Luís Câmara Pestana: «A depressão tem efeitos tóxicos para todo o organismo»

Luís Câmara Pestana, médico psiquiatra

Uma das perturbações mentais mais comuns, a depressão é uma doença que pode ter consequências a nível físico, emocional e comportamental, além de poder tornar-se crónica. Em entrevista à Prevenir, Luís Câmara Pestana, médico psiquiatra, traça o perfil de um dos problemas de saúde que mais afetam os portugueses e aponta o caminho para o combater.

  • Por Carlos Eugénio AugustoJornalista
  • FotografiaArtur

  • Entrevista aLuís Câmara PestanaMédico psiquiatra

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a depressão é o problema de saúde mais prevalente na União Europeia, afetando cerca de 50 milhões de pessoas. As estatísticas revelam ainda que 11 por cento da população irá sofrer um episódio depressivo ao longo da vida e que essa é a segunda maior causa de incapacidade. Portugal ocupa a quinta posição entre os países com mais casos – cerca de oito por cento dos portugueses estão diagnosticados com essa perturbação. Uma realidade que preocupa Luís Câmara Pestana, médico psiquiatra, «principalmente tendo em conta que estamos perante um problema de saúde pública. O número de casos tem crescido nos últimos anos e mais de metade não são tratados». Na opinião do diretor do Serviço de Psiquiatria e Saúde Mental do Hospital de Santa Maria, membro dos órgãos sociais da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental (SPPSM) «a única forma de contrariar esta tendência é apostar numa estratégia focada em três pontos: reforçar a importância da identificação dos sintomas de forma mais precoce, desenvolver estratégias que ajudem a defender de situações que provoquem fragilidades emocionais e ir ao médico sem medo de estigmas», conta à Revista Prevenir.

Grande entrevista a Luís Câmara Pestana, médico psiquiatra

Luís Câmara Pestana, médico psiquiatra

11 por cento da população irá sofrer um episódio depressivo ao longo da vida, indica Luís Câmara Pestana, médico psiquiatra

O que está na origem do crescimento de casos de depressão?

A resposta está na conjugação de vários fatores. Por um lado, existe o risco genético/familiar e, aliado a isto, a sociedade moderna é fértil em aspetos que nos expõem a situações de stresse, seja a nível pessoal, profissional e social. Também o maior envelhecimento da população originando limitações físicas e mentais torna as pessoas mais vulneráveis ao desencadear da depressão. No entanto, nem todas as pessoas com essas características ou expostas a cenários de stresse ficam deprimidas, ainda que possam, naturalmente, atravessar períodos de maior insatisfação ou desconforto. Perante isso, um dos principais desafios é entender quais as razões que provocam uma maior fragilidade.

O que se sabe sobre essa questão?

Que essa vulnerabilidade está particularmente relacionada com a genética. Se temos este risco “pólvora” nos genes, situações relevantes de stresse podem ser a “faísca” que faz “explodir”, ou seja, precipitar a depressão. Por outro lado, existem pessoas que não têm essa “pólvora” e, por muita “faísca” que exista, não desencadeiam a doença. Podem ficar tristes, mas tristeza não é depressão. É por isso que, para quem é emocionalmente mais frágil, é importantíssimo saber gerir interações negativas e situações de stresse. Por outro lado, há casos em que se confundem causas com efeitos. Isso acontece frequentemente perante uma separação ou desemprego e com algum cuidado percebemos que não foram essas razões que desencadearam a depressão em si, mas o contexto que levou a tal, pois a própria relação ou as condições de trabalho tiveram um efeito facilitador.

Consegue definir-se o perfil de quem está mais em risco?

Embora a depressão possa afetar ambos os sexos e pessoas de todas as idades e estratos sociais, o risco aumenta com contextos socioeconómicos mais débeis, como a pobreza ou o desemprego, bem como devido a acontecimentos de vida que são sinónimo de muito stresse. Exemplo disso é a morte de um ente querido, a rutura de um relacionamento, doenças graves e problemas causados pelo excesso do consumo de álcool ou de drogas adictivas.

Luís Câmara Pestana, médico psiquiatra

É irresponsável e descabido pensar que se deveria ter capacidade de reverter a depressão através da vontade», afirma Luís Câmara Pestana, médico psiquiatra

As estatísticas demonstram que existem mais mulheres deprimidas. Ser do sexo feminino, em algum contexto, pode ser um fator de risco acrescido?

