«Devemos decidir de forma solitária tudo o que diz respeito ao nosso propósito de vida»

: Decidir: como tomar decisões acertadas

Os nossos sonhos, os nossos relacionamentos, a nossa espiritualidade, o nosso desenvolvimento pessoal e também a nossa vocação devem ser sempre decisões pessoais, defende a coach Teresa Marta, que neste artigo dá ferramentas que nos ajudam a decidir melhor.

  • PorNazaré TochaJornalista

  • Entrevista aTeresa MartaMental Coach e fundadora da Academia da Coragem

Obrigar-nos a escolher, a não poder ter tudo, implica podermos ficar a ganhar, mas, eventualmente, também a perder e, em parte, por isso, decidir parece-nos muitas vezes complicado. «Qualquer decisão é tomada em função do que tenho agora (ou não tenho) e do que desejo alcançar. O que tenho agora é o resultado da minha vida até ao momento da tomada de decisão, logo, todas as minhas experiências positivas e negativas condicionam também as decisões que vou tomar», explica Teresa Marta, coach, à Revista Prevenir. No preciso momento da decisão, pesam «a nossa história pessoal, os nossos padrões emocionais e comportamentais, os nossos medos, mas também os “outros”». Decidir é um processo com um ponto de partida complexo, mas podemos sempre descomplicar.

Baixa autoestima e autoconfiança e o insucesso de decisões anteriores são alguns dos fatores que afetam a nossa capacidade de decidir

O que afeta a nossa capacidade de decidir?

Por um lado, características pessoais como uma baixa autoestima, autoconfiança, assertividade, inteligência emocional, social ou relacional; o receio de não ser entendido, o medo de perder o amor dos outros, da humilhação e de ser excluído e a autoculpabilização. Por outro lado, também pesa o insucesso de decisões tomadas no passado, a culpabilização dos outros pelas decisões tomadas, família pouco flexível e pouco aberta à singularidade pessoal, ter perdido dinheiro ou pessoas devido a decisões tomadas, ter uma religião ou um credo que impõe regras rígidas no que respeita às decisões “corretas” e “incorretas”.

Em que circunstâncias devemos pedir a opinião de outros antes de tomar uma decisão?

Sobretudo nas decisões que envolvam a nossa saúde ou a saúde de familiares próximos; nas resoluções fundamentais sobre a vida dos nossos filhos; em situações de mudança profissional; nos casos de mudanças radicais de alimentação e em decisões relativas à mudança de país para trabalhar ou viver.

«Deveríamos decidir de forma solitária tudo o que diz respeito ao nosso propósito de vida: os nossos sonhos, os nossos relacionamentos, a nossa espiritualidade…»

Que decisões devemos tomar de forma solitária?

Se é que isso é possível, deveríamos decidir de forma solitária tudo o que diz respeito ao nosso propósito de vida: os nossos sonhos, os nossos relacionamentos, a nossa espiritualidade, o nosso desenvolvimento pessoal e também a nossa vocação, que inclui a decisão sobre a nossa área de estudo.

Os testes vocacionais são dispensáveis?

É um tema polémico, já que a maioria dos pais e educadores consideram imprescindível que os filhos os façam para ajudar a decidir o seu futuro. No entanto, todos nascemos com a capacidade de decidir qual a via que devemos seguir. Essa via é a que nos faz felizes. Mas os pais e os próprios alunos decidem em função de aspetos bem diferentes: empregos com mais futuro, os mais bem pagos ou os mais considerados socialmente. Não se pode ser feliz a fazer o que não amamos. Esta é a sabedoria interior que todos temos ao nosso dispor para decidir e que tão pouco usamos.

«Todos nascemos com a capacidade de decidir qual a via que devemos seguir. Essa via é a que nos faz felizes»

A nossa intuição é uma boa ferramenta para avaliarmos se a decisão que vamos tomar é acertada?

Sim, é um excelente aliado para a tomada de decisões porque nos conecta com a nossa verdade interior e com o nosso real propósito. Liga-nos ao nosso verdadeiro desejo e ao que nos faz falta para sermos felizes.

Porque ainda resistimos em usá-la?

Porque fomos ensinadas, desde sempre, a ouvir a razão mais do que o coração. Fomos ensinadas a seguir o que é certo em função do que a sociedade, o status, a família, os amigos, assim consideram. Este background confere a certificação das nossas decisões. Tudo o que está fora deste sistema é considerado errado ou, pelo menos, pouco prudente. Por isso, quando decidimos com a intuição, a partir do nosso interior, ativamos a culpa. Sentimos que estamos a fazer algo de errado, algo que vai contra. Esta culpa é altamente limitadora, com consequências muito negativas na forma como nos sentimos, no nosso bem-estar e na nossa felicidade. E claro que decidir fora daquilo que é o sistema instituído gera medo. Porque nos retira a segurança de estarmos a decidir com base no protocolo e coloca-nos a agir por conta própria, onde sentimos elevar o potencial de erro, com o qual convivemos tão mal.

«Quando a decisão que vamos tomar gera queixas físicas, como febre, dor de estômago, dores de cabeça e perturbações gástricas e intestinais, devemos parar e ponderar»

O que indicia que a decisão que vamos tomar não é a acertada?

