Rafael Santandreu: «Ser feliz só depende de nós»

Rafael Santandreu: «Ser feliz só depende de nós»

Mesmo perante as maiores adversidades, é possível encontrar a felicidade, mas, para isso, temos de aprender a valorizar o que verdadeiramente importa, defende o psicólogo catalão Rafael Santandreu.

  • PorCarlos Eugénio AugustoJornalista

  • Entrevista aRafael SantandreuPsicólogo

Ser feliz é uma das maiores ambições do ser humano, mas a forma desenfreada como tentamos concretizá-la pode levar-nos em sentido contrário. «Podemos cair na tentação de transformar desejos em necessidades absolutas e muito difíceis de concretizar, o que gera frustração e potencia estados de neurose, um problema que atinge a grande maioria da população», contou-nos Rafael Santandreu, psicólogo catalão e autor de Ser Feliz no Alasca (Pergaminho).

Entrevista a Rafael Santandreu, psicólogo

Nos seus livros, revela que cerca de 80 por cento das pessoas sofre de distúrbios neuróticos. É uma epidemia de saúde pública?

Sim. E o número de pessoas com quadros de dificuldade de adaptação, ansiedade, stresse e depressão está a crescer de forma avassaladora. Quando comecei a estudar Psicologia, há 25 anos, estimava-se que, por exemplo, cerca de dez por cento das pessoas tinha sintomas de ansiedade; hoje, esse valor triplicou. Calcula-se que, em 2030, metade das pessoas será atingida por esse problema. Este aumento está relacionado com fatores ambientais e por imposições sociais, que tornam as pessoas escravas de hiperexigências e incapazes de responder a tantos estímulos.

Esse estado de espírito é um dos entraves à felicidade?

É o principal. Acredito, contudo, que o ser humano está programado para ser feliz. Charles Darwin, criador da teoria evolucionista, dizia: «De todas as espécies que estudei, concluí que o destino natural do ser humano é ser muito feliz». No fundo, a infelicidade é um atentado à própria evolução, e essa constatação fazia-o perguntar, em 1780, «qual a razão para não sermos felizes?». E Darwin tinha a reposta: «Por não vivermos de forma natural».

«Quando comecei a estudar Psicologia, há 25 anos, estimava-se que cerca de dez por cento das pessoas tinha sintomas de ansiedade; hoje, esse valor triplicou. Calcula-se que, em 2030, metade das pessoas será atingida por esse problema», indica Rafael Santandreu

E quais os requisitos para atingir a felicidade?

Apenas dois: água para beber; comida para não ter fome. É isso que nos permite viver. Acredito ser possível atingir o estado de felicidade, mesmo privados de fatores que consideramos essenciais, como a liberdade ou a saúde. Existem relatos de presos, escravos e doentes terminais em que afirmavam ser felizes. A felicidade só depende de nós, do nosso interior, e não das circunstâncias; a felicidade depende de percorrermos o caminho emocional certo.

Como podemos saber quais as coordenadas certas?

Através de uma reeducação mental que permita aprender um sistema de valores realistas e naturais. O veículo é a psicologia cognitiva, corrente que nos faz refletir sobre a vida e no que pensam as pessoas mais fortes mentalmente, que são felizes em qualquer contexto. Stephen Hawking é um dos melhores exemplos, alguém que durante quatro décadas não podia mover-se nem falar. Apesar disso, tornou-se num dos melhores cientistas da História e, sobretudo, uma pessoa feliz e realizada. Graças à superação e interiorização de um sistema de valores positivos que o levavam a pensar que podia sempre fazer coisas valiosas, por si e para os outros.

«Cerca de dez por cento da população consegue ser feliz sempre, independentemente do que suceda. Pelo facto de estar vivo e compreender essa dádiva, sem exigências»

É possível estar sempre feliz?

Completa e absolutamente. Cerca de dez por cento da população consegue sê-lo, independentemente do que suceda. Pelo facto de estar vivo e compreender essa dádiva, sem exigências. É essa a defesa interior que garante a força para vencer estados de não felicidade.

Mas esses estados de “não felicidade” não são também necessários para dar outro valor aos momentos positivos?

A dinâmica da felicidade pode implicar momentos menos bons, desde que os consigamos relativizar e ultrapassar. Essas vivências até podem potenciar o viver em pleno a felicidade. Utilizadas de forma positiva, as crises emocionais podem servir de plataforma de evolução pessoal, pois só se retira a devida aprendizagem se encararmos o sofrimento com alegria.

Isso não é paradoxal?

Sim, mas muitos fazem-no. Os cristãos, por exemplo, vivem o sofrimento como uma dádiva, uma oportunidade de aprendizagem, de elevação da sua capacidade espiritual. E, com as devidas diferenças, a psicologia cognitiva segue essa abordagem e dá as ferramentas para viver, feliz, numa sociedade dita global e cada vez mais exigente.

«Aquilo que temos de valorizar é a nossa capacidade de amar e aceitar incondicionalmente os outros. Tendencialmente, transformamos os desejos em necessidades absurdas, que são a génese da problemática da infelicidade», afirma Rafael Santandreu

Esse novo conceito de sociedade alterou os próprios padrões de felicidade?

Acima de tudo, mudou os níveis de exigência que hoje são muito difíceis de concretizar. Daí que sejamos mais individualistas e pensamos que essa é a chave do sucesso. Esse comportamento nasce sempre do hábito errado de nos queixarmos, da ambição desmedida, em vez de apreciar o que temos.

Além desses erros, que outros também podem impedir a felicidade?