Não. O facto de existirem mais diagnósticos de depressão em mulheres tem particularmente a ver com questões culturais, pois elas assumem mais naturalmente que não se sentem bem e, por isso, procuram mais frequentemente o médico. Já os homens resistem mais tempo a essa ideia, principalmente pelo estigma que ainda está associado à depressão e por sentir que não devem expor a sua fragilidade face a um problema que encaram como uma fraqueza, um fracasso pessoal, algo que devem resolver por si, e que não se trata de uma doença. É irresponsável e descabido pensar que se deveria ter capacidade de reverter a depressão através da vontade. É por isso decisivo quebrar preconceitos e reconhecer o próprio sofrimento para tratar a depressão. Ainda em relação às mulheres, persiste, erradamente, o mito de que a menopausa é um fator de risco para a depressão. A única ressalva é que esta pode ser um desencadeante para quem já teve episódios depressivos, mas não tem uma relevância que determine uma relação causa-efeito. Acima de tudo, perante uma perturbação como a depressão, independentemente do sexo ou idade, o importante é estar atento a um conjunto de sinais e comportamentos e reagir o mais rapidamente possível.

A que devemos então estar atentos?

A depressão pode manifestar-se de várias formas. Os sinais podem ser físicos, psíquicos e comportamentais, e, como podem surgir “mascarados”, dificultam por vezes o seu reconhecimento e associação à depressão. Tudo pode começar, por exemplo, por não conseguir dormir ou sentir dores vagas ou inespecíficas nas articulações. Isso leva a que os encaremos como passageiros, na esperança de estar melhor no dia seguinte. Mas, se evoluírem sem tratamento, tudo pode precipitar-se. Passa-se de uma sensação de aparente controlo para um cenário de desespero. É por isso que, em muitos casos, são amigos ou familiares que identificam que algo não está bem e lançam o alerta. E quanto maior for a consciência desses sintomas, mais depressa chegaremos a um diagnóstico.

«Os profissionais de Medicina Geral e Familiar têm um papel importantíssimo no combate à depressão e têm competência para lidar com quadros mais ligeiros ou não complicados»

O que fazer face à deteção desses sinais?

O primeiro passo é reconhecer que se tem um problema e ir ao médico de família. Os profissionais de Medicina Geral e Familiar têm um papel importantíssimo no combate à depressão e têm competência para lidar com quadros mais ligeiros ou não complicados. E, quando isso acontece, o sucesso do controlo da doença é bastante relevante. Aliás, sem esta ajuda e triagem, a Psiquiatria não tinha capacidade de resposta face ao número crescente de casos. Agora, perante situações mais complexas e com sintomas mais intensos ou prolongados no tempo, ou perante ideias de morte/suicídio, recomenda-se a intervenção de um psiquiatra.

Em média, quanto tempo demora a identificação de um caso de depressão?

É muito variável e, infelizmente, apenas metade das pessoas com depressões graves recebe tratamento por desvalorizar a situação ou não ter acesso a cuidados de saúde. Agora, o que sabemos é que quanto mais rápido se procura ajuda, melhor é a resposta ao tratamento. Muitas vezes, isso só acontece quando as perturbações emocionais são de tal ordem intensas que condicionam o quotidiano e o padrão de envolvimento pessoal e profissional. Em casos extremos, o diagnóstico só surge após uma tentativa de suicídio.

«Há uma relação direta entre a deteção precoce e um maior sucesso dos tratamentos, sendo, por isso, mais difícil reverter estados crónicos», afirma Luís Câmara Pestana, médico psiquiatra

Quais as consequências de um diagnóstico tardio?

Em primeiro lugar, vai dificultar o controlo da doença, pois há uma relação direta entre a deteção precoce e um maior sucesso dos tratamentos, sendo, por isso, mais difícil reverter estados crónicos. Além disso, a depressão tem efeitos “tóxicos” para todo o organismo, podendo interferir no sistema imunitário, enfraquecendo-o e tornando-o vulnerável a, por exemplo, doenças cardiovasculares, infeções, reumatismo ou diabetes. Depois, a evolução da própria doença pode ser sinónimo de outros problemas: o dormir mal vai prejudicar a atividade cognitiva e a capacidade de decisão; estados prolongados de ansiedade e tensão podem propiciar o aumento do consumo de álcool, tabaco ou ansiolíticos, assim como agravar a incapacidade produtiva, cuja maior consequência e impacto são a abstinência laboral; a irritabilidade compromete o relacionamento com os outros; os sintomas “mascarados” podem levar à realização de exames complementares, com perda de tempo e dinheiro.

Luís Câmara Pestana, médico psiquiatra

«Quanto mais grave for o episódio depressivo, maior a probabilidade de responder aos antidepressivos; quanto mais ligeiro, maior a eficácia das intervenções psicológicas»

Em termos de tratamentos, que opções existem?

