«Devemos levar sempre a sério uma ideia de suicídio»

Fausto Amaro: «Devemos levar sempre a sério uma ideia de suicídio»

O suicídio é uma questão complexa e há uma pergunta recorrente: “porquê?”. Para melhor compreender este fenómeno, falámos com Fausto Amaro, presidente da Sociedade Portuguesa de Suicidologia.

  • PorCarlos Eugénio AugustoJornalista
  • FotografiaArtur

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), diariamente suicidam-se cerca de três mil pessoas em todo o mundo, o equivalente a uma morte a cada 40 segundos. Segundo previsões da mesma instituição, esta que é atualmente a 13.ª causa de morte a nível global tem tendência a aumentar e estima-se que, em 2020, representará cerca de 1,5 milhões de óbitos em todo o mundo.

São os homens, sobretudo acima dos 65 anos, que mais cometem suicídio, numa proporção de cerca de quatro homens para cada mulher

Em Portugal, a mais recente atualização do Eurostat indica que a taxa de suicídio é de 9,4 casos em cada 100 mil habitantes, um valor que acompanha a média registada nos países da União Europeia, mas que, comparativamente com há cerca duas décadas, indica um crescimento de quase 100 por cento. Em entrevista à Revista Prevenir, Fausto Amaro, especialista em Sociologia da Família e presidente da Sociedade Portuguesa de Suicidologia fala sobre os possíveis “gatilhos” do suicídio, os sinais a que a sociedade deve prestar atenção e como agir e sobre o Plano Nacional de Prevenção ao Suicídio da Direção-Geral da Saúde, que ajudou a criar.

Nas últimas duas décadas, a taxa de suicídio em Portugal passou de cinco para 9,4 casos em cada 100 mil habitantes. O que explica este aumento?

Não encontrámos respostas para o crescimento do suicídio, mas existem várias hipóteses. Até há relativamente pouco tempo, antes da melhoria do sistema de registo das causas de morte, a subnotificação das causas de morte por suicídio era mais elevada. O suicídio escondia-se por vezes atrás da expressão “causa indeterminada” das certidões de óbito, em alguns casos para evitar o estigma associado. Além disso, a crise económica de 2007/08 pode ter potenciado o aumento, mas ainda assim sem certezas, pois estamos perante um fenómeno que não obedece a uma relação causa e efeito.

Que fatores podem estar associados ao suicídio?

Existem três mais consensuais: o sexo, a idade e o ambiente cultural. São os homens, sobretudo acima dos 65 anos, que mais cometem suicídio, numa proporção de cerca de quatro homens para cada mulher. Algumas sociedades tendem, ainda que involuntariamente, a prestar um certo culto ao fenómeno, por exemplo, através de abordagens sensacionalistas por parte da comunicação social.

«Os suicidas sentem um profundo sofrimento psicológico, estão desesperados. E quando põem termo à vida, o que desejam é terminar com o sofrimento»

A experiência mostra que a divulgação de uma notícia pode provocar uma onda de casos por imitação. Mas a moda também é um grande impulsionador. Reparemos no caso de São Francisco, nos Estados Unidos da América. Existem duas pontes na cidade: a Golden Gate Bridge e a Bay Bridge. Ambas têm estruturas idênticas, mas um estudo mostra que as pessoas escolhem (quatro vezes mais) a primeira para se suicidar. E mais, sabe-se que muitos suicidas atravessam a Bay Bridge para cometerem o ato na Golden Gate.

Além do número de casos, o que mudou no retrato do suicídio e do suicida em Portugal nos últimos anos?

Acima de tudo, notam-se outras tendências. O risco crescente de suicídio na adolescência é um exemplo, sendo hoje a segunda causa de morte entre os 15 e os 19 anos. A exposição à Internet e redes sociais, e a consequente possibilidade de manipulação de informação, pode ser uma das razões. O caso Baleia Azul que apareceu referido nos media o ano passado é um exemplo de como os adolescentes podem ser levados. Além disso, os estudos confirmam que as perturbações mentais como a depressão, a esquizofrenia e certas perturbações da personalidade são um fator de risco acrescido. Estes dados são úteis para desenhar um perfil e sobretudo para atuar na prevenção.


O que tem sido feito nesse sentido?

