Segundo o relatório da Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar, 97,2 por cento dos alimentos analisados contêm resíduos de pesticidas, ainda que dentro dos limites permitidos na União Europeia. Temos razões para nos preocupar?

  • PorRita Alves

  • Entrevista aProf.ª Dra. Margarida SilvaProfessora na Escola Superior de Biotecnologia

“Pesticidas”. Com certeza já ouviu este termo. Mas sabe o que realmente significa? Os pesticidas são substâncias químicas utilizadas na agricultura para matar organismos e maximizar a produção. Entre a sua aplicação e o consumo dos alimentos, é importante respeitar um período de tempo para que estas substâncias se degradem. Mesmo assim, os resíduos podem permanecer, representando um risco para a saúde.

De modo a avaliar quais os alimentos mais e menos contaminados, a Autoridade Europeia para a segurança Alimentar (EFSA) teve acesso aos testes realizados a 774 pesticidas em 84.341 amostras de alimentos, recolhidas em 2015, de países da União Europeia, Noruega, Islândia e alguns países não europeus. Os alimentos analisados foram beringela, banana, brócolos, azeite virgem, sumo de laranja, ervilhas, pimentos, uvas de mesa, trigo, manteiga e ovos. Segundo o estudo, 97,2 por cento das amostras tinham vestígios de pesticidas dentro dos limites legais. E 28 por cento apresentavam uma combinação de vários pesticidas – os cocktails de pesticidas.

Em entrevista à Revista Prevenir, Margarida Silva, ambientalista e professora da Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa, comenta as principais conclusões do estudo e ajuda a proteger dos possíveis riscos.

97,2 por cento das amostras analisadas neste relatório estão dentro dos limites legais no que toca a resíduos de pesticidas. O que significa este valor?

Na prática, este valor não é suficiente para que possamos dormir descansados, pois prova que ainda há alimentos em circulação que têm quantidades ilegais de pesticidas. Embora três por cento pareça pouco, pode ser o suficiente para deixar alguém doente e, só por isso, já é demais, sobretudo se a “sorte” nos calhar a nós.

Considera-se que esses produtos estão dentro de limites seguros. Devemos ainda assim optar por alternativas biológicas?

Os máximos de contaminação que a lei estabelece não são sinónimo de proteção da saúde. Se assim fosse, não seria necessário ir alterando esses valores. E isso que tem acontecido à medida que o conhecimento evolui, na tentativa de reduzir a contaminação permitida. Se o máximo a certa altura passa a ter um valor mais baixo, então, antes dessa correção, a lei estava a permitir que as pessoas estivessem expostas a contaminações com impacto negativo para a saúde. Nada nos garante que podemos confiar nos limites
atualmente em vigor. Quem quiser garantias encontra-as mais facilmente na agricultura biológica.

«Se os animais se alimentam de rações que contêm pesticidas, uma parte desses químicos vai ficar no organismo»

Desses 97 por cento, 53 por cento estão livres de pesticidas quantificáveis. O que significa isto?

Significa, por um lado, que quase metade do que comemos contém pesticidas. Por outro, pode significar uma de três coisas: ou não tem de facto pesticidas; ou não temos tecnologia para os detetar (a eles ou aos seus produtos de degradação) ou, finalmente, que nem sequer estamos a tentar analisá-los. Em Portugal, há mais de uma década, o Governo não faz nenhuma análise a alimentos para ver se têm glifosato, embora este seja o herbicida mais utilizado no país. Portanto, por si só, esse valor de 53 por cento não permite retirar nenhuma conclusão sólida.

99,3 por cento das amostras de alimentos bio estão livres de resíduos de pesticidas ou dentro dos limites legais, valor que não difere muito dos 97,2 por cento registados na produção convencional. O que os distingue?

O tipo de químicos permitidos na agricultura biológica é uma parte ínfima do que é utilizado na agricultura convencional. Só por isso vale a pena optar pelos alimentos biológicos. Contudo, mesmo que este tipo de produção utilizasse zero químicos, ainda seria possível detetá-los em análises, pois há sempre uma parte da contaminação impossível de evitar, como a que vem da água, do ar, do campo vizinho.


