Será intolerância ou alergia alimentar? Uma nutricionista explica a diferença

Será intolerância ou alergia alimentar?

São muitas vezes confundidas, mas, apesar de ambas se manifestarem através do que comemos, a intolerância alimentar e a alergia alimentar são condições muito diferentes.

  • PorCarmen SilvaJornalista

  • ColaboraçãoDra. Inês PáduaNutricionista

A alergia alimentar «é uma reação adversa que resulta de uma resposta do sistema imunológico quando é exposto a um determinado alimento, que identifica como sendo um agressor», começa por explicar Inês Pádua, nutricionista e autora do livro Tenho Alergia Alimentar e Agora? (Pergaminho). É comummente confundida com a intolerância alimentar, no entanto, são condições distintas. «A principal diferença é o envolvimento, ou não, do sistema imunitário, que é o que condiciona toda a sintomatologia», reforça a nutricionista. Assim sendo, tal como a alergia alimentar, a intolerância alimentar é uma reação adversa que ocorre após exposição a um determinado alimento, mas «trata-se de uma hipersensibilidade alimentar não alérgica, ou seja, que não envolve o sistema imunitário mas, geralmente, apenas o gastrointestinal e, por isso, não põe a vida da pessoa em risco, ao contrário da alergia alimentar», especifica a autora, sublinhando que «as reações alérgicas graves (anafilaxia) são potencialmente fatais, daí que nestes casos «se deva sempre contactar o Instituto Nacional de Emergência Médica (112)».

A alergia alimentar resulta de uma resposta do sistema imunitário, enquanto que a intolerância alimentar envolve apenas o sistema gastrointestinal

As causas da alergia alimentar

Existem várias causas apontadas para o aparecimento de alergias e intolerâncias, como explica Inês Pádua à Revista Prevenir. «Acredita-se que a alergia alimentar tem uma origem multifatorial, ou seja, existem vários fatores que no seu conjunto são responsáveis pelo seu surgimento, nomeadamente genéticos, demográficos e também ambientais; nestes últimos é importante salientar que muitos derivam do estilo de vida mais “ocidentalizado”», alerta a nutricionista, especificando: «Alterações na nossa alimentação (quer por diminuição da ingestão de alguns nutrientes, como o ómega-3, quer por aumento da exposição a agroquímicos), o próprio sedentarismo, a exposição solar, a poluição ambiental; hábitos tabágicos, utilização indiscriminada de determinados medicamentos (particularmente antibióticos) e o ambiente quase asséptico em que tentamos criar as crianças».

As causas da intolerância alimentar

No caso das intolerâncias, podem estar envolvidos diferentes mecanismos: «Mecanismos enzimáticos, como o caso da intolerância à lactose, que é causada pela deficiência de uma enzima; mecanismos farmacológicos, como no caso de reação a alimentos libertadores de histamina (morangos, chocolate ou enlatados); mecanismos de reação a aditivos presentes nos alimentos (por exemplo, reação ao glutamato monossódico, um aditivo usado na culinária oriental e que pode causar intolerâncias caracterizadas por dor de cabeça e rubor, não se tratando, contudo, de uma reação alérgica), e mecanismos psicossomáticos, de causas psicológicas, emocionais e sociais. Nestas reações incluem-se as inespecíficas, e até muitas vezes não reprodutíveis, com causas psicológicas e sociais», aponta Inês Pádua.

O que fazer quando surgem

Se desconfia que sofre de uma intolerância ou alergia alimentar, o primeiro passo deve ser sempre ir ao médico. «Só desta forma se conseguirá um diagnóstico correto e evitar sintomas e/ou restrições alimentares desnecessárias», explica a nutricionista Inês Pádua, que recomenda: «Deve recorrer ao médico de Medicina Geral e Familiar e/ou ao médico imunoalergologista (no caso de suspeita de alergia alimentar) ou médico gastrenterologista».

Vale a pena fazer o teste de intolerância alimentar?