Assumir e sentir a felicidade como algo externo ou que apenas podemos alcançar se formos bem-sucedidos, bonitos ou muito inteligentes. Aquilo que temos de valorizar é a nossa capacidade de amar e aceitar incondicionalmente os outros. Tendencialmente, transformamos os desejos em necessidades absurdas, que são a génese da problemática da infelicidade, quando é a renúncia que nos torna fortes, sendo esse um dos “mandamentos” da psicologia cognitiva.

Como evitar ou contrariar esses desejos?

Ter desejos é natural e legítimo, nomeadamente os que nos causam prazer como divertir, estar confortável, amar e ser amado. O objetivo é lutar contra ideias supersticiosamente transformadas em necessidades inventadas, geradoras de frustração, insegurança, insatisfação, ansiedade e depressão. E isso consegue-se através da interiorização de crenças racionais, com a ajuda de um processo de reprogramação da mente e comportamento [ver caixa Os três passos da psicologia cognitiva], isto é, o foco que trabalha a psicologia cognitiva.

«Aquilo que temos de valorizar é a nossa capacidade de amar e aceitar incondicionalmente os outros. Tendencialmente, transformamos os desejos em necessidades absurdas, que são a génese da problemática da infelicidade»

Quanto tempo dura, em média, esse processo?

Ainda que seja gradual, a maioria das pessoas que acompanho em consultório consegue apreender a maioria dos conceitos vitais em três meses, mas isso depende da maturidade emocional. O sucesso desta aprendizagem está na proatividade e é por isso que recomendo que se exercite esta filosofia cerca de uma hora por dia.

Nos seus livros, diz ser possível fazer esta mudança interior por iniciativa própria, sem recorrer a ajuda profissional…

Um dos objetivos é que o leitor se torne o seu próprio terapeuta, e acredito que este processo se torna mais efetivo se a pessoa sentir que está a evoluir por si, num ritmo próprio. Só aconselho o recurso a um especialista quando não o consegue. É fundamental acreditar que somos nós a chave de atingir a felicidade em qualquer local e circunstância, e que o comportamento passivo é contraproducente. Desenganem-se aqueles que pensam que combater a tristeza apenas se resolve com a toma desenfreada de antidepressivos e ansiolíticos.

Essa será mesmo uma solução de recurso?

Sim, e apenas em casos muitíssimo complicados. Sabemos que cerca de 95 por cento das pessoas que tomam esses fármacos não precisa deles. Chegámos ao cúmulo de medicar crianças só porque têm períodos de ansiedade na escola. Mas o pior é que metade dessas pessoas vão ficar dependentes de substâncias que podem causar lesões irreversíveis no cérebro e apenas dão uma sensação de falsa estabilidade ou embriaguez. Já a psicologia cognitiva, por exemplo, segue um método mais positivo e natural, que trabalha a autoestima e as emoções. Dá-nos ferramentas que nos tornam competentes a nível emocional, algo que pode ser encarado como um sinónimo de felicidade. Com elas ganhamos filtros que evitam a vulnerabilidade associada às emoções negativas de uma forma extrema. E é graças a esses sentimentos que conseguimos ativar o nosso olhar e atenção para a beleza da própria vida.


Rafael Santandreu explica: O que é a “bastantidade” e porque devemos tê-la?

É um termo que define «a capacidade de perceber que o que possuímos é suficiente», explica Rafael Santandreu. «Essa perceção é inata às pessoas emocionalmente mais fortes e permite encarar cada momento da vida de forma mais tranquila, mesmo perante os períodos mais complicados, percebendo que têm apenas o que precisam, de facto. Essa forma de ver a vida ajuda a ultrapassar problemas a nível pessoal ou profissional. É a força que nos permite vencer as adversidades, centrar-nos no nosso íntimo e transformar qualquer experiência em aprendizagem».

«Desenvolva a capacidade de encarar a vida como um exercício contínuo de apreciação das pequenas coisas, evitando focar-se no que o assusta ou intimida», aconselha Rafael Santandreu

Os três passos da psicologia cognitiva

Rafael Santandreu, psicólogo, explica como “reprogramar” a mente e o comportamento «de forma a se predispor para a felicidade». Para isso, «devemos trabalhar as emoções em três fases através de um diálogo interno, que é como aprender um novo “idioma”».

  1. Olhe para dentro de si mesmo
    «Perante uma perturbação emocional, somos induzidos a pensar que somos culpados de algo e que a felicidade se deve a fatores externos. Mas é a forma como dirigimos o pensamento que nos ajuda a ser felizes.»
    Faça assim: «Desvalorize o que não consegue controlar, o que dizem ou fazem os outros, pois, como dizia o filósofo grego Epiteto: «Não nos afeta o que sucede, mas sim aquilo que pensamos sobre o que aconteceu».
  2. Viaje com pouca bagagem
    «Seja realista e não transforme os desejos em necessidades absolutas. Ficar refém desses ideais gera frustração.»
    Faça assim: «Interiorize que é na renúncia do supérfluo que está a chave da felicidade. Vai entender que não precisa de muito para ser feliz, pois as pessoas emocionalmente mais fortes reduziram as necessidades para níveis muito baixos.»
  3. Aprecie o que o rodeia
    «Desenvolva a capacidade de encarar a vida como um exercício contínuo de apreciação das pequenas coisas, evitando focar-se no que o assusta ou intimida.»
    Faça assim: «Imagine que vai a caminho de uma consulta no dentista. Aproveite esse trajeto para ouvir música, ver a paisagem, desfrutar do sol, das cores, desligar-se do que vai acontecer. Isso permite-lhe não sofrer por antecipação e preparar-se para encarar a tarefa com um pensamento mais positivo.»

Última revisão: Junho 2019

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