Dos alimentos analisados, o maior excesso foi registado nos brócolos, seguidos das uvas de mesa. O que explica a maior presença de resíduos de pesticidas nestes alimentos?

Podem ser muitas as razões. A importação de produtos de países fora da União Europeia onde a utilização de pesticidas é mais desregrada, más práticas culturais que levam ao aparecimento de mais pragas e, consequentemente, a um maior recurso à guerra química, ou condições climatéricas pontuais que levaram à proliferação de certas doenças, entre outros.

O que explica a sua presença em produtos de origem animal?

Se os animais se alimentam de rações que contêm pesticidas, uma parte desses químicos vai ficar no organismo. Portanto, será detetável nos respetivos produtos finais.

A EFSA concluiu que os riscos da exposição do consumidor a estes resíduos, a curto e longo prazo, são baixos. Já a PAN Europe alerta para os malefícios dos cocktails de pesticidas e afirma que esta combinação coloca em causa os limites legais e seguros estabelecidos para os resíduos de pesticidas. Quem tem razão?

Regra geral, a legislação é feita substância a substância. Para estabelecer os valores “seguros” de exposição, os animais de laboratório são expostos a um único químico para ver o que lhes acontece. Contudo, o nosso organismo pode ter dezenas ou mesmo centenas destas substâncias químicas ao mesmo tempo e algumas interagem entre si. E o impacto pode ser muito maior que a soma dos impactos individuais.

Pesticidas são substâncias químicas utilizadas na agricultura para matar organismos e maximizar a produção

As autoridades reguladoras não têm esse fator em atenção?

Nem a legislação nacional, nem a europeia levam esses e outros aspetos em consideração. Portanto, na realidade, ninguém sabe quais são os máximos seguros e os verdadeiros riscos da exposição aos pesticidas, visto que ninguém fez as experiências que poderiam trazer as respostas.

Mesmo que os níveis de resíduos de pesticidas não excedam os limites legais, podem ter consequências negativas na nossa saúde?

Sim, mesmo que as pessoas comam apenas alimentos dentro dos limites legais, ainda assim podem surgir impactos negativos para a saúde. Os estudos feitos sobre os efeitos dos pesticidas – com base nos quais os limites legais são estabelecidos – não têm duração ou potência suficiente para detetar todas as consequências. Muitas vezes, os estudos são feitos pelas próprias empresas que vendem os pesticidas. Mesmo que não se encontrasse nenhuma doença nos ratinhos de laboratório, é importante não esquecer que existem muitas diferenças entre estes e pessoas: o que é inócuo para uns pode ser fatal para os outros.

Segundo a Environmental Working Group, os benefícios para a saúde de uma dieta rica em fruta e vegetais ultrapassam os riscos de exposição a pesticidas. Por isso, comer produtos de agricultura convencional é melhor do que não comer estes alimentos. Concorda?

Concordo inteiramente. Dentro dos alimentos convencionais (não biológicos), os hortícolas e fruta frescos continuam a ser mais saudáveis do que produtos industrializados, desde conservas a doces de pastelaria.

 


7 formas de se proteger dos pesticidas

Varie o consumo de fruta e vegetais e, ao preparar os alimentos, adote alguns cuidados. Assim diminui o risco de ingerir resíduos de pesticidas. O National Pesticide Information Center indica-lhe algumas estratégias.

  • Lave bem os alimentos, mesmo que sejam biológicos ou pretenda descascá-los. Opte por lavá-los em água corrente em vez de os mergulhar em água.
  • Utilize uma escova limpa para esfregar frutos e vegetais firmes, como melões e batatas.
  • Esfregue com as mãos os frutos mais moles, como as uvas, debaixo de água a correr.
  • Coloque os frutos mais delicados, como os morangos, num passador e vire-os sobre água a correr.
  • Rejeite a camada exterior de legumes de folha, como alface e couve.
  • Descasque os hortofrutícolas sempre que possível.
  • Apare a gordura e pele da carne e peixe. Desta forma minimiza os resíduos de pesticidas que se possam acumular na gordura.
Última revisão: Outubro 2017

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