A abordagem depende dos sintomas e da perturbação em si (ver caixa), ainda que exista sempre o cuidado de a adaptar o tratamento ao perfil da pessoa, seja por questões pessoais ou atividade profissional. Perante uma depressão major, o mais usual e recomendado é a prescrição de antidepressivos. O adequado é serem utilizados a par de intervenções psicológicas, para ajudar a implementar a boa adesão ao tratamento, bem como de terapias cognitivo-comportamentais, que ajudam a desmontar crenças depressivas, sentimentos de incapacidade, dando ferramentas para ultrapassar problemas e conselhos para um estilo de vida mais saudável. A experiência mostra-nos que quanto mais grave for o episódio depressivo, maior a probabilidade de responder aos antidepressivos; quanto mais ligeiro, maior a eficácia das intervenções psicológicas. Em média, nos casos menos complicados, o tratamento dura cerca de nove meses. Pelo meio, se tudo correr bem, há a descontinuação da medicação. Já perante um doente bipolar, o objetivo é diminuir a possibilidade de ocorrência dos sintomas de euforia ou de depressão, ou seja, tornar o doente estável. Estes casos devem ser tratados na Psiquiatria e implicam terapias mais prolongadas com psicofármacos.

Podemos falar de uma cura para a depressão?

O grande objetivo é a remissão da doença. Isso porque quem teve um episódio depressivo apresenta um risco mais elevado de recidiva. Além disso, a depressão pode evoluir de uma forma recorrente no tempo, o que leva a que pessoas com vários episódios façam tratamentos de manutenção. A exceção acontece perante alguém que teve um episódio isolado e que foi identificado e tratado a tempo. Nessas situações, sim, pode falar-se de remissão.


Depressão na infância e adolescência cada vez mais comum

«Hoje é mais comum encontrar casos de crianças e adolescentes deprimidos, mas isso deve-se, acima de tudo, ao facto de os médicos possuírem mais ferramentas e capacidade de fazer diagnósticos», explica Luís Câmara Pestana. «Ainda assim, na infância, os casos são muito raros. Já a adolescência pode implicar alguns cuidados, principalmente pela maior exposição a eventos de vida e a fatores da afirmação de personalidade que podem levar a situações de vulnerabilidade.»

Será depressão? Luís Câmara Pestana aponta os principais sintomas

A presença de sintomas incapacitantes, seja em número ou em intensidade, deve ser reportada ao seu médico, «especialmente se os sintomas se prolongam por mais de duas semanas», recomenda Luís Câmara Pestana.

  • Alterações do sono ou sensação de que o mesmo não é reparador.
  • Perda de apetite.
  • Humor depressivo.
  • Diminuição do interesse por tarefas que dão prazer.
  • Menor interação com pessoas mais próximas.
  • Perda do desejo sexual.
  • Períodos acentuados de ansiedade, tensão, irritabilidade e conflitualidade.
  • Alterações cardíacas ou gastrointestinais, assim como dores articulares ou cefaleias recorrentes.
  • Emagrecimento sem razão aparente.
  • Cansaço, ficar mais lento e inibição da capacidade motora ou de pensamento.
  • Falhas de memória e/ou perda de concentração.
  • Baixa autoestima e sentimentos de desvalorização ou culpa.
  • Pensamentos recorrentes sobre temáticas pessimistas ou tendência hipocondríaca.
  • Sensação de desespero, de que nada vale a pena.
  • Perda do gosto de viver e pensamentos suicidas.

Que tipos de depressão existem?

«As perturbações depressivas têm características semelhantes entre si. O que as distingue é a sua evolução, nomeadamente a recorrência e permanência no tempo», afirma Luís Câmara Pestana, médico psiquiatra. Segundo o especialista, a depressão manifesta-se de três formas:

  • Depressão major
    «É o quadro mais frequente. Pode surgir com um episódio isolado ou repetir-se no tempo. Dependendo do número e gravidade dos sintomas, pode ser ligeira, moderada ou grave.»
  • Distimia
    «Consiste em episódios depressivos com evolução crónica, mas tendem a ser menos intensos e prolongarem-se mais no tempo, estendendo-se por semanas, mesmo que intervalados por dias de estabilidade emocional. É um tipo de depressão mais associada a acontecimentos como perdas significativas, conflitos crónicos ou doenças prolongadas.»
  • Perturbação bipolar
    «Caracteriza-se por episódios maníacos, seja de euforia ou sentimentos de profunda tristeza, intercalados por períodos de estabilidade. Nas fases mais agudas, oscila-se entre um aumento de energia, excesso de atividade e períodos de grande apatia.»
Última revisão: Novembro 2019

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