«O burnout é um problema de saúde pública»

O que é o burnout e de que forma deve reagir perante uma situação de burnout

São cada vez mais os casos de esgotamento entre os trabalhadores portugueses. Vítor Viegas Cotovio, médico psiquiatra, explica o grave impacto do burnout na nossa saúde e como reagir.

  • PorCarlos Eugénio AugustoJornalista

Segundo a Associação Portuguesa da Psicologia de Saúde Ocupacional (APPSO), em 2016, quase metade da população ativa em Portugal foi diagnosticada com burnout. Ou seja, chegou a «um estado de exaustão física, emocional, mental e comportamental causado por um envolvimento em situações de grande exigência laboral», descreve Vítor Viegas Cotovio, médico psiquiatra e psicoterapeuta, e membro do Conselho Nacional de Saúde Mental. Em entrevista à Revista Prevenir, o especialista desmistifica esta síndrome, evidenciado os sintomas a que deve estar atento.

Quase metade dos portugueses está em risco de burnout. Por que chegámos aqui?

Porque as exigências laborais mudaram. A pressão subiu, trabalha-se mais tempo e acumulam-se funções perante uma escassez de recursos. De início, o burnout estava mais associado às “profissões de relação”. Isto é, atividades que implicam a oferta de um serviço, principalmente na área da saúde e assistência social. Entretanto, esse conceito foi-se alargando às restantes áreas. Hoje é um problema de saúde pública. Esta conjuntura gera desarmonia, faz com que a pessoa “estoire”. E esse cenário alastra-se ao espetro das relações humanas, provocando um quadro de exaustão emocional, sentimentos de impotência e tristeza, de insucesso e incapacidade de reação.

Nota mudanças na forma como os pacientes hoje se referem ao stresse relacionado com as exigências laborais?

Tudo mudou com a crise. As pessoas passaram a sentir que, ao mesmo tempo que tinham de cumprir objetivos, estavam sujeitas a maiores níveis de exigência, sem possibilidade de falhar. Em alguns casos, sob a ameaça do despedimento. Essa conjuntura fez com que as pessoas tivessem mais consciência de estar a viver situações de stresse laboral.

«Qualquer pessoa, numa determinada fase da vida, sujeita a níveis de pressão que ultrapassam as suas competências face ao que se exige, pode estar sujeita a uma situação de esgotamento»

Existem pessoas mais propensas a sofrer de burnout?

Ninguém está imune. Agora, existem pessoas mais vulneráveis. São aquelas que, à partida, têm baixa autoestima, maiores dificuldades em lidar com situações de stresse, de adversidade e conflito, pois são menos resilientes. Mas reforço: qualquer pessoa, numa determinada fase da vida, sujeita a níveis de pressão que ultrapassam as suas competências face ao que se exige, pode estar sujeita a uma situação de esgotamento. A “solução” passa por estar atento aos sinais e treinar algumas competências para estar mais protegido.

Há ligação entre o burnout e a depressão?

Podemos, sim, falar de uma relação causa-efeito sistémica. Nesse caso, a depressão é uma consequência do burnout. Deriva da ansiedade, da desmotivação, da não realização ou perda de sentido da própria tarefa. Quando a profissão deixa de ter sentido, tudo fica comprometido. Perde-se alinhamento, cumplicidade e satisfação. Sem esse prazer e propósito, dá-se o tal “estoiro”, vai-se a autoestima e chega a tristeza. Podemos dizer que o burnout resulta de um circulo vicioso, multidimensional e sistémico.

Qual o impacto do burnout no organismo?

Quando sujeito a uma pressão deste tipo, o sistema nervoso fica hiperativo, hipertrofiado. E isso impede a pessoa de relaxar, deixa-a num permanente estado de stresse e com os “sensores” de alarme supersensíveis. Viver em stresse constante torna-se um sobressalto biológico permanente: eleva a tensão arterial, provoca o aumento de cortisol (hormona de stresse) e da glicemia (nível de açúcar no sangue), desequilibra o sistema hormonal, neuroendócrino e imunológico. Isso faz com que as defesas do organismo baixem e a possibilidade de adoecer cresça.