Um dos métodos de prevenção é reduzir as oportunidades de suicídio. Exemplo disso foi o maior controlo sobre os inseticidas ou os venenos que se usavam em meio rural, que permitiu diminuir o suicídio por esse método. Se limitarmos o acesso de pessoas a pontos altos e a armas de fogo, isso também é uma forma de prevenção. Se o ato for dificultado, a tendência é para que a pessoa não se suicide.

O ser humano tem um instinto primário de sobrevivência. O que explica que uma pessoa decida terminar com a própria vida?

Nunca saberemos. Mas, para tentar percebê-lo, usa-se um método designado autópsia psicológica ao entrevistar a família e amigos próximos da vítima ou ao analisar mensagens deixadas pelo suicida. O que se tem descoberto é que os suicidas sentem um profundo sofrimento psicológico, estão desesperados. E, quando põem termo à vida, o que desejam é terminar com o sofrimento.

Segundo a OMS, 90 por cento dos indivíduos que puseram fim à vida têm alguma perturbação mental. Quais são as principais doenças mentais associadas ao suicídio?

Sobretudo a depressão, causada muitas vezes por desintegração social ou instabilidade familiar. É um problema de saúde pública que afeta uma em cada cinco pessoas. A esquizofrenia é outra das causas, mas, devido à sua sintomatologia mais marcada, está mais identificada e controlada pelos médicos e psiquiatras.

E como se explicam os restantes 10 por cento dos casos?

Embora não haja perturbação mental, a sua vida psíquica traduz-se em sofrimento. Seja porque esse sentimento derive de problemas pessoais, expectativas não atingidas ou outros.

Duas pessoas com os mesmos problemas podem reagir de forma distinta: uma reinventa-se, a outra suicida-se. O que explica que a segunda “quebre” e opte por acabar com a vida?

Infelizmente, a pessoa que se suicida não tem uma base de apoio psicológica e emocional sólida. Existem aspetos que protegem as pessoas que estão deprimidas e que ajudam a contrariar potenciais cenários de suicídio, como uma boa integração familiar e social, fator que contribui decididamente para o bem-estar. Por isso, é determinante educar nesse sentido desde a infância.

«Existem aspetos que protegem as pessoas que estão deprimidas e que ajudam a contrariar potenciais cenários de suicídio, como uma boa integração familiar e social»

Devemos dar às crianças ferramentas psicológicas para lutar contra a adversidade e evidenciar características resilientes. Sem essa força interior e construção positiva da personalidade, dificilmente vai resistir. E quando isso não se consegue no seio familiar, deve ser a comunidade a estar atenta a essas situações e apoiar, proporcionando-lhe boas condições de vida e apoio especializado.

Mas, em muitos casos, as pessoas não revelam o que sentem…

Sim, quando as pessoas escondem o sofrimento, é mais complicado. Mas isso pode ser contrariado com uma maior formação e sensibilização para o tema a nível geral. Por exemplo, os profissionais que trabalham nos cuidados de saúde primários, e que são os primeiros contactos para quem precisa de ajuda, deveriam de ter formação aprofundada sobre os sintomas/sinais do suicídio para estar mais alerta. Mas não só. Depois, existem os chamados “porteiros sociais”, pessoas com quem contactamos no dia a dia, como taxistas, barmen ou porteiros, e que também deviam ser sensibilizadas para estes problemas. Gente que tem contacto com potenciais suicidas e pode sugerir ajuda ou encaminhar a pessoa.

Como referiu, o suicídio, muitas vezes, está associado a um quadro depressivo, uma situação que as pesquisas indicam mais diagnosticada nas mulheres. Paradoxalmente, são os homens que mais o tentam e efetivam. Porquê?

Os números confirmam-no, de facto. Os dados mais recentes indicam que a taxa de suicídio dos homens é de cerca de 15,2 casos para “apenas” 4,2 nas mulheres. É difícil apurar as razões, mas a experiência mostra que as mulheres são mais resilientes face às adversidades e encaram os problemas de forma diferente, mais positiva. Do ponto de vista biológico, a maternidade também poderá dar um outro envolvimento emocional às mulheres face à vida.

Quais as principais diferenças entre o homem e a mulher no que toca ao suicídio?

O homem usa geralmente métodos mais violentos geralmente relacionados com as profissões que exercem, como é o caso das forças de segurança, as quais são também geradoras de elevado stresse entre os profissionais. Enquanto as mulheres têm mostrado tendência contrária e a escolher métodos menos violentos.