São bastante publicitados, mas «carecem de fundamentação científica e de fiabilidade, não sendo por isso úteis no processo de diagnóstico», afirma a nutricionista Inês Pádua, justificando que «estes testes medem anticorpos IgG, que são produzidos normal e fisiologicamente pelo sistema imunitário como forma de reconhecimento de componentes dos alimentos que ingerimos». Assim sendo, segundo a nutricionista, «estes testes acabam por potencialmente classificar-nos como intolerantes aos alimentos a que mais somos expostos».


Alergia alimentar ao leite e intolerância à lactose: qual a diferença?

Têm pontos em comuns, mas são condições distintas. Inês Pádua, nutricionista, traça o perfil.

Alergia alimentar ao leite de vaca

É uma reação adversa do organismo, com envolvimento do sistema imunitário, à proteína do leite de vaca. Pode surgir em qualquer idade, mas a prevalência é maior nas crianças.

  • Sintomas
    Na pele e mucosas (urticária); respiratórios (pieira, dificuldade em respirar); gastrointestinais (vómitos, cólicas, diarreia) e cardiovasculares (diminuição da pressão arterial, perda de consciência).
  • Alimentos que causam sintomas
    Todos os que contêm proteína do leite de vaca (leite, queijo, iogurte, manteiga), incluindo alimentos sem lactose.
  • Grupos de risco
    Pessoas com doença atópica ou que tenham, pelo menos, um familiar direto (pais ou irmãos) com doença alérgica.
  • Como se diagnostica
    «Recolha da história clínica e testes cutâneos picada-picada (picada no alimento cru ou cozinhado e posteriormente na pele)
    e provas de provocação oral (ingestão de doses progressivamente maiores do alimento que se suspeita causar a alergia alimentar ou conter o alergénio).»
  • Como tratar
    «Eliminação do alergénio (proteína presente no alimento que provoca a alergia) da alimentação. Não existindo cura, é possível que nas crianças possa existir uma aquisição natural/espontânea de tolerância aproximadamente até à idade escolar.»

Intolerância à lactose

É a intolerância alimentar mais comum, segundo a Direção-Geral da Saúde, e surge por incapacidade de o organismo digerir a lactose, um hidrato de carbono presente no leite. É mais prevalente em adultos/idosos porque com a idade existe uma diminuição natural da produção de lactase (a enzima necessária para digerir a lactose).

  • Sintomas
    Gastrointestinais como cólicas, diarreia, náuseas e vómitos.
  • Alimentos que causam sintomas
    Qualquer um que contenha leite, contudo os sintomas e gravidade dependem da dose. «O queijo e o iogurte não desencadeiam sintomas ou provocam sintomas mais leves porque contêm menos lactose e/ou contêm ácido láctico que ajuda na sua digestão.»
  • Grupos de risco
    O envelhecimento é o único risco conhecido.
  • Como se diagnostica
    «Recolha da história clínica e teste respiratório de hidrogénio (deteta a presença deste gás no ar expirado após a ingestão de uma bebida com lactose: numa situação normal, a sua quantidade é reduzida, no caso de intolerância, a fermentação da lactose no intestino leva à produção de hidrogénio). Para muitas intolerâncias, e dadas as queixas inespecíficas, o processo passa pela evicção dos alimentos suspeitos por tentativa-erro.»
  • Como tratar
    «Redução ou exclusão do leite da alimentação, exceto versões sem lactose. A toma de comprimidos de lactase podem ajudar na digestão. Se existir uma diminuição de produção de lactase com a idade ou de causa genética, não existe possibilidade de se deixar de ser intolerante. Se a intolerância for uma causa secundária, por exemplo, de perturbações gastrointestinais, pode ser revertida assim que a causa é tratada.»

Alergia alimentar ao trigo e intolerância ao glúten

Diferenças entre a alergia alimentar ao trigo e os dois tipos de intolerância ao glúten, presente na aveia, trigo, centeio e cevada.

