Depressão pós-parto: “Fui mãe e estou infeliz. Porquê?”

Depressão pós-parto

Sentir-se triste após o parto é normal. Mas, quando esse quadro se arrasta demasiado tempo, podemos estar na presença de uma depressão pós-parto. Aí é preciso não hesitar e pedir ajuda.

  • PorCatarina Caldeira BaguinhoJornalista

  • Entrevista aDra. Rita TorresPsicóloga clínica

«Numa altura em que há expectativa de celebração, sintomas de depressão leve e mudanças de humor são comuns nas mães que deram à luz recentemente. A maioria experimenta, pelo menos, alguns sintomas da depressão pós-parto, nomeadamente, tristeza, dificuldade em dormir, irritabilidade, alterações do apetite e problemas de concentração», descreve a psicóloga clínica Rita Torres à Revista Prevenir. Dadas as mudanças que a chegada de um bebé provoca nos ritmos da mulher e do casal, passar por isto não é necessariamente motivo de alarme. Mas, quando os sintomas persistem durante várias semanas, é importante recorrer a ajuda especializada para apurar se o que está em causa é uma depressão pós-parto, que além das consequências nefastas para a saúde das mulheres, pode ter também impacto negativo tanto para o casal como para o bebé.

10 a 20 por cento das mulheres sofre de depressão pós-parto

O que distingue a depressão pós-parto da “simples” tristeza (baby blues) experienciada após o parto por grande parte das mulheres?

No início, uma depressão pós-parto pode ser semelhante ao blues pós-parto. Afinal, ambas as situações partilham muitos sintomas, incluindo as alterações do humor, choro frequente, tristeza, insónia e irritabilidade. A diferença está na severidade e maior duração dos sintomas no caso da depressão pós-parto. Se já passaram várias semanas e a sintomatologia não desaparece, e existe uma crescente incapacidade de a mulher funcionar normalmente, então aí, muito provavelmente, estaremos perante um quadro de depressão pós-parto.

Quando surge a depressão pós-parto?

Normalmente, pouco depois do nascimento do bebé, desenvolvendo-se num período de vários meses, mas também pode surgir repentinamente.

Em algumas mulheres, os primeiros sinais podem só aparecer após vários meses de terem dado à luz

O que pode estar na origem de uma depressão pós-parto?

Depende muito do caso de cada mulher, mas essencialmente deve-se a dois fatores: hormonais/físicos e emocionais. A nível físico e hormonal, o decréscimo abrupto do estrogénio e progesterona, bem como de hormonas produzidas pela tiroide, pode levar a mudanças bruscas de humor, cansaço e a uma permanente sensação de tristeza. Paralelamente, a privação de sono causa alterações neuroquímicas significativas e o corpo ainda está em recuperação do parto, o que também pode propiciar um humor mais negativo. A nível emocional, está em causa a forma como a mulher se vê depois de todas as alterações físicas que viveu devido à gravidez, o que influencia a sua autoimagem e autoestima, interferindo, assim, no desempenho de outros papéis, como o de companheira. Além disso, a rotina da mulher altera-se, passando a ser muito em torno do bebé e, caso o/a companheiro/a não colabore, pode ser ainda mais desgastante. A estes fatores, podem também juntar-se o temperamento do bebé ou dificuldades financeiras, que são também stressores a ter em conta.

Em média, quanto tempo dura este tipo de depressão?

Pode durar entre alguns meses e dois anos, dependendo de vários fatores como o momento da deteção dos sintomas, o início do tratamento, o seguimento correto do tratamento e a presença de suporte familiar e social.

Há mulheres com maior probabilidade de sofrer de depressão pós-parto?

Existem fatores de risco para desenvolver depressão pós-parto, como a história prévia de depressão ou outros problemas psicológicos, falta de suporte familiar e de amigos, dificuldades conjugais (como a violência doméstica), problemas de saúde e/ou temperamento do bebé ou história de vinculação prévia ansiosa da mulher com os próprios pais.

«Quando a mulher tem dificuldade em assumir que precisa de apoio, os familiares devem motivá-la a procurar ajuda, alertando-a para o impacto negativo que a depressão pode ter também no bebé»

O pai também pode sofrer de depressão pós-parto?

Sim. Também os recém-pais experienciam um desequilíbrio hormonal pois há um decréscimo de testosterona e um aumento de estrogénio. Este desequilíbrio, aliado aos efeitos da privação de sono, pode ser terreno fértil para o desenvolvimento de depressão pós-parto. Outros fatores de risco são histórias prévias de problemas de saúde – física e mental –, conflitos conjugais, dificuldades económicas, elevados níveis de distresse [o mau stresse, que se prolonga durante algum tempo] ou problemas relacionados com o bebé, incluindo o facto de ser prematuro. No caso dos homens, há diferenças no que toca aos sintomas que indicam depressão pós-parto, nomeadamente, maior risco de abuso de substâncias, comportamentos agressivos e evitamento do que se está a passar através do trabalho ou da prática de desporto.

