O que é um ataque de pânico? A explicação de um psiquiatra

Isto é um ataque de pânico!

Suores frios, taquicardia e medo intenso são alguns dos sintomas que podem indicar a iminência de um ataque de pânico.

  • PorBárbara BettencourtJornalista

Suores frios, taquicardia e medo intenso são alguns dos sintomas que podem indicar a iminência de um ataque de pânico, uma situação perturbadora que pode vir a afetar mais pessoas devido ao contexto de insegurança motivado pela pandemia provocada pelo novo coronavírus. Pessoas mais suscetíveis à ansiedade ou que já tenham sofrido de ataques de pânico são as mais vulneráveis, alerta o médico psiquiatra e psicoterapeuta Vítor Viegas Cotovio. Com a sua ajuda, traçamos um guia para se proteger e poder ajudar os mais próximos.

10 a 15 minutos é a duração média de um ataque de pânico, mas pode «durar mais se a pessoa começar a alimentar pensamentos que reforçam o pânico», explica o especialista

O que é exatamente um ataque de pânico?

O ataque de pânico é um surto abrupto e inesperado de medo intenso e desproporcionado em que o corpo reage com uma sensação de ansiedade intensa. Os sintomas físicos podem ir desde a taquicardia, formigueiros e tremores até à sudorese [produção e libertação de suor] e sensação de aperto no peito, passando por falta de ar, sensação de se estar a ver de fora (despersonalização) ou de irrealidade do mundo (desrealização). Os sintomas cognitivos podem passar pelo medo de perder o controlo e de ficar louco, ou o medo de morrer, de ter um ataque cardíaco ou um AVC. Em geral, tem uma duração média de dez a 15 minutos, mas pode durar mais se a pessoa começar a alimentar pensamentos que reforçam o pânico, num efeito de feedback que cria um círculo vicioso.

O que é um medo desproporcionado?

O medo é uma resposta emocional normal que temos perante coisas ou situações que identificamos como ameaçadoras, imaginadas ou reais. No caso do ataque de pânico, interpretamos subjetivamente como ameaçadoras coisas que objetivamente podem não ser. Podemos comparar com um alarme hipersensível dentro de casa: vamos fazer uma atividade normal como tomar banho e, mal abrimos a água quente, o alarme dispara.

«Uma forma de se acalmar pode ser repetir a si próprio que ninguém morre de um ataque de pânico», aconselha o médico psiquiatra Vítor Cotovio

Como distinguir um ataque de pânico de outra perturbação de ansiedade?

Os fatores-chave dos ataques de pânico são o medo e ansiedade excessivos, que surgem aparentemente do nada. Esta ansiedade é caracterizada por um medo no momento presente, seja a ameaça real ou percebida de forma exagerada. Já a ansiedade é uma projeção de ameaça futura. A pessoa antecipa que algo pode correr mal e começa a ficar ansiosa. “Será que vou perder o trabalho?”, “Será que vou ficar infetado?”. Quando os ataques de pânico se tornam recorrentes, a ansiedade pode surgir sob a forma de medo de voltar a ter um ataque de pânico, o que pode configurar um quadro mais grave, de perturbação de pânico. Para isto tem de haver intensidade, recorrência, disfuncionalidade e persistência. Ou seja, a situação é recorrente, a pessoa passa a ter medo de ter ataques de pânico, esse medo persiste durante, pelo menos, um mês e é acompanhado por uma mudança de comportamento, como evitar ir a sítios onde imagina que pode ter um ataque de pânico.

Quais os fatores que estão na origem dos ataques de pânico?

Há ataques de pânico de espectro mais biológico e outros de espectro piscoemocional. Os primeiros são aqueles em que não se consegue determinar a causa e estão associados às pessoas com vulnerabilidades biológicas mais marcadas; nos segundos, conseguimos encontrar os fatores na origem. É comum haver uma mistura, o que torna o diagnóstico complexo. Na origem estão sempre situações que se viveram como ameaçadoras ou de perda, seja uma morte ou uma experiência de abandono ou de rejeição. Claro que isso não acontece a todas as pessoas, mas às que, na sua estrutura de personalidade, sejam mais propensas, seja por razões genéticas ou por, no seu processo de desenvolvimento, terem vivido situações deste tipo – ou ambas. Por exemplo, em criança, perdemo-nos dos pais no hipermercado e ficámos aflitos. Em adultos, sempre que perdemos os referenciais, isso pode espoletar um ataque de pânico. Por vezes, estas causas podem estar ocultas no domínio do inconsciente. As psicoterapias de pendor analítico focam-se na busca destas origens.