«O potencial suicida não vai reagir bem se se sentir incompreendido. Por vezes, até pode reforçar a sua intenção»

Mas num e outro caso o ambiente cultural em que vivem exerce grande influência na passagem ao ato. Por exemplo, os contextos culturais que desvalorizam o papel social da mulher e que são mais tolerantes à violência doméstica têm sido associados ao suicídio das mulheres

O stresse é, assim, um fator de risco acrescido para o suicídio?

Só no caso de isso conduzir a uma situação sem saída. Tem sido observado que nos períodos de guerra, quadro de stresse por natureza, existem menos suicídios. Isso acontece porque as pessoas mobilizam-se em prol de um bem comum que é salvar a vida e sair da situação de conflito. Agora, se o stresse levar a uma situação limite, voltamos à possibilidade de entrar num quadro depressivo, e logo mais propenso ao suicídio.

E por que é que são os homens com mais de 65 anos a cometê-lo?

Principalmente, por uma questão de inadaptação depois da reforma, caso não exista um projeto de vida. Numa sociedade que ainda responsabiliza o homem pelo sustento da família, deixar de ter essa tarefa pode fazê-lo sentir-se inútil. O consumo excessivo de álcool é também outra causa comum. Depois, há ainda um outro problema, que é o facto de muitos viverem sozinhos, uma situação que atinge cerca de 10 por cento dos maiores de 65 anos.

Que sinais de alarme indicam que um familiar ou amigo pode vir a cometer suicídio?

Sobretudo ecos de desespero, semblantes depressivos e conversas e ideias sobre suicídio (“a vida não tem sentido”, “era melhor já cá não estar…”). Devemos levar sempre a sério uma ideia de suicídio, valorizando até os pequenos indícios.

O suicídio é a segunda causa de morte entre jovens dos 15 e os 19 anos

Outros indicadores são mudanças de comportamento, isolamento, perda de interesse por projetos ou pela vida e um desapego geral.

Como se deve lidar com essa situação?

Em primeiro lugar, mostrar disponibilidade em querer ouvir e tentar compreender. O segundo passo será conseguir motivar a pessoa a procurar ajuda profissional na área da saúde mental e do suicídio.

E o que nunca se deve dizer ou fazer?

Desvalorizar a ideia ou argumentar que a ideia é errada. O que importa é ouvir a pessoa e oferecer ajuda. O potencial suicida não vai reagir bem se se sentir incompreendido. Por vezes, até pode reforçar a sua intenção.

Sabe-se que por cada adulto que se suicida existem cerca de 20 tentativas. Como evitar que alguém que tentou matar-se não volte a fazê-lo?

É uma estimativa correta. Além disso, os números mostram que 30 a 40 por cento das tentativas de suicídio acabam por ser efetivadas no ano seguinte, pelo que devem ser levadas a sério, assim como as automutilações, em especial nos jovens. Procurar o apoio dos serviços de saúde mental pode ser decisivo.

Portugal tem uma rede de cuidados eficiente nessa área?

A rede de cuidados é eficiente, mas não pode estagnar e deve estar pronta para novos desafios e por isso se reforça a importância da formação dos profissionais de saúde. Por outro lado, ao melhorar o serviço de saúde mental, aumentamos o nível de satisfação das pessoas e reduzimos a taxa de suicídio. Esse é um dos objetivos do Plano Nacional de Prevenção ao Suicídio.

Como classifica a atuação desse plano?

Neste momento, o plano está em fase de avaliação e reestruturação, e procura cobrir as principais áreas da prevenção do suicídio. Por exemplo, a necessidade de redução do consumo excessivo de bebidas alcoólicas e a melhoria do apoio social, pois as dificuldades económicas aumentam o risco de suicídio.

«É importante passar uma mensagem positiva e que todos os problemas podem ter uma solução»

Além disso, reforçou-se a aposta numa melhor formação dos clínicos gerais e dos especialistas em Saúde Mental e uma maior atenção e envolvimento ao tema nas escolas e autarquias. Conseguimos também sensibilizar a comunicação social para que seja feito um tratamento não sensacionalista sobre o tema.

Que mensagem quer deixar a alguém que pense frequentemente em suicídio?

Que procure ajuda, seja junto de um familiar ou amigo, e que se dirija imediatamente a um serviço de saúde, pois aí vai encontrar uma resposta e alternativa para a sua situação. É importante passar uma mensagem positiva e que todos os problemas podem ter uma solução.

Última revisão: Setembro 2018

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