Como se deve abordar o tema de depressão pós-parto a uma mulher que, embora esteja a passar por esse problema, não o admite?

Os familiares devem motivar a mulher a procurar apoio, devendo alertá-la para o impacto negativo que a depressão também tem no desenvolvimento do bebé. Muitas mulheres têm dificuldade em assumir que precisam de apoio, porque têm medo do que poderá advir do tratamento. Por exemplo, têm medo que os fármacos influenciem a qualidade do leite materno. Outras resistências prendem-se com a própria dificuldade em procurar apoio no campo da saúde mental. Procurar ajuda é o primeiro passo para reconhecer que se tem um problema, e isso por si só já é difícil, mas pessoas próximas devem incentivar a mulher a fazê-lo.

Quando se deve procurar ajuda de um especialista?

A intervenção na depressão pós-parto deve ser o mais precoce possível. Por isso, se os sintomas persistirem durante algumas semanas, comprometendo o funcionamento da mulher, convém procurar ajuda de um especialista.

Que tipos de tratamentos existem para a depressão pós-parto?

A terapia combinada com acompanhamento psicológico e psiquiátrico pode ser o ideal ou, em alguns casos, apenas o psicológico. O objetivo da terapia será promover a integração do papel de mãe em todas as outras dimensões da vida da mulher, para que esta não se esqueça de cuidar também de si. A duração do tratamento depende, por exemplo, da severidade do quadro, da comorbilidade com outros quadros clínicos e dos recursos apresentados pelas mulheres. A minha abordagem é sempre idiográfica, e só depois de fazer uma avaliação inicial é que consigo fazer uma previsão da duração do tratamento. No entanto, existem protocolos de intervenção com duração de 12 semanas.


Sintomas da depressão pós-parto

Se os sinais de alarme abaixo persistirem, deve procurar ajuda de um profissional de saúde mental.

  • Falta de interesse no bebé;
  • Sentimentos negativos em relação ao bebé;
  • Falta de interesse em si própria;
  • Perda de prazer;
  • Falta de energia e motivação;
  • Sentimentos de inutilidade e culpa;
  • Alterações no apetite ou peso;
  • Dormir mais ou menos do que o habitual;
  • Pensamentos recorrentes de morte ou suicídio.

Psicose puerperal: quando a recém-mãe se torna agressiva

«Cerca de 0,1 a 0,2 por cento das mães sofrem de psicose puerperal», uma perturbação semelhante à depressão pós-parto, mas, enquanto nesta há uma «certa apatia, na psicose puerperal há uma tendência para a agressividade», explica a psicóloga clínica Rita Torres.

  • Sintomas «Ideação homicida em relação ao bebé, podendo, em casos extremos, haver infanticídio. Outros sintomas são a confusão mental, alucinações, delírios de perseguição e mudanças rápidas de humor.»
  • O que fazer «É necessária ajuda profissional precoce, sendo também importante a vigilância do/a companheiro/a ou familiares que possam cuidar do bebé até que os sintomas entrem em remissão.»

A depressão pós-parto evita-se assim

Procurar ajuda profissional para superar a depressão pós-parto é um passo essencial, mas para a combater ou prevenir há cuidados que dependem muito de si.

  1. Faça do sono uma prioridade, custe o que custar
    Peça ajuda ao/a «companheiro/a ou a outros familiares para cuidar do bebé», para que possa dormir o tempo que precisar.
  2. Reserve tempo para atividades que lhe deem prazer
    «Crie espaços no seu dia para o seu autocuidado, como ler um livro ou sair com amigos.»
  3. Siga uma alimentação que a faça sentir-se bem
    Ter uma alimentação equilibrada «ajuda o organismo a resistir a alterações do apetite. Comer mal só irá agravar os sintomas depressivos e influenciar negativamente o leite materno».
  4. Volte a calçar os ténis
    «Cerca de 30 minutos diários de atividade física por dia podem ser tão benéficos como a medicação em quadros depressivos. Basta, por exemplo, fazer uma caminhada diária.»
  5. Encontre-se com pessoas de quem gosta
    «Procure nutrir as boas relações com familiares e amigos: é importante que sinta que tem apoio e que consegue ter ajuda para cuidar do bebé.»
Última revisão: Setembro 2017

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