verdade estão deprimidas. Se for uma depressão reativa (minor), acabamos por tratar o problema. Os casos mais graves (depressão major) são reencaminhados para o psiquiatra. Noventa por cento dos diagnósticos são feitos logo na primeira consulta. Muitas vezes, pedem-se exames para se ter a certeza de que não nos está a escapar um diagnóstico alternativo, que possa estar escondido por qualquer outra coisa. Mas os exames são pouco significativos a darem-nos um diagnóstico», refere José Lopes Lima.

Psicoterapia: um caminho para a autodescoberta e saúde mental

É realizada por psicólogos e psiquiatras e por outros técnicos com formação em Psicoterapia e consiste num tratamento psicológico que se desenvolve através de uma relação terapêutica entre o paciente e o psicoterapeuta, como nos explica Vítor Viegas Cotovio, médico psiquiatra e psicoterapeuta.

  • Problemas de saúde mental que ajuda a tratar: «Ansiedade, depressão, fobias e obsessões.»
  • Também pode ser útil se quer entender-se melhor, identificar alguns conflitos internos, trabalhar melhor a sua assertividade, a sua autoestima ou a sua confiança.
Última revisão: Abril 2019

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