As situações de stresse no local de trabalho são frequentes. Como perceber se se ultrapassa essa “normalidade”?

Temos de estabelecer fronteiras entre o que é essa normalidade e quando atingimos o limite. E parte desse processo é entender o mais rapidamente possível os sintomas, ou sinais, que provocam disfuncionalidade. É evidente que podemos ter momentos de descontrolo no trabalho, mas o problema está quando esses sinais deixam de ser transitórios e começam a ser permanentes e aumentam de intensidade.

Uma vez instalado, como superar o problema?

Normalmente, em consultório, recomenda-se aquilo que faz mais sentido para a pessoa. Só assim conseguimos um tratamento com seriedade e compromisso. Ou seja, devemos “negociar” com a pessoa e encontrar elementos motivacionais que a façam sentir-se bem. Se gostar de caminhar, caminhe; se gostar de musculação, vá para o ginásio; se gostar de meditação e ioga ou tai chi, que o faça. A grande lição é fazer e sentir o que mais gostamos, pela nossa saúde.

É possível recuperar e continuar a trabalhar ou recomenda-se um período de “baixa”?

Depende do caso. Se a pessoa está “afogada” nos sintomas da síndrome, sim, deve parar para encontrar armas que possam contrariar a desmotivação, frustração e exaustão. Agora, se mostra sinais de reação positiva, deve incentivar-se a atividade profissional.

Qual deve ser o papel das empresas?

A entidade patronal tem o dever de otimizar as condições de trabalho, proteger os funcionários, proporcionar uma melhor qualidade laboral e bem-estar. Isso consegue-se através de estratégias preventivas, alinhadas com a Medicina do Trabalho. Todos têm a ganhar. Está provado que as empresas que apostam numa missão coerente entre os recursos que oferecem e os objetivos pretendidos conseguem melhores resultados.

«A entidade patronal tem o dever de otimizar as condições de trabalho, proteger os funcionários, proporcionar uma melhor qualidade laboral e bem-estar»

Além das compensações financeiras, a empresa deve responder à dedicação do trabalhador com gratificações socioemocionais. Gestos simples, como deixar o colaborador gozar o dia de aniversário ou apostar na formação contínua, fazem toda a diferença.

O burnout pode ter algum aspeto positivo?

Devemos, pelo menos, tentar encontrá-lo. Por exemplo, se uma organização identifica que, sob determinado cenário, as pessoas podem vir a ser vítimas de exaustão excessiva, a ideia é aprender com a lição e mudar. Por outro lado, o chamado “stresse de adaptação” a uma nova função é um fator positivo pela motivação que proporciona. Mas, acima de tudo, podem existir mudanças interessantes por entender-se que alguns ajustes permitem voltar a valorizar a interação com amigos ou ter hábitos de vida saudáveis. Assim, vamos todos sentirmo-nos melhor, mais felizes.


Sintomas de burnout

Os sinais de alarme desta síndrome registam-se a dois níveis: físico e psicológico, como descreve o psiquiatra Vítor Cotovio à Revista Prevenir. Fique atento:

  • Dores de cabeça
  • Dores de costas
  • Enjoos
  • Alteração no apetite
  • Alteração de peso
  • Agudização de doenças crónicas (diabetes, hipertensão, gastrointestinais, úlceras)
  • Falta de concentração e de controlo
  • Alterações de sono
  • Alterações de memória
  • Alterações de comportamento
  • Irritação
  • Ansiedade
  • Baixa autoestima
  • Sensação de injustiça e tristeza
  • Mudanças de humor
  • Culpa
  • Sentimento de vergonha
Última revisão: Outubro 2017

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