A angústia da perfeição

na cabeça de um perfecionista

É gerada pelo medo de desiludir o outro, de ser excluído, de não ser amado e de não ser reconhecido. Mas um perfecionista está sempre a tempo de mudar tudo isso.

  • EdiçãoNazaré Tocha 

Não há nada de mal em desejar a perfeição. Organização, capacidade de síntese, foco, atenção aos detalhes, autodisciplina, capacidade de se esforçar e de treinar acima da média são aspetos positivos de um perfecionismo saudável e integram uma visão equilibrada de nós. Tudo muda, contudo, quando o desejo de perfeição se eleva acima do nosso significado como pessoa, limitando a nossa própria felicidade. Essa é a outra face do perfecionismo, aquela em que ele se torna uma característica desviante da personalidade humana, de tipo obsessivo-compulsivo, isto é, uma patologia.

«No campo profissional, embora seja visto por muitos como sinónimo de sucesso, o perfecionismo é um dos responsáveis pela baixa produtividade, pelo medo de errar e pela incapacidade de seguir soluções não lógicas (criativas) para resolver problemas»

O perfecionismo traduz-se num esforço permanente para melhorar o desempenho pessoal e alcançar o êxito dos objetivos, perseguindo um padrão que se considera ser o ideal, abaixo do qual o perfecionista se classifica como insuficiente, perdedor e falhado. Significa ainda dar uma importância exagerada a tudo, ao ponto de nunca se alcançar um estado de satisfação com a vida em geral: o perfecionista reclama perfeição em tudo o que o rodeia e em todos, começando por si próprio, ao ponto de ficar dominado pelo desejo constante de alcançar mais e melhor. No seu nível mais extremo, doentio, atinge níveis de exigência pessoal (e com os outros) angustiantes, absorventes e extenuantes. No campo profissional, embora seja visto por muitos como sinónimo de sucesso, o perfecionismo é um dos responsáveis pela baixa produtividade, pelo medo de errar e pela incapacidade de seguir soluções não lógicas (criativas) para resolver problemas.

Como “nasce” um perfecionista

Geralmente, os perfecionistas cresceram em famílias onde tiveram sempre de demonstrar que eram capazes de superar obstáculos, objetivos sempre mais elevados e onde a falha não era permitida, sendo até penalizada. Foram pessoas educadas em famílias e sistemas educativos (ou mesmo religiosos) onde o seu valor era medido pelo que conseguiam obter, tendo ouvido muitas vezes expressões como “sofrer faz parte do crescimento”e “para seres alguém, tens de te esforçar e ser melhor do que os teus colegas”. São pessoas que passaram a vida a ser avaliadas em escalas educacionais, familiares e sociais de valor. A tal ponto que deixaram aos outros o poder de avaliar quem são e o valor daquilo que fazem. Passaram muito tempo a tentar corresponder ao valor que esperavam deles, porque daí resultava o facto de serem ou não aceites.

O que está a perder

O perfecionista não consegue saborear a simplicidade da vida e a capacidade de atribuir o valor real às coisas que lhe acontecem e às tarefas que tem de desempenhar. Perde o prazer das coisas mais simples, pois, para ele, nada pode falhar, não consegue aproveitar o momento e vive com uma enorme rigidez que o impossibilita de fluir naturalmente com a vida e de procurar soluções fora da caixa.

«Quando conseguimos sentir-nos confortáveis pelo que somos, ao invés de estarmos em permanência a tentar ser quem achamos que devermos ser, passamos a sentirmo-nos muito mais seguros»

Não raras vezes, perde o timing ideal dos processos e da resolução dos problemas, tão preocupado que fica em que tudo seja perfeito. Com isso, perde a possibilidade de ser bem-sucedido, o que aumenta a sua frustração e ansiedade, fazendo com que coloque na “próxima vez” a necessidade extrema de não voltar a falhar Esta luta diária para corresponder às expectativas dos outros, para não sermos excluídos, para sermos amados desgasta-nos, angustia-nos e torna-nos adultos com medo.

Ser imperfeito é bom

Uma das vantagens mais importantes da imperfeição é retirar-nos de uma vida em exigência relativa ao que esperam de nós e ao que nós esperamos de nós mesmos. Afasta-nos dos padrões doentios de luta e esforço. Relativizar é outra grande vantagem da imperfeição: sistematizar em nós que, de facto, o mundo não é perfeito, nós não somos perfeitos, o nosso emprego não é perfeito, os nossos filhos não são perfeitos, os nossos chefes não são perfeitos, mas que esse é o resultado da nossa humanidade. Aceite-se como é: está a fazer o melhor que pode face às condições e ao conhecimento que tem neste momento. Quando conseguimos sentir-nos confortáveis pelo que somos, ao invés de estarmos em permanência a tentar ser quem achamos que devermos ser, passamos a sentirmo-nos muito mais seguros.

Dar o primeiro passo

Devemos olhar para os outros e para nós não através dos olhos de uma escala que tudo classifica e mede, mas com os olhos do coração. Isto não significa aceitarmos ser menosprezados ou dominados pelo outro ou que deixemos de parte a nossa capacidade de escolha. Significa olhar para a pessoa (e para nós mesmos) aceitando que o erro existe como base de superação pessoal e não como autoflagelo.