Intolerância ao glúten

É provocada pela ingestão de glúten, um conjunto de proteínas insolúveis presentes em cereais como aveia, trigo, centeio e cevada. Esta intolerância pode ser celíaca (doença celíaca) ou não celíaca (uma condição que ainda carece de de comprovação a vários níveis)», sublinha Inês Pádua.

1. Doença celíaca
Trata-se de uma patologia autoimune, causada por uma sensibilidade permanente ao glúten em que, perante a sua ingestão, o organismo reage de forma adversa contra o próprio intestino.

  • Sintomas
    Na forma clássica: diarreia crónica, distensão abdominal, dores abdominais de intensidade variável, gases/flatulência, perda de peso e comprometimento nutricional (má absorção). Na forma atípica, poderá passar despercebida durante a infância, manifestando-se na idade adulta através de anemia, dores ósseas e osteoporose, alterações dermatológicas e de comportamento.
  • Grupos de risco
    «Pessoas com predisposição genética para ter sensibilidade permanente ao glúten. Mas o aparecimento ou não da doença poderá ser condicionado por fatores como a alimentação, nomeadamente a idade de introdução do glúten na alimentação, embora ainda haja necessidade de mais estudos a este nível.»
  • Alimentos que causam sintomas
    Cereais que contenham glúten naturalmente ou por contaminação, como aveia, trigo, centeio e cevada.
  • Como se diagnostica
    «Além da história clínica, análises clínicas, serologias, pode ser feita endoscopia alta com biopsias do duodeno.»
  • Como tratar
    Exclusão do glúten da alimentação. «Se a intolerância for uma causa secundária, por exemplo, de perturbações gastrointestinais, pode ser revertida assim que a causa for tratada.»

2. Intolerância ao glúten não celíaca
É diagnosticada em pacientes que, «não sendo capazes de tolerar o glúten, não produzem os mesmos anticorpos presentes em quem sofre de doença celíaca nem apresentam os mesmos danos a nível intestinal».

  • Sintomas
    Diarreia crónica, distensão e dor abdominal, gases/ flatulência, perda de peso e comprometimento nutricional.
  • Alimentos que causam sintomas
    Cereais que contenham glúten, naturalmente ou por contaminação, como aveia, trigo, centeio e cevada.
  • Grupos de risco
    Por ser uma condição que carece de reconhecimento, não existem dados válidos sobre a epidemiologia. Contudo, os relatos têm sido maioritariamente em adultos.
  • Como se diagnostica
    «Com base na melhoria da sintomatologia após a eliminação de glúten da dieta».
  • Como tratar
    Exclusão do glúten da alimentação. Apesar de carecer de reconhecimento, incluindo ao nível da patofisiologia, não existe cura.

Alergia alimentar ao trigo

É uma reação adversa do organismo contra o trigo, envolvendo o sistema imunitário. Pode surgir em qualquer idade, mas é mais frequente na infância.

  • Sintomas
    Na pele e mucosas (urticária); respiratórios (pieira, dificuldade em respirar); gastrointestinais (vómitos, cólicas, diarreia) e cardiovasculares (diminuição da pressão arterial, perda de consciência).
  • Alimentos que causam sintomas
    Qualquer alimento com proteínas de trigo, como pão, bolachas e massas.
  • Grupos de risco
    Pessoas com doença atópica ou que tenham, pelo menos, um familiar direto (pais ou irmãos) com doença alérgica.
  • Como se diagnostica
    «Recolha da história clínica, a par de procedimentos padronizados, como testes cutâneos picada-picada (picada no alimento cru ou cozinhado e depois na pele) e provas de provocação oral (ingestão de doses progressivamente maiores do alimento que se suspeita causar a alergia alimentar ou conter o alergénio).»
  • Como tratar
    Através da exclusão do trigo. «Pode ocorrer aquisição natural de tolerância até à idade escolar.»
Última revisão: Outubro 2019

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