Os principais sinais de alarme são dados pelo nosso corpo. Quando a decisão que vamos tomar gera queixas físicas, como febre, dor de estômago, dores de cabeça e perturbações gástricas e intestinais, devemos parar e ponderar. De igual forma, são sinais de alerta: angústia, ansiedade, insónias, irritabilidade, distúrbios alimentares, ataques de choro, tristeza e falta de vontade para sair de casa ou ir trabalhar.

Em que casos devemos adiar uma decisão?

Sempre que estejamos sob influência de um estado emocional alterado ou numa circunstância limite. Também não devemos decidir na pressão do tempo breve, de algo que nos pedem para “já”. Temos de estar muito centradas e focadas no nosso propósito quando tomamos uma decisão, não cedendo à pressão temporal ou emocional do momento. As decisões que temos de tomar “para já” ou “para ontem” são todas as que implicam a nossa não sobrevivência imediata. Tudo o resto pode esperar, por muito que nos incutam o contrário. Pior que não decidir é tomar uma decisão à pressa, sob pressão ou debaixo de um estado emocional negativo ou descontrolado.

«Não existem más decisões. O que existem são decisões tomadas em função das circunstâncias, do conhecimento e até do desconhecimento que temos em cada momento»

Como devemos gerir uma má decisão e encontrar nela um lado positivo?

As más decisões são um dos melhores pontos de cura emocional. Permitem-nos perceber quais as razões que estiveram na origem da nossa decisão e atestar a sua real validade. Por outro lado, permitem-nos ainda perceber onde nos precipitámos, que soluções alternativas tínhamos e porque optámos por não as seguir. Permitem-nos descobrir os medos e os padrões limitadores que condicionaram a forma como decidimos e se estes ainda são válidos para nós. Ou seja, temos sempre algo a aprender com as decisões que consideramos não terem sido as mais corretas. No entanto, verdadeiramente, não existem más decisões. O que existem são decisões tomadas em função das circunstâncias, do conhecimento e até do desconhecimento que temos em cada momento.


Quando têm de decidir as pessoas assertivas…

  • Clarificam e estabelecem o resultado a alcançar.
  • Reúnem toda a informação necessária.
  • Avaliam hipóteses alternativas.
  • Planeiam os timings da decisão a tomar.
  • Reúnem os recursos que podem ajudar a decisão a ser a mais correta.
  • Esclarecem dúvidas.
  • Analisam oportunidades e ameaças da decisão a tomar.
  • Visualizam as mudanças que a decisão vai trazer à sua vida.
  • Permitem-se sentir-se como se a decisão já tivesse sido tomada.
  • Estão autoconscientes de onde estão e para onde desejam ir.


A nossa decisão e os “outros”

«É o aspeto mais difícil e influente no processo de decisão. Os “outros” são um dos fatores que as pessoas mais apontam para as decisões que tomam ou para as que deixam de tomar. O que decidimos acaba sempre por provocar mudanças na vida daqueles com quem nos relacionamos e, além disso, preocupa-nos o que vão pensar, se vamos ser apoiados. Os “outros” oferecem-nos também um aparente conforto face à nossa decisão: decidimos, mas podemos sempre “culpar” os outros ou as circunstâncias pela decisão tomada.»


Como decidir e não falhar

Teresa Marta, mental coach e fundadora da Academia da Coragem, indica o passo a passo para tomarmos uma decisão de forma assertiva, sem ficarmos reféns do medo e da hesitação.

Antes de tomar uma decisão, pergunte-se…

  • O timing é o ideal?
  • Sinto-me plenamente autoconsciente do que quero?
  • Estou focado e a minha visão do problema é clara?
  • O meu estado psicológico e emocional está equilibrado?
  • Esta decisão contribui para o meu maior propósito?
  • Esta decisão foi tomada em sintonia com a minha verdade?
  • Vai contribuir para o meu crescimento pessoal ou melhoria da minha vida?
  • Vai prejudicar a vida de alguém?

Durante a tomada de decisão…

  • Esteja aberto à possibilidade de mudar o sentido da decisão, caso as circunstâncias se alterem ou se a sua intuição lhe der alertas contrários.
  • Esteja atento a opções alternativas e avalie-as.
  • Se se sentir desconfortável ou doente, questione a decisão.
  • Tome consciência das mudanças que a decisão está a gerar.
  • Esteja 100 por cento comprometido com o processo.
  • Não viva na dúvida permanente sobre o resultado da decisão.
  • Se necessário, procure ajuda especializada para garantir que a decisão está a ser implementada da forma mais indicada.

Depois de tomar a decisão…

  • Assuma a responsabilidade pessoal pelos resultados, sem se culpar e sem culpar os outros ou as circunstâncias.
  • Analise e compare o nível de ansiedade sentido após a tomada de decisão com o nível de ansiedade prévio à decisão.
  • Reconfirme a decisão tomada – follow-up e consolidação daquilo que decidiu.
  • Agradeça à decisão o que lhe ensinou.
  • Esteja aberto para tomar novas decisões que ampliem o efeito da decisão inicial ou que corrijam alguns pontos onde a mesma possa ser melhorada.
  • Anule a possível culpa ou medo relativamente a resultados.
Última revisão: Julho 2016

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