Assim faz um perfecionista…

Impõe-se dar sempre 100 por cento de si em tudo, caso contrário sente-se um falhado. Esforça-se em permanência para fazer melhor e em menos tempo.

  • Segue métodos muito caprichosos, sendo frequente fixar-se na rigidez comportamental de que a sua forma de trabalho é a que está correta.
  • Gasta imensa energia e tempo em pequenas tarefas para realizar um trabalho, dá muita importância ao pormenor e aos detalhes e confere cada passo do processo, chegando a voltar atrás para verificar várias vezes.
  • Refaz o trabalho vezes sem conta até ficar, na sua conceção, perfeito.
  • Acha que nunca dá o seu melhor, que o que dá é sempre aquém do que poderia dar e que na seguinte vez é que é.
  • Assume a responsabilidade pelo que acontece, mesmo quando o resultado não dependia apenas de si.
  • Vive insatisfeito com o resultado do seu trabalho. Acha que nunca consegue realizar algo suficientemente bom.

Na cabeça de um perfecionista

Quem vive em função da perfeição sente uma elevada frustração ao perceber que nem tudo funciona exatamente como deseja e que existem sempre partes da equação que não consegue controlar. Além disso, um perfecionista…

  1. Anula a sua forma inata de estar e de sentir porque vive a vida através de esquemas de pensamento planeados milimetricamente para evitar o erro. Acaba por anular a sua autenticidade, aquilo que realmente é.
  2. Impõe-se amarras angustiantes porque quer que tudo funcione segundo as suas linhas de orientação pré-programadas. Passa a vida a questionar tudo à sua volta e tudo o que existe (ou falta) em si e nos outros.
  3. Simples questões do dia a dia afetam o seu equilíbrio físico e emocional: a ruga que apareceu, o quilo a mais, mais um cabelo branco, o tempo que chove ou que está quente, a casa que precisa de obras, o chefe que não muda, o filho que não estuda.
  4. Vive a vida na crítica e na procura da falha. Sempre que as coisas não correrem como planeado tenta encontrar falhas: em si, nos outros, no sistema, no mundo.
  5. Deixa de ter tempo para si mesmo e passa a viver uma vida assoberbado onde não há lugar para a tranquilidade, para sentir e para ser leve e alegre.

Liberte-se da ideia do “tudo ou nada”

Ponha em prática este passo a passo para aceitar a imperfeição e sentir-se livre.

Primeira fase: faça um diagnóstico

  • Identifique os aspetos da sua vida (pessoal, profissional, material, espiritual) que considera imperfeitos ou, pelo menos, em que tem pensamentos do tipo “Ah, se ao menos isto pudesse ser diferente! Seria perfeito!”.
  • Dos aspetos identificados, assinale todos aqueles que lhe estão a provocar maior ansiedade e pensamentos derrotistas de tipo: “Se não conseguir alcançar isto, não vou ter aquilo ou vão dizer que não tive sucesso, ou que não sou suficientemente bo”.
  • Para cada aspeto assinalado que lhe causa maior ansiedade e medo de não conseguir, identifique que esforço está a fazer para o alcançar e, se por acaso, esses esforços podem ser substituídos por ações mais simples.
  • Para cada ação perfecionista, identifique os resultados que está a obter. Onde é que o seu perfecionismo está a levá-lo?
  • Identifique as pessoas que na sua infância/adolescência lhe exigiam perfeição e perceba que resultados obtiveram nas suas vidas (não se esqueça de assinalar se foram/são felizes).
  • Perceba se a raiz do seu perfecionismo está na sua necessidade de ser aceite, incluída, respeitada, valorizada e amada.
  • Identifique as áreas da sua vida em que sente carência e verifique se essa carência é real ou resultado das suas inseguranças.
  • Identifique que áreas da sua vida tem necessidade controlar (ser perfecionista) para se sentir segura.

Segunda fase: passe à ação

  • Identifique quem pode ajudá-lo a diminuir a sua tendência perfecionista e peça-lhe que o alerte sempre que verifica que tal acontece.
  • Se sentir que a ansiedade pela perfeição aumenta ao ponto de ficar doente, irritado, tente perceber que esforços e lutas de tipo “eu aguento” pode deixar para trás.
  • Deixe de valorizar tanto aquilo que pensa que ainda não tem.
  • Abandone a tendência para controlar tudo, incluindo os seus sentimentos e os seus desejos.
  • Respeite os ritmos naturais da vida. Confie no sábio processo do tempo.
  • Cuide de si, aceitando o seu processo de crescimento.
  • Encontre, pelo menos, uma solução para resolver cada aspeto que identificou como estando a causar-lhe muita ansiedade.
  • Permita-se admitir e sentir a imperfeição nalguns aspetos da sua vida.
  • Sinta orgulho por quem é. O que é hoje é o melhor que conseguiu fazer com as ferramentas que possui agora.
  • Saia da sua zona de conforto pelo menos uma vez por semana. Ao invés de pensar na possibilidade do insucesso, pense na possibilidade do sucesso usando a técnica do “pensamento positivo inverso”.
  • Afaste-se o mais possível de pessoas perfecionistas e que estão sempre preocupadas em avaliar os outros.
  • Aprenda a dizer “não” as vezes que forem necessárias, sem sentir-se culpado de o fazer ou sentir que vai deixar de ter o amor dos outros.
Última revisão: Abril 2017

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