«A psicoterapia mais eficaz nestes casos é a cognitivo-comportamental, que trabalha o momento presente e se foca em desmontar as distorções cognitivas, crenças erróneas e generalizações arbitrárias, que tendem a surgir nos ataques de pânico»

Quais os sinais a que devemos estar atentos e que podem denunciar a iminência de um ataque de pânico?

Quando, a propósito de nada, o coração dispara, a pessoa começa com tonturas, falta de ar, formigueiros, suores, esses sintomas podem ser um indício. No entanto, para fazer o diagnóstico é essencial um despiste de causas orgânicas, pois há condições físicas que dão sintomas semelhantes ao ataque de pânico, como hipertiroidismo, hipoglicemia, arritmias cardíacas ou prolapso da válvula mitral no coração. O consumo de substâncias como haxixe e cocaína também pode provocar estes sintomas.

Qual o tratamento mais indicado?

O mais eficaz é uma combinação de terapia farmacológica e psicoterapêutica. Numa fase inicial, é indicado tomar um ansiolítico para controlar a ansiedade, até quatro semanas, no máximo. O medicamento principal será um antidepressivo-antipânico – mais especificamente um inibidor da recaptação da serotonina ou da seretonina e noradrenalina. Estes medicamentos têm uma boa eficácia e devem ser feitos por um ano, em média, mesmo depois de se estar bem. A psicoterapia mais eficaz nestes casos é a cognitivo-comportamental, que trabalha o momento presente e se foca em desmontar as distorções cognitivas, crenças erróneas e generalizações arbitrárias, que tendem a surgir nos ataques de pânico. Quando a pessoa pensa “vou morrer”, isto é uma crença errónea. Se pensa “tive um ataque de pânico, agora vou ter sempre”, é uma generalização arbitrária. Além disso, este tipo de psicoterapia trabalha a parte comportamental, promovendo a exposição controlada aos locais que eventualmente se passou a evitar, por medo de ter um novo ataque.

Podemos prevenir os ataques de pânico?

Podemos criar estratégias para evitar que surjam. É importante que as pessoas, mesmo em isolamento, tentem manter uma rotina. Fazer exercício físico, meditação, limitar o consumo de notícias, procurar sites e fontes fidedignas – porque as notícias falsas têm um efeito muito desorganizador e podem funcionar como gatilho em pessoas suscetíveis. Ouvir música, ler livros, ver séries ou falar com pessoas positivas.


Estratégias para lidar com um ataque de pânico

Durante um ataque de pânico, é fundamental aprender a regular o sistema nervoso autónomo para acalmar. O médico psiquiatra Vítor Cotovio revela várias estratégias.

  • Faça respiração abdominal
    «É importante pois contraria a hiperventilação, uma das características mais assustadoras pela sensação de falta de ar que provoca. Inspire pelo nariz e deite o ar fora pela boca, de forma lenta e profunda. Se for possível, sente-se ou deite-se, coloque as mãos na barriga e respire por essa zona, enquanto repete para si própria que o ataque de pânico vai passar.»
  • Se estiver acompanhada por pessoas conhecidas
    Estas podem ter um papel importante. «Não devem desvalorizar, mas dizer à pessoa que o ataque vai passar, para se focar no presente, respirar de forma natural e assegurar-lhe que não vai morrer.»

Pânico em tempo de COVID-19

Em alturas de surtos e pandemias, os ataques de pânico podem tornar-se frequentes, afirma o médico psiquiatra Vítor Cotovio. «Estão a acontecer coisas que têm um carácter ameaçador e pessoas com temperamentos mais suscetíveis e com um historial anterior têm aqui gatilhos para possíveis respostas de pânico. Estamos todos a ver se lavamos bem as mãos, se não tocamos na cara… é um quadro em que a diferença entre normalidade e anormalidade se esbateu e temos montado um alarme mental que nos diz para termos cuidados que habitualmente não temos. Pessoas com laivos obsessivos, num registo comum, agora podem ficar mesmo obsessivas. Porém, neste contexto, entre ser demasiado descontraído e demasiado cuidadoso, vai ser melhor optar pela segunda via, por ser mais protetora da saúde, ainda que depois tenhamos de tratar as pessoas que venham a ficar reféns desta dinâmica quando isto passar, o que também é provável que venha a acontecer», vaticina o especialista.

Última revisão: Maio 2020

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